11.1

June 29, 2008

Dormi até mais tarde na manhã seguinte ou foi o que pensei… na verdade tinha dormido o mesmo número de horas de sempre, mas fui pego desprevenido pelo horário de verão, uma das idéias mais cretinas que alguém jamais ousou ter.

Só me ocorreu que era domingo ao checar a programação da tevê.

Pensei comigo mesmo que talvez não fosse muito inteligente ir visitar o asilo no domingo, que poderia adiar pra segunda. Lembrei de Rita na hora. Liguei o laptop, entrei no MSN e lá estava ela em toda sua glória e esplendor.

Reproduzo abaixo nosso diálogo digital:

LPROFIT: Oi, Rita. Ainda mantendo contato com o maluco da clínica Providência?

MISSRAYWORTH: Chefinho!!! Claro que sim! Trabalho é trabalho.

LPROFIT: Será possível visitar o velho ainda hoje?

MISSRAYWORTH: Tudo é possível pra Mira Bandeira! Você quer que eu ligue pro Phillips e marque?

LPROFIT: Você é um amor, Mira. Digo, Rita.

MISSRAYWORTH: Ih, chefinho, ainda me confundindo com a outra, é?

LPROFIT: Depois a gente conversa sobre seu trote, mocinha. Liga lá pro pervertido e marca uma visita pra tarde, ok?

MISSRAYWORTH: Você manda. E ele é doidinho de pedra, mesmo. Da última vez que fizemos sexo por telefone ele me pediu pra chamá-lo de Yog-sothoth.

LPROFIT: Tem alguma coisa a ver com sexo tântrico, isso? Ioga?

MISSRAYWORTH: Não, chefinho. É o nome de um monstro lovecraftiano.

LPROFIT: Bom, tem a ver com amor, então. Não pode ser tão ruim.

Falamos mais algumas amenidades mas Rita pareceu ao mesmo tempo mais irônica e distante que antes. Desliguei o laptop antes de tomar banho e comer qualquer coisa… queria um pão ou algo parecido, carboidrato pra pôr a cabeça em funcionamento, mas só tinha granola, frutas, leite e outras merdas saudáveis. Me exercitei um pouco com abdominais e flexões. Queria estar em ponto de bala quando fosse enfrentar o desafio kamasutriano que Mira provavelmente representava.

Desci e fui até a padaria tomar um expresso. Desceu suave e espanou os restos de sono dos meus olhos. Na banca peguei o jornal local e voltei pro apê. Na página policial tinha notícias dos meus amigos, como sempre, apesar de ninguém citá-los nominalmente.

10.2

June 22, 2008

Lembrar com tantos detalhes do que aconteceu me faz pensar nos filmes pornô dos anos 80. Quando os personagens não estavam dando uma ou metidos num gangbang ou fistfucking ou o que fosse, se precisassem, por exemplo, se deslocar de um lugar pra outro, mal havia edição e assistíamos ao sujeito dirigindo seu carro por todo o trajeto com a duração em tempo real do percurso todo.

Horas mortas.

Nada acontecia.

E a vida é exatamente desse jeito, não?

Cheia de horas mortas preenchidas pelo processo biológico inconsciente (coração batendo, respiração, transpiração, digestão) e alguns poucos luminares no caminho.

Às vezes lembro de coisas que gostaria de esquecer ou que não faz sentido lembrar. Gostaria que fosse diferente. Que só as coisas boas fossem acessíveis depois de passadas. Então eu teria cortado da narrativa meu encontro com o Garça Negra e me concentraria em descrever o prazer que sentia em estar de novo na companhia de Mira. Ela disse:

- Eu sei que você é melhor do que falei na outra hora.

“Não sou, não. Sou exatamente como você descreveu. Faço jus ao meu nome. Viso lucro.”

- Talvez você só esteja se escondendo atrás disso, criando uma desculpa que julgue aceitável. Ou você é um covarde?

