7.3

May 13, 2008

O sujeito se aproximou cambaleando, bêbado, imaginei, e pôs uma das mãos em meu ombro. O bafo que vinha dele não era de cachaça. Cheirava mais como óleo diesel. O peso da mão do cara me incomodava.

-No que você se meteu dessa vez, Bono?

Listei rapidamente todas as pessoas que costumavam me chamar pelo apelido mas não consegui associar aquele rosto submerso em pêlos a qualquer uma delas. Consegui, isso sim, articular um “Tira a mão, ou…” ao mesmo tempo em que dei um repelão no sujeito.

Mais uma incógnita.

E ainda assim… seu tom parecia familiar.

-É sempre o mesmo esquema. Você só aparece por aqui quando ta em algum rolo. Dessa vez eu tinha que perguntar. Cruzou com mais algum súcubo? Foi abduzido e te fizeram sondagem anal?

Não restava dúvida de que ele sabia quem eu era.

Me preocupava desconhecer o outro lado da equação. Por menos educado que pudesse parecer, soltei:

“E quem porra é você?”

O fraseado podia ser mais delicado, mas minha paciência estava curta.

-Ninguém. Pergunta errada.

“E qual é a certa?” falei baixinho e, ainda assim, ele ouviu.

-“Pra quem você trabalha?” é a certa.

Ele devia estar se divertindo com seu joguinho. Soltou um arroto estrepitoso e caiu de bunda no chão. Consegui juntar calma o suficiente pra satisfazer seu ritual, o interrogatório que ele estava pré-programado pra responder.

-Pros teus patroões. Não pro Lorre, pros verdadeiros, pros originais. O assunto em que você se envolveu agora também interessa a eles, apesar de afetar muito pouco a noosfera. Eles garantem proteção até certo ponto. O resto fica por sua conta.

Eu definitivamente não sabia do que ele tava falando e continuaria assim se ele não fizesse referência a um certo sonho que tive.

-Eles disseram pra lembrar do babuíno e dos escorpiões.

“Macaco-rato e lagostas”, as palavras pipocaram involuntariamente. É, eu sabia, afinal, do que o bêbado falava. “Como é seu nome?” perguntei, pra futura referência.

-Chuva.- ele disse. Olhei pro céu. Um raio estilhaçou o firmamento. Quando olhei novamente, ele tinha sumido. Os pingos grossos começaram a cair.

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