6.1
O caminho de volta pra cidade foi percorrido em silêncio. Exceto pelos sons do carro, aceleração, freagem, mudança de marchas…
Comecei a achar possível que Mira tivesse se chateado por eu usá-la pra obter os documentos com Phillips.
Como se fosse algo pessoal.
Talvez ela pensasse que eu devia ter recusado a chance de conseguir novas pistas a fim de preservar sua integridade ou qualquer que fosse o valor moral que ela via manchado por minha atitude.
Quebrando a monotonia de subidas, descidas e curvas, perguntei:
“Você não deu seu telefone verdadeiro pro Phillips, deu?”
-O do seu escritório. Sua estagiária pode fingir que é Mira Bandeira.
“Claro. Vou dar os telefones dele pra ela registrar no identificador de chamadas. Rita vai gostar de flertar com o cara.”
Era verdade.
Seria mais um passatempo pra Rita e, se ela conseguisse tirar qualquer informação extra de Phillips no processo, poderia se tornar um passatempo útil. Me vi gostando cada vez mais do jeito que Mira pensava.
Me atormentava um pouco a possibilidade de os documentos redundarem em nada. Tinha a ver com o fato de eu não poder contar com alguém que fosse especializado em materiais pra produção deles.
Lembrei do Mosca, o amigo ex-empelotado de Lúcio, e me dei conta de que não saberia como chegar a ele. O sujeito certamente entenderia de mais uma disciplina exotérica pra nosotros simples mortais.
Decidi pelo óbvio. Mira devia ter contatos no submundo tão bons ou melhores do que Lúcio pra o que eu tinha em mente. Perguntei:
“Você conhece algum falsário?”
Ela me olhou desconfiada a princípio, mas pareceu entender a seguir. Mira, imaginei, devia ter uma rede de informantes funcional, caras de menor periculosidade que ela pudesse intimidar sem maior esforço.
Falsários se encaixavam nesse perfil. São figuras que dependem de um bom olho e mãos ágeis no ofício, membros facilmente danificáveis por uma dose ínfima da velha violência que Mira sabia infligir tão bem.
Virando o volante com vigor, ela respondeu:
-Tem um cara, sim. Ele não é só falsário, mas pro que você tem em mente deve servir. O sujeito mexe com umas porcarias doentias, então é bom irmos lá de estômago vazio.
Ela começou a fazer uma série de manobras estranhas assim que entramos na cidade e senti a familiaridade do terreno no momento em que fez a curva pra entrar numa rua de mão única na contramão.
