2.4
cheguei no apê cansado, encharcado de suór, fedendo.
fui direto pro chuveiro. a água fria sobre a carne maltratada me acordou o bastante pra que sentisse fome e preparasse um sanduíche no pão integral e um suco natural. a dieta de Mira excluía qualquer tipo de açúcar que não fizesse parte do alimento originalmente. de algum jeito isso afetou o efeito que o uísque tinha em meu organismo e bastava uma dose pra me deixar sonolento no final do dia.
já na cama, senti a respiração se acalmar, mais um ciclo cicardiano dando lugar a outro e peguei no sono com facilidade.
o sonho começou como rotineiramente. Izzy me visitava vinda sabe-se lá de onde. eu não queria saber. o importante é que ainda aparecia e eu sentia que nossa ligação significava mais pra ela do que as trepadas ocasionais que ainda dávamos.
deitada na cama ao meu lado ela sussurrava canções de ninar em francês medieval enquanto enrolava os chumaços de pêlos do meu peito com o indicador. dava a impressão de que estava preparando um pavio. senti-me escorregando prum nível de inconsciência mais profundo.
no sonho, agora, eu estava sentado na praia, as marolas indo e vindo num ritmo hipnótico quando, percebi, não muito distante, uma ilha.
como se fosse dotado de visão remota, senti que me afastava da praia e vi a imagem da ilha se aproximando. seu céu foi riscado por uma seqüência de objetos brilhantes que caíam rumo ao chão, deixando rastros de ar incendiado pra trás. pareciam estrelas cadentes, cometas ou coisa que o valha. diversas explosões seguiram-se na superfície da ilha até que o céu obscureceu-se.
houve silêncio.
uma voz sussurrava em meu ouvido numa língua mais estranha que francês, desprovida de vogais… parecia com os ruídos de deglutição somados ao ronronar constante de um gato ciclópico.
a voz pronunciou então uma só palavra: Peniel. pra mim, nada significava.
eu olhava para o céu novamente. as nuvens pareciam dissipar-se com o vento. observei o local onde a ilha estivera até há pouco e só vi o mar revolto.
o sono foi tranqüilo depois disso, com a ocasional intromissão de uma ou outra imagem solta que acomodava os vestígios do dia em meu inconsciente.
acordei animado, energizado até.
tomei banho, me vesti e, quando cheguei na cozinha, encontrei Mira Bandeira preparando um café da manhã à base de frutas e cereais.
-Você está pronto.- ela disse.
minhas tripas se moveram. eu mal podia esperar.
