8.8

May 31, 2008

-‘Eles’… por que você só repete isso sem dizer quem são? Já que não vai abrir o jogo, Chuva, é melhor ficar de fora, feito? Ou…

Vi que Chuva começou a formar com os lábios um vistoso ‘ou o quê?’, mas foi interrompido pela súbita explosão muscular de Mira, cujo punho parou a milímetros de seus dentes.

-Hm.

Ele se calou. Voltou alguns passos atrás e fixou o olhar no corredor desprotegido do qual eu e Mira nos afastamos rapidamente. Ainda bem que o lugar era espaçoso, sem móveis e utensílios no meio do caminho… Pensando nisso agora, parecia organizado de modo que seguíssemos a trilha liberada adiante… talvez eu devesse ter ouvido gritos de ‘armadilha!’ dados por meu cérebro se a curiosidade, a expectativa de descobrir que raios Lorre haveria de querer com uma cidade litorânea desaparecida me faziam avançar. Claro que devia estar ainda sob a ação poderosa dos hormônios liberados pelo quase beijo que Mira me deu, mas não levei isso em conta.

Não foi surpresa ou decepção alguma entrarmos no escritório de Lorre e o encontrarmos atrás da escrivaninha, cigarro na boca e rosto parcialmente iluminado pela luz do monitor de seu pc.

Não foi angustiante saber que eles, os estranhos, estavam cientes de nossa vigilância durante o dia.

O que me deu arrepios foi pensar que Lorre, de repente, poderia ficar puto conosco e dispensar nossos serviços, o que implicaria na perda de somas obscenas de dinheiro, no fracasso da missão e na conseqüente não realização da promessa sexual feita por Mira.

-Boa noite, sr. Profit. Mira.

Lorre foi direto e nos atualizou rapidamente sobre o que sabia a nosso respeito. Fez mais que isso. Disse:

-Talvez seja adequado agirmos com clareza recíproca de agora em diante. Saber que vocês conhecem a verdade a nosso respeito vai facilitar muito a missão. O que querem saber? O que esperavam descobrir com a vigilância e a invasão?

-Por que vocês querem localizar a tal cidade perdida - Mira respondeu antes que eu pudesse falar qualquer coisa. Daí acrescentei:

“Vocês têm algum interesse além de encontrá-la, não é?”

Lorre fez algo assustador, então. Ele sorriu. Veja bem, um sorriso não deveria parecer uma ameaça, mas um sinal pra relaxar. No caso daquele em particular, a dúvida pairou por uns minutos.

8.7

May 24, 2008

-E que diabo é um gluón?-ouvi Mira perguntar enquanto sentia a inconsciência tomar conta de mim. Levei dois tabefes dela, o quê, ao invés de me amolecer os dentes, fez com que eu acordasse pra realidade perigosa que começava a se descortinar à minha frente.-Vê se fica acordado, Profit!

“O que é um gluón, Chuva?”eu esperava ter algum tipo de autoridade sobre o sujeito, já que ele disse estar ali pra me proteger e tudo mais.

-Vocês já sabem. É essa raça parecida com o gordinho de “Relíquia macabra”. Eles devem ter visto o filme, gostado do ator e copiado um molde.

-Pra quem você disse que trabalhava, mesmo?

-Lucas sabe. Ele é o maior interessado em saber, pelo menos.

Se eu lembrava direito, Chuva não queria mencionar pra Mira que estava a serviço dos deuses da verborragia. Meus deuses. Era como se em minha religião todo mundo tivesse tourette.

“Aquela chuva de que cê falou antes…” comecei, uma idéia se formando em minha cabeça “…podia ser uma neblina?”

-Claro! Neblina saindo.-Chuva disse e, logo, o bandeiramóvel estava cercado por um fog úmido, quase impenetrável.

“Eu tava pensando num fenômeno menos localizado, sabe? Tipo, se tivesse neblina suficiente na rua e na porta do armazém talvez a gente pudesse entrar sem ser captado por nenhuma câmera de segurança do bairro.”

