Labirinto

April 27, 2008

5.2

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No banco de trás do bandeiramóvel tinha uma geladeira de isopor cheia de garrafas de água mineral. Estendi o braço e me servi de uma. Foda admitir isso, mas às vezes me deixo levar pela tentação de escrever algo mais dramático e termina escapando um ‘destino desconhecido’, mesmo que eu saiba aonde vou.

Era o caso na ocasião.

A água fresca descendo pela garganta pegajosa de saliva me ajudou a lembrar, a ganhar mais perspectiva do que a simples visão da estrada proporcionava.

Estávamos indo visitar o (possível) único sujeito que estivera na Cidade e se lembrava dela (o suficiente pra atrair a atenção de Lorre).

Casos assim geralmente são resolvidos por acaso. Quando você menos espera tropeça na pista essencial e, presto!, tudo resolvido. Ainda assim era bom ter a segurança de um ponto de partida. Dá a impressão de que se está indo a algum lugar mesmo que não se saiba onde. Meio contraditório, admito, mas é assim que funciona pra mim e, desta primeira vez, nós sabíamos. No entanto não havia garantias quanto ao que viria a seguir.

As casas de repouso a que estamos acostumados nos filmes não fazem jus à realidade nacional. O fato de ainda estarmos no Litoral colaborava pra piorar a sensação que causava o prédio à primeira vista. Muros altos, encimados por arame farpado e manchados por umidade esverdeada, quase limo, escondiam a casa que, em outra época, poderia ter sido uma senzala.

Depois de nos identificarmos na portaria prum segurança que parecia mais interessado em ouvir o programa radiofônico que captava na caixinha vermelha e à pilha que mantinha colada ao rosto, entramos em terreno, agora sim, desconhecido.

Os internos vestiam uniformes azuis claros que, imaginei, tinham como objetivo dar-lhes uma aparência pacífica, mas que só serviam pra contrastar com seus olhares fixos em qualquer coisa que não fosse o céu.

Contemplavam os próprios dedos como se fossem alienígenas ou o chão com receio de que se abrisse e os devorasse individual ou coletivamente. Fui tirado da observação das atitudes alheias por uma voz masculina e juvenil que surgiu do nada, depois que senti um par de dedos tamborilando em meu ombro.

Voltei o rosto em sua direção pra responder e lembrei que os foguetes V-2 na Segunda Guerra tinham efeito parecido: o som de sua chegada era precedido pela queda. Por mais calma e jovial que fosse a voz do indivíduo à minha frente, não pude deixar de sentir uma ponta de medo.

5.1

Filed under: K.I.S.S.

Esses encontros semidespertos que tinha com Izzy costumavam funcionar como uma zona de intersecção de idéias. O legal disso é que havia a tendência das idéias do sonho vazarem pro mundo consciente. Desde que estivesse atento e retivesse a informação, podia ser bastante proveitoso na minha linha de trabalho.

Depois de trocar carinhos com Izzy na zona de conforto semi-acordada em que ficava nos minutos iniciais do sono, senti um puxão pra profundezas obscuras e só acordei no dia seguinte.

Dessa vez ninguém apareceu pra preparar meu café da manhã e me virei como pude com frutas, granola, leite e, aberração!, café. Quem  me visse tomando tão pouco café (cheguei a consumir mais de um litro por dia) ia ficar chocado se soubesse como era nos tempos áureos.

Bucho cheio, escovei os dentes, fiz a barba e me meti no chuveiro. A água massageando os músculos continuava sendo minha terapia número um. Depois de praticar toda uma seqüência de atividades fisiológicas sem as quais não se pode viver por muito tempo, me vesti e fui pra rua.

O clima da tarde anterior tinha ido embora totalmente, sem deixar vestígios. Apesar de passar das 8hs o céu estava escuro, coberto por nuvens, como se fosse o presságio do que estava por vir.

Rememorei o conceito todo: encontrar uma cidade desaparecida prum sósia de Peter Lorre que trabalhava num armazém em que montou um escritório kafkiano cuja população consistia de clones seus de ambos sexos (como se isso fizesse diferença). Claro, esqueci de mencionar que meu empregador, além de prometer me tornar rico e me livrar do jugo do trabalho diário, contratou uma heroína de ação pra me ajudar a) entrar em forma e b) lidar com qualquer empecilho de natureza física com que viesse a me defrontar.

E, falando no diabo, quando menos esperava o bandeiramóvel estacionou ao meu lado e ouvi a voz inconfundível de Mira:

-Vamos, Profit. Entra aí que temos um informante a interrogar.

Entrei, passei o cinto de segurança, pus a cabeça pra fora da janela e contemplei um raio fragmentando o firmamento. Talvez por instinto passei a mão dentro do casaco e encontrei certa segurança na madeira dura do cabo de minha arma.

O carro acelerou pela avenida e logo saíamos da cidade em direção a um destino desconhecido.

Cada momento uma surpresa em potencial.

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