6.2
A familiaridade aumentou quando vi que íamos bater de frente com um Nissan que vinha na direção oposta. Assustado, olhei pra Mira e vi que ela estava dirigindo de olhos fechados.
A proximidade de outro carro me fez fazer o mesmo e esperei o beijo de metal, o retorcer das ferragens e a dor que antecipava a morte.
Um minuto inteiro se passou antes que os abrisse de novo e visse as ruas sujas e abandonadas da cidade… ruas em que costumava andar, com bares e construções que conhecia mas que pareciam estranhamente alteradas pela luz azulada e mortiça que se filtrava pelas nuvens escuras.
Parecia uma situação tirada de um episódio de Além da Imaginação e entendi de onde vinha a familiaridade que sentira instantes antes.
-Sei que você já passou por merda pior, Lucas, mas toda vez que tenho que dirigir até aqui sinto ânsia de vômito.
Mira parecia levemente esverdeada sob a máscara, mesmo. Ela parou do lado de fora de um prédio de dois andares que parecia mais dilapidado por fora… na verdade parecia só uma fachada que foi branca em alguma época mas agora estava coberta por um limo escuro, com plantas crescendo nas rachaduras, dando a aparência de instabilidade às paredes.
A porta em que Mira bateu três vezes era uma folha de zinco com uma mensagem escrita em pincel atômico: CORRESPONDÊNCIA NO NÚMERO 23.
Entramos assim que um vão surgiu entre o batente e a porta.
Dentro uma escuridão, também azulada, preenchia o corredor que levava a uma sala iluminada por lâmpada incandescente.
Sentado por trás de uma escrivaninha coberta de papéis e livros estava o sujeito que outrora conheci como Mosca. Exceto que no momento ele parecia com Jeff Goldblum antes do teleporte. A cura de sua pele pelo prego abençoado foi permanente.
Mira não perdeu tempo e falou logo de vez:
-Mosca, precisamos de um serviço.
Ele se assustou. Embora estivesse na mesma sala que a gente, aparentava estar com a cabeça em outro lugar. Piscou várias vezes e olhou com ar de estranhamento em nossa direção.
-Mira. Sr. Profit… o daemon deve ter deixado vocês entrarem. Eu estava numa noosconferência.
