4.5

February 10, 2008

por mais que quisesse insistir no assunto, acho que não conseguiria. talvez eu precisasse merecer pra que ela decidisse me contar sua origem.

o papo foi tão absorvente que esqueci por completo o que devíamos estar fazendo.

olhei pro horizonte pela primeira vez em muito tempo e murmurei uma frase atribuída a um sujeito tido como sábio.

"Não há coisa alguma nova sob o sol."

ela focou sua visão em mim. era uma primeira vez de novo. havia um sinal de reconhecimento em sua expressão. vou te contar: foi estranho.

"Acho melhor encerrarmos o dia e retomarmos amanhã."

-Está bem assim. Tenho alguns assuntos pendentes com a comunidade criminosa que precisam de atenção. Nada como um bate-papo noturno com a bandidagem. Te vejo amanhã, Lucas.

"Isso. E vamos tentar localizar aquela ‘testemunha’ ou seja lá o que for de que Lorre falou."

sabia que já tinha dito algo nessa linha, mas apelei pra repetição porque a abstinência de uísque tava causando algum tipo de pane no meu engenho verborrágico.

quando me voltei pra ver Mira partindo, ela já tinha ido. coisa de super. de mascarado. apelei pra imaginação, evoquei seu traseiro perfeito de qualquer modo enquanto me decidia que caminho tomar. precisava ir pra casa e fiquei sem carona.

pensei em descer até aquela fossa infernal que Lúcio chamava de bar pra trocar idéias. mas minhas pernas me levaram em outra direção. o orquidário era muito bonito naquele horário. gostava de ouvir os sons que os animais faziam ao recolherem-se pra noite. talvez ajudasse a diminuir o ritmo em que minhas memórias se forçavam no pensamento consciente. problemas com que nunca lidei de fato pedindo resolução. o ecossistema e suas justiças e injustiças independiam de meu julgamento. é provável que não haja mesmo nada novo sob o sol, mas o velho Bill fez uma emenda a essa observação que vale relembrar: ‘há mais entre o céu e a terra do que sua filosofia pode conceber’. nunca fui bom com citações.

o sono começou a bater.

me arrastei até o apartamento, sentei no sofá e olhei pela janela. deitei minha cabeça no encosto, descalcei os tênis sem mudar de posição, afrouxei o cinto. antes de adormecer de vez, de mergulhar nos recessos mais profundos da inconsciência, vi Izzy e ela estava linda. fixei minha vista em seu sorriso… o caráter mutante de sua aparência me ensinou esse truque. fixar os detalhes e construir o todo a partir deles.

4.4

February 4, 2008

-E acha que tá conseguindo?

"Na verdade, sim."

claro. acordar cedo todos os dias da semana e enfrentar um horário comercial de trabalho não era pra mim. ser detetive não era a mesma coisa que herdar uma fortuna e viver de brisa mas era bom o suficiente.

eu mantinha minha independência e não ficava frustrado porque via o resultado do trabalho. isso não aconteceria se eu me metesse em qualquer outra atividade burocrática.

"Já falei tudo que é possível de mim."

-É só isso, mesmo? Pensei que você fosse aproveitar a oportunidade pra traçar árvore genealógica e tudo mais… pra dar legitimidade a quem você é, sabe?

"Sou um detetive e descubro coisas. Pegue isso e interprete como quiser."

ela ficou séria.

até eu fiquei.

de repente me dei conta de que tinha outro motivo pra ser um bisbilhoteiro profissional: encontrar a verdade doesse a quem doesse.

era tanta seriedade que até eu já tava estranhando.

"Sua vez."

consegui dizer, sem ter tanta certeza de que queria ouvir o relato de Mira de como se tornou o que se tornou.

-Já disse: queria fazer a diferença. Trazer justiça aos oprimidos mesmo que tivesse que flexibilizar a lei pra isso.

"Mas e a sua origem? Como é sua família? De onde vem?

-Não sei se é relevante. Quer dizer, minha genética não vai explicar quem eu sou. E sou um todo. Saber como é minha família é tão útil quanto saber de onde vem o metano. Tira um pouco da graça da coisa.

"Nenhum trauma ou tragédia pessoal? Não acredito que você se fantasie e esconda a identidade só por uma noção exacerbada do que é justiça ou, ainda, por modéstia…"

-Tem a ver com percepção. Acho que quando estou fantasiada e mascarada personifico meus ideais. Minha identidade civil é muito mais dispersa e menos focada do que eu.

de certa forma fazia sentido.

"Você tem alguma habilidade especial? Tipo, superforça, visão de calor ou coisa parecida?

-Não. Se tenho algum talento especial é sorte. Nunca fiquei gripada. Me curo rápido de ferimentos. Tenho bons instintos, o que significa dizer que meus cinco sentidos são afiados o bastante pra eu perceber padrões e até perceber que não percebi algo.

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