Ele entendeu e pôs em prática. Logo Mira estava abrindo a porta da frente do armazém com sua gazua e entramos. Ninguém pensou em checar se havia um sistema de alarme. Claro que a gente já tava até a testa numa invasão criminosa quando lembrei disso. Claro, também, que se houvesse o dito sistema, ele era silencioso. Pra mim tudo bem. Não me importava muito em ser pego, mas detestava escândalo.

-Você fica aqui!-ouvi Mira ordenando Chuva.

-Por quê?-eles começavam a parecer uma dupla de repentistas.

-Vigia. Fica de olho e avisa pra gente caso cê note alguém chegando. Além do mais, nesse tipo de serviço uma terceira pessoa só vai atrapalhar.

-Mas tenho que ficar com o carinha aí! Foi o que mandaram fazer, e, por mais bonita que você seja, sua autoridade não é maior que a deles.

8.6

May 23, 2008

A lua cheia dominava o céu como um olho arregalado que só fosse esclerótica.

Mira, toda de preto, estava deslumbrante. Mesmo. Eu não conseguia tirar os olhos dela que parecia apreciar a atenção. Estávamos esperando um horário propício, um intervalo entre as rondas do vigia, pra agir.

Tava difícil controlar as mãos e não tocar em Mira.

-Toma, põe isso, Profit.- ela disse, enfiando algo de tecido na minha mão.

Não acreditei. Era uma máscara. Demorei um pouco pra entender.

-Aqui, dá pra mim que te ajudo a colocar.

Ela fez. Me viu com outros olhos, uma expressão nova no rosto.  Como se fosse um primeiro encontro. E era só uma máscara comum que motoqueiros usam pra se proteger do frio. Ainda assim, dava uma sensação ótima.

Acho que consegui entender um pouquinho a motivação de Mira através daqueles buracos no pano. O anonimato era excitante.

-Hm, você fica muito bem de máscara.-sussurrou e, a seguir, me beijou na boca pela primeira vez. Certo, foi por cima do tecido, mas a intenção era clara. Eu não podia ficar mais contente. Evidente que alguma coisa tinha que acontecer pra cortar meu barato.

-Boa noite, cidadãos. Parece uma excelente oportunidade pra uma invasão, não acham? Ah, não tentem disfarçar! Sei como são essas coisas. Vim aqui pelo mesmo motivo.

Como diabos o sujeito tinha entrado e sentado no banco traseiro do bandeiramóvel sem a gente perceber? Como ele conseguia caber lá com todas aquelas garrafas dágua cheias e vazias?

Não reconheci a voz a princípio porque dessa vez ele não estava bêbado, mas olhando pelo retrovisor dei de cara com aquele emaranhado familiar de pêlos e cabelos recentemente introduzido em minha memória.

“Chuva.”

-Agora?-ele perguntou, como se estivesse pronto a atender pedidos.

-Quem é esse cara, Profit?-Mira já devia mesmo ter visto muita merda esquisita, porque não parecia assustada com ele.

“Ele me disse pra chamá-lo de Chuva.”consegui dizer.

-Ah, entendi.-ele disse.-Você não quer uma agora?

“Ele me disse que é um tipo de garoto de recados de um pessoal com quem eu trabalhei num outro caso.”

-O que você tá fazendo aqui, Chuva?-ouvi Mira perguntar.

-Vim proteger Lucas Profit do, cê sabe, Gluón.

8.5

May 21, 2008

Estava me baseando no que Mira disse ter visto e pensando que, óbvio, Lorre e sua curriola eram invasores do espaço.

Fazia todo sentido naquele contexto de justiceiros mascarados e deuses protetores.

Como o que presenciei era diferente da experiência de Mira, consultei meus botões e tomei uma decisão drástica.

“Quando anoitecer a gente vai invadir.”

Ela piscou repetidas vezes, como se um flash tivesse espocado em seus olhos. Sorriu. Afinal, eu tinha pego ela de guarda baixa.

-Olha, Profit, pensei que você só ia querer entrar se a gente não tivesse prova de que Lorre é mais que misterioso. E temos.

Minha cabeça já estava ocupada com os perigos possíveis que enfrentaríamos no interior do armazém e não dei muita importância ao discurso de Mira.

