Labirinto

May 18, 2008

8.3

Filed under: K.I.S.S.

Passar o dia sentado pode ser uma provação. Especialmente se você estiver sentado dentro de um automóvel sem ar-condicionado. O dia não estava escaldante. Como já disse, o ar estava fresco e úmido. Mas o sol batia diretamente na lataria, sem qualquer sombra se interpondo, aquecendo-a devagar e sempre. Lembrei da história de que, se você jogar um sapo numa panela de água fervendo, ele vai pular, tentar sair, enfim, fazer uma bagunça. Se, ao invés disso, você colocá-lo numa panela com água fria e só depois acender o fogo, ele não vai reagir, porque a mudança de temperatura é gradual.

Eu conseguia me imaginar no lugar do segundo sapo.

As costuras no banco do passageiro já deviam ter marcado minha bunda permanentemente quando arreguei e decidi esticar as pernas. Aproveitei pra descolar as roupas, grudadas de suor, do corpo.

O treinamento super-heróico de Mira tinha dado melhores resultados. Ela mal transpirava. Pelo que eu sabia dela, podia estar controlando tanto o ritmo respiratório quanto a freqüência cardíaca. E continuava bonita de se ver, mas é claro que eu não mencionaria isso pra ela sabendo do custo. Uma porrada nas costelas no estado em que me encontrava podia mover órgãos internos o bastante pra comprimir minha bexiga e me fazer mijar nas calças.

“Não, obrigado.” Me ouvi dizendo e, logo:

-Começou a falar sozinho, Profit? Pensei que tinha superado isso.

Lembrei que depois de ter chamado Lorre, melhor, Dom Scarpetta de Lorre, tinha conseguido controlar minha compulsão de falar em voz alta.

“Recaída rápida, pensamentos perniciosos, tudo isso.”

A verdade até o momento é que já passava do meio-dia e ainda não tínhamos visto qualquer movimentação anormal no armazém. Lorre chegou por volta das dez e os funcionários um pouco antes, coisa de quinze minutos. Ninguém saiu pra almoçar. Fiquei calculando que, depois do expediente, podia ser interessante invadir o lugar pra ver se descobríamos qualquer anormalidade por dentro, já que por fora era só rotina e olhe lá.

Pensar tanto já começava a me causar fadiga mental e senti falta como nunca de meu quartilho de Johnny Walker. Talvez tudo voltasse a ser permitido depois que completássemos a missão. Minhas prioridades estavam um pouco confusas e já não sabia se ia querer ficar bêbado e trepar ou trepar e ficar bêbado.

Foi aí que Mira me chamou atenção.

8.2

Filed under: K.I.S.S.

O ar da manhã estava fresco e entrava sem impedimento pela janela do passageiro do bandeiramóvel. Eu já tinha tomado metade da primeira garrafa dágua do dia e me peguei num dilema que dividi imediatamente com Mira.

“Certo, vamos campanar do lado de fora do armazém de Lorre e estamos relativamente bem equipados pra passar um dia quase confortável. A pergunta que não quer calar é: onde a gente vai se aliviar?”

Ela me olhou de esguelha. Dava pra ver por sua expressão que estava contando até três e que precisou estender a contagem antes de se decidir a responder.

-Você pode fazer na garrafa vazia e depois reciclar, Profit.

Nojento! Talvez eu tivesse merecido. Era melhor deixar o assunto pra lá e me preocupar com ele quando chegássemos. Minha bexiga nunca ganhou nenhuma competição de resistência. Mas tinha outra coisa que queria perguntar pra Mira.

“Esse Garça Negra… o cara existe mesmo, afinal? Sempre pensei que fosse só mais um conto de precaução que o povo contava pra manter as crianças fora da marginalidade.”

-Existe sim, mas costumava agir dentro de alguns bairros de periferia. Acho estranho que ele tenha ido te visitar assim, do nada. Pelo que sei o cara se aposentou antes da virada do milênio, mas as histórias de pessoas que tinham sido ajudadas por ele continuaram pipocando aqui e ali.

“Sempre ouvi dizer que o sujeito é meio sociopata. Violento demais.”

-Não existe essa coisa de violência ‘demais’, Profit. Pra ser um aventureiro mascarado é preciso saber a medida certa pra ocasião certa. Acredite: às vezes, demais não é o suficiente.

Nessa ela me pegou. Imaginei que quando um herói se visse no meio de um confronto com mais de um adversário seria vantajoso causar medo neles. A violência bem aplicada tem esse efeito. Sei disso por experiência própria. Me borro todo quando vejo violência. Na realidade. Ver um filme violento me arrepia, mas não me desarma tanto quanto o artigo legítimo. Apanhar de Izzy não contava porque era uma experiência erótica.

Sem querer tinha voltado ao tema do super-heroísmo e sentia que Mira não compartilhava muito de meu interesse pelo assunto. Ela vivia a coisa toda. Felizmente chegamos ao armazém e pude deixar o tempo se encarregar de levar as palavras embora.

Mira posicionou o carro de modo que não chamasse muita atenção de quem entrasse ou saísse.

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