8.8
-‘Eles’… por que você só repete isso sem dizer quem são? Já que não vai abrir o jogo, Chuva, é melhor ficar de fora, feito? Ou…
Vi que Chuva começou a formar com os lábios um vistoso ‘ou o quê?’, mas foi interrompido pela súbita explosão muscular de Mira, cujo punho parou a milímetros de seus dentes.
-Hm.
Ele se calou. Voltou alguns passos atrás e fixou o olhar no corredor desprotegido do qual eu e Mira nos afastamos rapidamente. Ainda bem que o lugar era espaçoso, sem móveis e utensílios no meio do caminho… Pensando nisso agora, parecia organizado de modo que seguíssemos a trilha liberada adiante… talvez eu devesse ter ouvido gritos de ‘armadilha!’ dados por meu cérebro se a curiosidade, a expectativa de descobrir que raios Lorre haveria de querer com uma cidade litorânea desaparecida me faziam avançar. Claro que devia estar ainda sob a ação poderosa dos hormônios liberados pelo quase beijo que Mira me deu, mas não levei isso em conta.
Não foi surpresa ou decepção alguma entrarmos no escritório de Lorre e o encontrarmos atrás da escrivaninha, cigarro na boca e rosto parcialmente iluminado pela luz do monitor de seu pc.
Não foi angustiante saber que eles, os estranhos, estavam cientes de nossa vigilância durante o dia.
O que me deu arrepios foi pensar que Lorre, de repente, poderia ficar puto conosco e dispensar nossos serviços, o que implicaria na perda de somas obscenas de dinheiro, no fracasso da missão e na conseqüente não realização da promessa sexual feita por Mira.
-Boa noite, sr. Profit. Mira.
Lorre foi direto e nos atualizou rapidamente sobre o que sabia a nosso respeito. Fez mais que isso. Disse:
-Talvez seja adequado agirmos com clareza recíproca de agora em diante. Saber que vocês conhecem a verdade a nosso respeito vai facilitar muito a missão. O que querem saber? O que esperavam descobrir com a vigilância e a invasão?
-Por que vocês querem localizar a tal cidade perdida - Mira respondeu antes que eu pudesse falar qualquer coisa. Daí acrescentei:
“Vocês têm algum interesse além de encontrá-la, não é?”
Lorre fez algo assustador, então. Ele sorriu. Veja bem, um sorriso não deveria parecer uma ameaça, mas um sinal pra relaxar. No caso daquele em particular, a dúvida pairou por uns minutos.