“Você acha que ele tem armadilhas lá dentro?”

-É possível. Mas não sei se vale à pena passar por esse estresse. O cara é alienígena. Você queria saber e sabe.

“Mas não sei por que ele quer encontrar a tal cidade perdida ou Peniel ou como quer que a chame! E se os objetivos dele forem, sei lá, malignos? E se tiver alguma coisa nesse lugar que ele possa usar como arma e que venha a ameaçar a realidade como a gente conhece?”

Sim, eu estava em meu ‘modo pulp fiction’ e a todo vapor. Pensei em Hammet, o que me fez lembrar de Boggart e desejar um cigarro. Parei na hora. Queria mesmo o consolo que só Jack era capaz de dar. E não interprete isso com maldade. Estou falando de Jack Daniels.

-Talvez você tenha razão, Profit. Já que é assim, a gente precisa interromper a campana e ir fazer os preparativos pra invasão, ok?

“Faz sentido.” Respondi, outra vez, sem pensar muito.

Quando Mira estava dando ré, vimos Lorre, melhor, um dos clones com uniforme de segurança, vindo na direção do bandeiramóvel. Apostando que ele não seria capaz de nos identificar daquela distância, apressei Mira. A possibilidade de que nossa atitude suspeita atrapalhasse a incursão noturna que planejamos não me ocorreu. Só lembraria disso tarde demais.

Começamos os preparativos com uma lauta refeição à base de saladas, frutas, queijo de soja e arroz integral. Depois fomos cuidar do vestuário. Sem a barriguinha proeminente eu até que ficava bem de camiseta preta.

8.4

May 20, 2008

Um dos empregados (consegui saber que não era Lorre porque o indivíduo não estava usando o já característico terno risca de giz) saiu pela porta e ficou parado na entrada do armazém como quem esperava visita.

Olhei o relógio do celular e percebi que já era o final da tarde (minha percepção de tempo devia estar mais zoada que na época em que eu bebia) apesar da persistência da luz do dia.

De repente, como se em resposta ao que eu pensava, escureceu.

Uma nuvem que não tinha percebido antes se estendia sobre a construção. Uma nuvem escura, embora não tempestuosa. Estava tão distraído com ela que quase esqueci de olhar pro funcionário parado na entrada.

Quando retomei a observação, de modo simultâneo, a tal nuvem que não parecia tempestuosa estrondeou. Sabe como é, aquele som que começa parecido com o ronco do estômago e termina com um daqueles relâmpagos que dão a impressão que vão dizimar toda vida na Terra.

Terrível e assustador.

Mais ainda se considerar-se que a porra do relâmpago caiu exatamente sobre o empregado. Ao invés de ele adquirir poderes elétricos e decidir usar fantasia de bombom pra combater o crime, o cara foi, mais simples, desintegrado.

Eu ainda piscava com o clarão do relâmpago quando vi o mesmo elemento de costas, entrando por onde tinha saído no prédio, como se nada tivesse acontecido. Até a tal nuvem que afrouxou meu intestino (soltei um peido, nada demais) tinha sumido como se não tivesse estado lá.

Afinal olhei pra Mira que retribuía o olhar, incrédula.

“Você já deve ter visto merdas mais esquisitas. Só pra confirmar: ce viu o mesmo que eu, certo?” disse.

-Acho que sim. E acho também que o fulano foi teleportado primeiro pra dentro e depois pra fora daquela nave esquisita.

“Você disse nave?” perguntei, descrente. Não tínhamos visto a mesma coisa na verdade.

-O que você viu, Profit?

Respondi. Ela ponderou por um tempo antes de dizer:

-Isso tem a ver com o que você mesmo observou antes: naves não fazem parte de seu repertório, assim como teletransporte. Teu sistema nervoso traduziu a informação captada de um jeito que você entendesse e que fosse aceitável, apesar de absurdo.

Fiquei quieto. Por tudo que eu sabia do mundo, da existência e o resto, aquilo podia fazer mais sentido do que eu queria admitir.

