8.4
Um dos empregados (consegui saber que não era Lorre porque o indivíduo não estava usando o já característico terno risca de giz) saiu pela porta e ficou parado na entrada do armazém como quem esperava visita.
Olhei o relógio do celular e percebi que já era o final da tarde (minha percepção de tempo devia estar mais zoada que na época em que eu bebia) apesar da persistência da luz do dia.
De repente, como se em resposta ao que eu pensava, escureceu.
Uma nuvem que não tinha percebido antes se estendia sobre a construção. Uma nuvem escura, embora não tempestuosa. Estava tão distraído com ela que quase esqueci de olhar pro funcionário parado na entrada.
Quando retomei a observação, de modo simultâneo, a tal nuvem que não parecia tempestuosa estrondeou. Sabe como é, aquele som que começa parecido com o ronco do estômago e termina com um daqueles relâmpagos que dão a impressão que vão dizimar toda vida na Terra.
Terrível e assustador.
Mais ainda se considerar-se que a porra do relâmpago caiu exatamente sobre o empregado. Ao invés de ele adquirir poderes elétricos e decidir usar fantasia de bombom pra combater o crime, o cara foi, mais simples, desintegrado.
Eu ainda piscava com o clarão do relâmpago quando vi o mesmo elemento de costas, entrando por onde tinha saído no prédio, como se nada tivesse acontecido. Até a tal nuvem que afrouxou meu intestino (soltei um peido, nada demais) tinha sumido como se não tivesse estado lá.
Afinal olhei pra Mira que retribuía o olhar, incrédula.
“Você já deve ter visto merdas mais esquisitas. Só pra confirmar: ce viu o mesmo que eu, certo?” disse.
-Acho que sim. E acho também que o fulano foi teleportado primeiro pra dentro e depois pra fora daquela nave esquisita.
“Você disse nave?” perguntei, descrente. Não tínhamos visto a mesma coisa na verdade.
-O que você viu, Profit?
Respondi. Ela ponderou por um tempo antes de dizer:
-Isso tem a ver com o que você mesmo observou antes: naves não fazem parte de seu repertório, assim como teletransporte. Teu sistema nervoso traduziu a informação captada de um jeito que você entendesse e que fosse aceitável, apesar de absurdo.
Fiquei quieto. Por tudo que eu sabia do mundo, da existência e o resto, aquilo podia fazer mais sentido do que eu queria admitir.
