Labirinto

May 18, 2008

8.2

Filed under: K.I.S.S.

O ar da manhã estava fresco e entrava sem impedimento pela janela do passageiro do bandeiramóvel. Eu já tinha tomado metade da primeira garrafa dágua do dia e me peguei num dilema que dividi imediatamente com Mira.

“Certo, vamos campanar do lado de fora do armazém de Lorre e estamos relativamente bem equipados pra passar um dia quase confortável. A pergunta que não quer calar é: onde a gente vai se aliviar?”

Ela me olhou de esguelha. Dava pra ver por sua expressão que estava contando até três e que precisou estender a contagem antes de se decidir a responder.

-Você pode fazer na garrafa vazia e depois reciclar, Profit.

Nojento! Talvez eu tivesse merecido. Era melhor deixar o assunto pra lá e me preocupar com ele quando chegássemos. Minha bexiga nunca ganhou nenhuma competição de resistência. Mas tinha outra coisa que queria perguntar pra Mira.

“Esse Garça Negra… o cara existe mesmo, afinal? Sempre pensei que fosse só mais um conto de precaução que o povo contava pra manter as crianças fora da marginalidade.”

-Existe sim, mas costumava agir dentro de alguns bairros de periferia. Acho estranho que ele tenha ido te visitar assim, do nada. Pelo que sei o cara se aposentou antes da virada do milênio, mas as histórias de pessoas que tinham sido ajudadas por ele continuaram pipocando aqui e ali.

“Sempre ouvi dizer que o sujeito é meio sociopata. Violento demais.”

-Não existe essa coisa de violência ‘demais’, Profit. Pra ser um aventureiro mascarado é preciso saber a medida certa pra ocasião certa. Acredite: às vezes, demais não é o suficiente.

Nessa ela me pegou. Imaginei que quando um herói se visse no meio de um confronto com mais de um adversário seria vantajoso causar medo neles. A violência bem aplicada tem esse efeito. Sei disso por experiência própria. Me borro todo quando vejo violência. Na realidade. Ver um filme violento me arrepia, mas não me desarma tanto quanto o artigo legítimo. Apanhar de Izzy não contava porque era uma experiência erótica.

Sem querer tinha voltado ao tema do super-heroísmo e sentia que Mira não compartilhava muito de meu interesse pelo assunto. Ela vivia a coisa toda. Felizmente chegamos ao armazém e pude deixar o tempo se encarregar de levar as palavras embora.

Mira posicionou o carro de modo que não chamasse muita atenção de quem entrasse ou saísse.

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