8.3

May 18, 2008

Passar o dia sentado pode ser uma provação. Especialmente se você estiver sentado dentro de um automóvel sem ar-condicionado. O dia não estava escaldante. Como já disse, o ar estava fresco e úmido. Mas o sol batia diretamente na lataria, sem qualquer sombra se interpondo, aquecendo-a devagar e sempre. Lembrei da história de que, se você jogar um sapo numa panela de água fervendo, ele vai pular, tentar sair, enfim, fazer uma bagunça. Se, ao invés disso, você colocá-lo numa panela com água fria e só depois acender o fogo, ele não vai reagir, porque a mudança de temperatura é gradual.

Eu conseguia me imaginar no lugar do segundo sapo.

As costuras no banco do passageiro já deviam ter marcado minha bunda permanentemente quando arreguei e decidi esticar as pernas. Aproveitei pra descolar as roupas, grudadas de suor, do corpo.

O treinamento super-heróico de Mira tinha dado melhores resultados. Ela mal transpirava. Pelo que eu sabia dela, podia estar controlando tanto o ritmo respiratório quanto a freqüência cardíaca. E continuava bonita de se ver, mas é claro que eu não mencionaria isso pra ela sabendo do custo. Uma porrada nas costelas no estado em que me encontrava podia mover órgãos internos o bastante pra comprimir minha bexiga e me fazer mijar nas calças.

“Não, obrigado.” Me ouvi dizendo e, logo:

-Começou a falar sozinho, Profit? Pensei que tinha superado isso.

Lembrei que depois de ter chamado Lorre, melhor, Dom Scarpetta de Lorre, tinha conseguido controlar minha compulsão de falar em voz alta.

“Recaída rápida, pensamentos perniciosos, tudo isso.”

A verdade até o momento é que já passava do meio-dia e ainda não tínhamos visto qualquer movimentação anormal no armazém. Lorre chegou por volta das dez e os funcionários um pouco antes, coisa de quinze minutos. Ninguém saiu pra almoçar. Fiquei calculando que, depois do expediente, podia ser interessante invadir o lugar pra ver se descobríamos qualquer anormalidade por dentro, já que por fora era só rotina e olhe lá.

Pensar tanto já começava a me causar fadiga mental e senti falta como nunca de meu quartilho de Johnny Walker. Talvez tudo voltasse a ser permitido depois que completássemos a missão. Minhas prioridades estavam um pouco confusas e já não sabia se ia querer ficar bêbado e trepar ou trepar e ficar bêbado.

Foi aí que Mira me chamou atenção.

8.2

O ar da manhã estava fresco e entrava sem impedimento pela janela do passageiro do bandeiramóvel. Eu já tinha tomado metade da primeira garrafa dágua do dia e me peguei num dilema que dividi imediatamente com Mira.

“Certo, vamos campanar do lado de fora do armazém de Lorre e estamos relativamente bem equipados pra passar um dia quase confortável. A pergunta que não quer calar é: onde a gente vai se aliviar?”

Ela me olhou de esguelha. Dava pra ver por sua expressão que estava contando até três e que precisou estender a contagem antes de se decidir a responder.

-Você pode fazer na garrafa vazia e depois reciclar, Profit.

Nojento! Talvez eu tivesse merecido. Era melhor deixar o assunto pra lá e me preocupar com ele quando chegássemos. Minha bexiga nunca ganhou nenhuma competição de resistência. Mas tinha outra coisa que queria perguntar pra Mira.

“Esse Garça Negra… o cara existe mesmo, afinal? Sempre pensei que fosse só mais um conto de precaução que o povo contava pra manter as crianças fora da marginalidade.”

-Existe sim, mas costumava agir dentro de alguns bairros de periferia. Acho estranho que ele tenha ido te visitar assim, do nada. Pelo que sei o cara se aposentou antes da virada do milênio, mas as histórias de pessoas que tinham sido ajudadas por ele continuaram pipocando aqui e ali.

“Sempre ouvi dizer que o sujeito é meio sociopata. Violento demais.”

-Não existe essa coisa de violência ‘demais’, Profit. Pra ser um aventureiro mascarado é preciso saber a medida certa pra ocasião certa. Acredite: às vezes, demais não é o suficiente.

