Labirinto

May 10, 2008

7.1

Filed under: K.I.S.S.

O sol incidia diretamente no pára-brisa do bandeiramóvel e me atingia como se tivesse sofrido um desvio.

Saí do carro e Mira me acompanhou. Sentamos no capô que começava a esfriar. Os minutos passavam enquanto o sol, parecendo um Sonrisal gigantesco e em chamas, mergulhava no mar. Quase dava pra ouvir o chiado dele se dissolvendo. Mira disse:

-Você já parou pra pensar alguma vez no que estamos vendo de verdade quando o sol ‘se põe’? A expressão dá uma idéia errada dos movimentos implicados na órbita planetária, né? Não é o sol  que está baixando. É a Terra que está girando de modo que ele ilumine outra área do globo. Quando penso nisso me vem a noção de quão pequenos nós somos. De como, por mais que façamos, algumas regras não podem ser mudadas, algumas verdades não podem ser ignoradas.

Eu precisava mesmo trazer Mira pra ver o sol se pôr mais vezes.

Se soubesse antes que assistir a um negócio tão comum ia fazer ela falar mais, já teria trazido. Eloqüência, seu nome é Mira Bandeira.

E era verdade.

Sempre imaginei que o pôr do sol tinha um quê de poético, que me lembrava casais de mãos dadas e outras banalidades. Gostava das cores também. Mas nunca lembrei de pensar que na verdade estava vendo uma demonstração da mecânica celeste e em como eu era pouco importante pra que esse movimento continuasse. Quando muito, era mais uma testemunha num planeta cheio delas.

Só sobrava uma réstia avermelhada de luz no céu e achei que devia dizer o que estava pensando pra Mira.

“Tou com fome. Vamos no Natural?”

Eu sei que você vai pensar que eu devia ter dito qualquer coisa profunda pra impressionar a moça e acompanhar seu raciocínio… mas ela falou de verdades que não podem ser ignoradas e a fome que eu sentia era uma delas. Queria alguma coisa no pão integral, massudo, que o Natural assava ali mesmo na cozinha da lanchonete. Ela respondeu:

-Ok, você venceu, mas sem fritas.

Qualquer um que tenha vivido nos 80 entenderia isso como uma referência pop, mas Mira falava a sério. Eu já podia antecipar um discurso sobre colesterol bom e ruim. Disse:

“Sem fritas, então.”

Voltei pro meu assento, apanhei outra garrafa dágua na geladeira do banco de trás e lubrifiquei a garganta. A água estava ótima, mas precisava de alguma substância extra pra voltar a funcionar direito.

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