Labirinto

May 3, 2008

5.5

Filed under: K.I.S.S.

Enquanto se retirava mais uma vez pra buscar os documentos de Roberto Maia, percebi que Phillips estava tirando mais proveito da situação que eu.

Ele passou por Mira a caminho do escritório e tocou o braço descoberto com seus dedos gélidos de médico de loucos e fiquei arrepiado.

Será que Mira se sentiria atraída pelos aparentes dotes intelectuais de Phillips?

Sim, porque pelo resto era improvável.

-A Cidade estava em ruínas… fogo no céu… as feras do ar se digladiavam em nosso chão, esturricando o asfalto, derretendo tudo com sua chama… um deles nos defendia dos outros, como um cão de guarda, mas mais selvagem e poderoso.

O sr. Maia parecia preso em seu delírio e lembrei, mesmo assim, do sonho sinistro que tivera algumas noites antes. Explosões sobre uma ilha. Será que daria pra tirar informação útil da alucinação do velho?

Resolvi arriscar.

Chamei Mira e pedi que ela falasse com o homem, já que este havia se identificado com ela. Que lhe perguntasse sobre a Cidade.

Ela foi pro lado da cadeira de rodas e acocorou-se. Sei que não deveria pensar nisso naquela hora, mas uma onda de luxúria varreu minhas outras preocupações e ganhei uma ereção que durou enquanto a memória do movimento descendente de Mira ecoou em minha mente. Ouvi o que ela disse:

-Você foi Velocidade da Luz. O que fazia na Cidade?

-Eu tinha poder. Eu corria… vrooom! Mas rompi a barreira vibracional e não consegui sintonizar a freqüência  certa novamente. E agora não corro mais. Na Cidade correr me rejuvenesce e aqui sou velho de novo.

Continuava fazendo pouco sentido. Se pelo menos eu tivesse lido mais gibis enquanto crescia ao invés de estudar… talvez fizesse idéia do que ele falava. Mira, por outro lado, parecia entender, o que me tranqüilizou um pouco.

Pedi que ela perguntasse do ‘fogo no céu’.

-Muito ruim. Pessoas mortas nas ruas. Depois da batalha levou muito tempo pra limpar tudo e organizar a Cidade pra ser o futuro.

Mais besteiras. Talvez pesquisar o material e a tipagem dos documentos desse resultados melhores. Mas o velho não tinha terminado. Ele parecia estar falando do tal ‘cão de guarda’, agora.

-Gauge nos ocultou. Escondeu a Cidade numa dimensão de bolso.

5.4

Filed under: K.I.S.S.

-Eu esqueci quase tudo.- ele disse e era perceptível em seu olhar a imprecisão que o mundo devia representar. As lágrimas finalmente escorreram pela pele rendilhada de rugas da face do velho.-Eu já fui como você.- acrescentou com um dedo entortado pela artrite apontando o peito de Mira.-Já fui um herói… mas esqueci… esqueci o nome de meu relâmpago e em breve vou morrer sem lembrar, sem esperança…

Até ali nada do que ele disse estava no relatório de Lorre. Tudo que havia na folha de papel timbrado era uma possível localização da Cidade perdida baseada em informações obtidas com o homem que chamava a si mesmo de ‘velocidade da luz’.

Será que o fato de que Mira estava dando apoio logístico e tático atrairia o resto da chamada comunidade heróica?

“Sr. Maia… poderia nos falar do que lembra da cidade em que esteve por…?” Não tinha essa informação. Phillips voltara com o livro pra Mira autografar e a pasta do caso de Roberto Maia. Falou:

-Segundo informações do sr. Maia aqui, ele esteve na cidade desde seu nascimento. Como não havia registros de sua existência em nenhum cartório local, nos baseamos nos documentos encontrados com ele para estabelecer sua identidade. A idade aparente não bate com o nascimento registrado nos papéis que carregava.

Complicado, pensei comigo mesmo. Estranho que não tenham desconfiado da história fictícia que inventamos pra conseguir a entrevista.

-Talvez o sr. esteja se perguntando se não desconfiamos da história da herança que sua secretária nos contou. Acredite, não há motivo para duvidar que o sr. Maia seja quem os documentos atestam.

“Você ainda os tem?” perguntei, com um princípio de arrepio subindo por minha espinha. Talvez pudesse usar os documentos pra rastrear a Cidade. Determinar o material de que eram feitos, tinta, impressão, a porra toda, como nos programas de tevê.

-Estão nos nossos arquivos.

“Poderia nos mostrar?”

A situação parecia mais promissora agora do que quando o sr. Roberto Maia delirava a respeito de um relâmpago sem nome. Relâmpagos não têm nome mesmo. São os furacões que os têm. Phillips sorriu seu melhor sorriso, mostrando dentes protuberantes, ameaçadores. Então disse:

-Em troca daquele autógrafo, sim, claro.

Get free blog up and running in minutes with Blogsome
Theme designed by Jay of onefinejay.com