Nessa ela me pegou. Imaginei que quando um herói se visse no meio de um confronto com mais de um adversário seria vantajoso causar medo neles. A violência bem aplicada tem esse efeito. Sei disso por experiência própria. Me borro todo quando vejo violência. Na realidade. Ver um filme violento me arrepia, mas não me desarma tanto quanto o artigo legítimo. Apanhar de Izzy não contava porque era uma experiência erótica.

Sem querer tinha voltado ao tema do super-heroísmo e sentia que Mira não compartilhava muito de meu interesse pelo assunto. Ela vivia a coisa toda. Felizmente chegamos ao armazém e pude deixar o tempo se encarregar de levar as palavras embora.

Mira posicionou o carro de modo que não chamasse muita atenção de quem entrasse ou saísse.

8.1

May 17, 2008

Acordei moído ainda pela manhã, com a impressão de ter passado a noite em claro.

Chuveiro, refeição matinal – saudável, claro - , higiene bucal e pronto.

Estava olhando a tela iluminada do laptop outra vez. O número de resultados pra ‘noosfera’ no Google era de 136.000. Não me preocupei em procurar por Teilhard de Chardin porque o primeiro link em que cliquei já levava ao verbete dele na Wikipédia.

Sabia que o nome era familiar. De algum lugar. Meses antes, lendo a introdução de uma coletânea de entrevistas e conferências de MacLuham, encontrei com ele.

O sujeito foi um tipo de profeta da era digital e tinha previsto, antes da existência de qualquer computador, uma esfera de existência que não se tornaria real sem as outras duas.

Informado e novamente capaz de livre associação de idéias, vesti uma roupa confortável e escolhi tênis com a mesma finalidade.

Abri a janela tomado pela sensação de que, de repente, alguém entraria por ela.

O telefone tocou. Eram 8hs. Quem seria tão cedo? Ainda mais ligando pro meu número particular. Era Mira. Ela parecia estar forçando um pouco a entonação de voz quando disse:

-E aí, Profit? Você desce ou eu preciso ir te buscar aí em cima?

O que aconteceu na seqüência me abriu os olhos. Mira entrou pela janela e não tinha nenhum celular à mostra. Ainda assim continuava falando comigo ao telefone.

-Eu tava pensando na gente partir logo pro que interessa, sabe?

A única pessoa que imitava Mira instruída por nós estava me passando trote! Eu precisava arrumar mais coisas pra Rita fazer, certamente. Disse pra ela:

“Espera um pouco.” E passei o telefone pra Mira.

-Quem ta falando?’- ela disse daquele seu jeitinho matinal mal-humorado e a seguir- Bom, quem quer que fosse desligou. E aí, Profit? Dormiu bem? Passei a noite atrás de um ladrão de carros.

Depois eu ia tirar sarro de Rita. Agora queria perguntar pra Mira uma coisinha.

“Quem você conhece que é magro, alto, se veste de preto da cabeça aos pés, age a noite e pula de telhado em telhado?”

-Magro, alto e de preto? O Garça Negra, acho. Por quê?

Contei pra ela da noite anterior. Pareceu intrigada e disse:

-Será que ele saiu da aposentadoria, afinal?

E eu nem sabia que ele tinha entrado nela.

7.4

May 16, 2008

‘Noosconferência’, ‘noosfera’… novamente palavras misteriosas. Tentava associá-las com alguma outra coisa ouvida antes, mas com a chuva me encharcando minha memória, muito simples, deu pau.

Apesar de achar pouco sentido nisso, ao chegar em casa tirei as roupas e tomei uma chuveirada digna de nota. Vesti shorts, zapeei a tevê, lembrei que precisava me exercitar um pouco (mas deixei pra depois) e ao invés disso fui checar meu emails.

A pasta de spams cheia de propostas pra aumentar uma parte de minha anatomia de que nenhuma mulher ainda se queixara e, na caixa de entrada, mensagens de Rita dizendo que tudo ok, significando que a rede de segurança estaria no lugar em caso de necessidade, e outras descrevendo passo a passo a rotina do escritório.

