4.2
sei que pode parecer banal, mas corro o risco mesmo assim… apesar de a temperatura amena, visitar o armazém de Lorre me deixou todo suado, me sentindo sujo. queria me lavar, trocar de roupa e passar um desodorizante qualquer antes de ir pra rua novamente.
como passei um tempo morando no escritório tinha todo o aparato necessário pra uma higiene rápida, que foi o que fiz depois de informar Rita sobre o que viria a seguir. também deixei com ela um número de telefone especial que deveria ser discado caso eu ficasse muito tempo sem entrar em contato. achei que tinha deixado tudo muito claro quando ela perguntou:
-Como é que eu faço com as contas? Aliás, meu salário tem que ser pago até dia 10, também.
fui até o cofre (quase medieval) e separei dinheiro pras contas. paguei o salário dela adiantado e brinquei "Só não foge com esse dinheiro, tá?" ela deu uma risadinha e disse:
-Só se for pra cidade vizinha! Mas não ia ter graça, certo?
Mira milagrosamente tinha respeitado minha privacidade e esperado na recepção. saí do escritório deixando Rita instruída ou tão instruída quanto possível, fui até Mira, olhei em seus olhos e perguntei:
"Vamos?"
ela me deu aquele seu olhar faminto em resposta.
-Adoro quando você fala assim, decidido…
eu também, mas parecido com ela, essa era uma faceta de minha persona que eu não estava acostumado a exibir. claro que qualquer coisa que eu pensasse sobre Mira àquela altura seria especulação. ainda nem sabia se ‘Mira Bandeira’ era nome próprio ou codinome. muitas coisas ocultas viriam à tona nos próximos dias e eu mal podia esperar.
caminhamos lado a lado pela rua. lembrei de mais uma coisa a dizer pra Rita, mas uma ligação rápida resolveria e adiei. tentando puxar conversa, perguntei pra Mira:
"E sua origem secreta?"
ela engasgou com a própria saliva, surpresa, acho e resmungou:
-Pô, Lucas, isso é hora?
respondi que qualquer hora era boa pra esse tipo de história. meio irritada, ela tirou uma bola de borracha da mochila e começou a apertar. tive a nítida impressão de que ela descontava na bola o que queria fazer em meu pescoço.
-Tudo bem.- disse afinal - Mas você vai me contar a sua primeiro. E só depois que a gente fizer uma refeição decente.
