5.1
Esses encontros semidespertos que tinha com Izzy costumavam funcionar como uma zona de intersecção de idéias. O legal disso é que havia a tendência das idéias do sonho vazarem pro mundo consciente. Desde que estivesse atento e retivesse a informação, podia ser bastante proveitoso na minha linha de trabalho. Depois de trocar carinhos com Izzy na zona de conforto semi-acordada em que ficava nos minutos iniciais do sono, senti um puxão pra profundezas obscuras e só acordei no dia seguinte. Dessa vez ninguém apareceu pra preparar meu café da manhã e me virei como pude com frutas, granola, leite e, aberração!, café. Quem me visse tomando tão pouco café (cheguei a consumir mais de um litro por dia) ia ficar chocado se soubesse como era nos tempos áureos. Bucho cheio, escovei os dentes, fiz a barba e me meti no chuveiro. A água massageando os músculos continuava sendo minha terapia número um. Depois de praticar toda uma seqüência de atividades fisiológicas sem as quais não se pode viver por muito tempo, me vesti e fui pra rua. O clima da tarde anterior tinha ido embora totalmente, sem deixar vestígios. Apesar de passar das 8hs o céu estava escuro, coberto por nuvens, como se fosse o presságio do que estava por vir. Rememorei o conceito todo: encontrar uma cidade desaparecida prum sósia de Peter Lorre que trabalhava num armazém em que montou um escritório kafkiano cuja população consistia de clones seus de ambos sexos (como se isso fizesse diferença). Claro, esqueci de mencionar que meu empregador, além de prometer me tornar rico e me livrar do jugo do trabalho diário, contratou uma heroína de ação pra me ajudar a) entrar em forma e b) lidar com qualquer empecilho de natureza física com que viesse a me defrontar. E, falando no diabo, quando menos esperava o bandeiramóvel estacionou ao meu lado e ouvi a voz inconfundível de Mira: -Vamos, Profit. Entra aí que temos um informante a interrogar. Entrei, passei o cinto de segurança, pus a cabeça pra fora da janela e contemplei um raio fragmentando o firmamento. Talvez por instinto passei a mão dentro do casaco e encontrei certa segurança na madeira dura do cabo de minha arma. O carro acelerou pela avenida e logo saíamos da cidade em direção a um destino desconhecido. Cada momento uma surpresa em potencial.