Lorre ligou uma vez; Phillips, três. A imitação que Rita fazia de Mira aparentemente convenceu. A ligação mais longa durou trinta minutos e terminou com Phillips arfando, como numa crise de asma.  Dei o reply e sugeri que ela lesse “Trovão e delírio” só pra garantir.

A outra mensagem era daquelas que a gente recebe quando envia um email que não chega ao destinatário: maillerdaemon. Não lembrava de ter mandado mensagens no dia anterior e abri.

Curiosidade, impulso, chame do que quiser. Em sincronia com o que Chuva tinha me dito, eis que ressurge do limbo meu amigo Lúcio.

No texto, frases como ‘Forças de outra esfera estão atuando’, ‘Precisamos falar com Vladmir’, ‘Vamos beber até cair’, ‘Tenho que te apresentar a profissional que conheci’ e ‘Já ouviu falar de Teilhard de Chardin?’. ‘P.S.: Qualquer palavra nova que apareça, tente a wikipédia ou o google. Comigo sempre funciona.’

Decidi fazer exatamente isso quando acordasse no dia seguinte. No momento só podia ir capengando pra cama e torcer por uma noite de sono tranqüilo.

Desliguei o laptop, levantei e ia fechar a janela quando vi no terraço do prédio fronteiriço uma figura longilínea toda de preto. Do tipo que era possível reconhecer, mas eu não conseguiria situar de onde tão cedo.

Ele apontou um dedo na minha direção e depois elevou-o ao olho esquerdo. Quem quer que fosse era canhoto. Então começou a correr pelo terraço, dando a impressão de que ia tentar se jogar por minha janela, e pulou…

Fechei os olhos esperando ouvir o som caótico de vidro se quebrando. Quando olhei de novo, tudo continuava em seu lugar. O sujeito tinha sumido. Isso estava se tornando perturbadoramente freqüente.

7.3

May 13, 2008

O sujeito se aproximou cambaleando, bêbado, imaginei, e pôs uma das mãos em meu ombro. O bafo que vinha dele não era de cachaça. Cheirava mais como óleo diesel. O peso da mão do cara me incomodava.

-No que você se meteu dessa vez, Bono?

Listei rapidamente todas as pessoas que costumavam me chamar pelo apelido mas não consegui associar aquele rosto submerso em pêlos a qualquer uma delas. Consegui, isso sim, articular um “Tira a mão, ou…” ao mesmo tempo em que dei um repelão no sujeito.

Mais uma incógnita.

E ainda assim… seu tom parecia familiar.

-É sempre o mesmo esquema. Você só aparece por aqui quando ta em algum rolo. Dessa vez eu tinha que perguntar. Cruzou com mais algum súcubo? Foi abduzido e te fizeram sondagem anal?

Não restava dúvida de que ele sabia quem eu era.

Me preocupava desconhecer o outro lado da equação. Por menos educado que pudesse parecer, soltei:

“E quem porra é você?”

O fraseado podia ser mais delicado, mas minha paciência estava curta.

-Ninguém. Pergunta errada.

“E qual é a certa?” falei baixinho e, ainda assim, ele ouviu.

-“Pra quem você trabalha?” é a certa.

Ele devia estar se divertindo com seu joguinho. Soltou um arroto estrepitoso e caiu de bunda no chão. Consegui juntar calma o suficiente pra satisfazer seu ritual, o interrogatório que ele estava pré-programado pra responder.

-Pros teus patroões. Não pro Lorre, pros verdadeiros, pros originais. O assunto em que você se envolveu agora também interessa a eles, apesar de afetar muito pouco a noosfera. Eles garantem proteção até certo ponto. O resto fica por sua conta.

Eu definitivamente não sabia do que ele tava falando e continuaria assim se ele não fizesse referência a um certo sonho que tive.

-Eles disseram pra lembrar do babuíno e dos escorpiões.

“Macaco-rato e lagostas”, as palavras pipocaram involuntariamente. É, eu sabia, afinal, do que o bêbado falava. “Como é seu nome?” perguntei, pra futura referência.

-Chuva.- ele disse. Olhei pro céu. Um raio estilhaçou o firmamento. Quando olhei novamente, ele tinha sumido. Os pingos grossos começaram a cair.

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