Labirinto

January 31, 2008

4.3

Filed under: K.I.S.S.

uma refeição decente de três em três horas era o que Mira recomendava pra manter o metabolismo basal sempre trabalhando sem sobrecarga, o que poderia, entre outras coisas, causar sono em demasia. e pro tipo de atividade que ela praticava, sono não era só um luxo: era também um desperdício e, pior, perigoso.

comemos uma salada leve com tofu fornecendo proteína, frutas e suco natural. Mira recomendou que eu sempre tivesse uma garrafa de água à mão e até consegui fazer isso, mesmo que sem me desvencilhar do quartilho de uísque.

claro que depois de comer me animei a falar um pouco mais, mas ainda assim tinha dificuldade de articular meu passado numa narrativa interessante. aliás, nada em que pudesse pensar sobre mim mesmo equivaleria a uma ‘origem secreta’. foi ela que terminou fazendo a bola rolar.

-Então, Lucas, que segredos sórdidos você esconde sob a camada de verniz que é essa sua atitude de lesado?

pois é. mais direto que isso só sei lá o quê.

"Nenhuma sordidez."

-Tá, fala da sua família, então. Você é filho único?

"Não, sou o sétimo de uma longa linha de montagem." respondi e, sem querer, comecei a lembrar da casa apertada, da briga pra ver quem ia comer carne (quem chegasse primeiro na panela) e assim por diante. me saí com essa.

"Só queria ser diferente dos meus irmãos."

-E por quê isso?

"Queria ser diferente de meus pais também. Acho que você sabe do que tou falando, Mira. Se não, não precisaria se fantasiar e perseguir criminosos pra se sentir bem consigo mesma."

-Mas não é pra ser diferente que me tornei uma vigilante, Profit! É pra fazer a diferença. Meus motivos não são egoístas.

duvido que qualquer psicólogo concordasse com ela, mas é claro que não abri o jogo.

"Não queria ser como meu pai e trabalhar até ficar tão doente que teve que se aposentar por invalidez. Não queria ser como meus irmãos que arrumaram subempregos quando mal tinham começado a adolescência e logo a seguir se tornaram pais de famílias que não tinham condições financeiras ou emocionais de manter. Queria fazer o mínimo possível, lucrar com isso o bastante pra manter a cabeça acima da linha do horizonte do mar de merda que minha classe social engole numa base diária e ser feliz."

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