“Outra idiossincrasia minha. Mas não é exclusiva. Tem vários outros covardes por aí.”

- Pô, Profit, você não vê que estou tentando me desculpar? Só cala boca e ouve pra variar, ok?

Concordei.

Quando ela terminou de falar, ficou claro pra mim que o que era probabilidade virou possibilidade. Estou falando da promessa de sexo que achei tão estimulante durante o treinamento.

Ela meio que deu a entender que gostava de mim e iria requerer meus serviços na cama. Isso me deixou contente, aliviou meu estresse. A compulsão por álcool deu uma arrefecida.

Consegui imaginar nós dois em ação, usando só máscaras e nada mais. Uma ereção começou a manifestar-se. Daí chegamos.

- Tá entregue. Tem programa pra amanhã?

“Claro. Visitar Phillips e o velho no asilo.”

- Já pensou no que vai perguntar dessa vez?

“Em uma ou duas coisas.” Além do mais, o Mosca ainda não tinha contatado a gente, o que restringia as alternativas de ação.

10.1

Quer saber qual o pior lugar possível pra se sentar num ônibus?

Aposto que não.

Ainda assim, lá estava eu, na parte traseira, chacoalhando como se tivessem me ligado a um daqueles aparelhos vibratórios de exercícios localizados, exceto que, claro, eram exercícios generalizados, já que meu corpo todo era submetido ao tormento balançante.

Talvez até estimulasse a próstata.

Chequei meu celular pra ver a hora e, como sempre acontece quando estou distraído, a merda começou a tocar. Queria ter um Treo, mas desses só pós-pago, então passei. Evidente que o identificador de chamadas reconhecia e registrava os números quando eles faziam parte da agenda eletrônica que eu mesmo inserira no aparelho. Que não era o caso nessa ocasião específica.

‘Unknown caller’ ou coisa assim na telinha.

“Alô?”

- Profit, você é um porra, mesmo! Onde que cê tá?

A voz parecia de Mira, mas podia muito bem ser Rita.

“Rita, não tou pra brincadeira! Desliga essa joça e vai dormir que amanhã preciso de você no escritório.”

- Não sou tua estagiária, Profit! Deixa de ser burro e me diz logo onde cê tá que tou indo te buscar.

“Mira? Tou indo pra casa, não precisa se preocupar.”

- Eu vou me sentir culpada se não te levar pessoalmente…

“O pior que podia acontecer já aconteceu. Sabe quem eu encontrei? O teu camarada esquisito, o Garça Negra. E ele colocou um trabuco na minha cara!”

- Arma? Ele não usa arma há anos. O que será que aconteceu pra ele achar que precisa disso?

“Não sei, mas me deu o maior cagaço. Preciso entornar alguma coisa que não seja suco de frutas, água, e que tenha um teor alcoólico elevado.”

- Esse barulho, Profit…? Você tá num ônibus? Qual?

“Sei lá. Peguei o primeiro que passou. Acho que vai pro centro.”

- Diz o número que eu sei todos os itinerários de memória.

“23. Hm.”

- Ok. Desce na avenida que te pego lá. – daí ela desligou.

Estranho como sou levado pelas coincidências… vi que o ônibus entrava numa avenida assim que devolvi o celular ao bolso, dei o sinal e desci. Nem um minuto inteiro se passou e lá estava o bandeiramóvel com a porta se abrindo convidativamente pra mim.

Pulei pra dentro.

9.3

June 21, 2008

Já disse que ele era um pouco mais alto que eu? Talvez isso o tenha ajudado na hora da intimidação. Tanto Lorre quanto o Garça deram a entender que havia mais raças alienígenas e, apesar de não ser ufólogo nem coisa parecida, aquilo atiçou minha curiosidade.

“Inimigo natural, é?”

- Não vou falar mais que isso: você está trabalhando pro lado errado do conflito. Basicamente está se aliando com os nazistas, só que numa escala cósmica.

‘Cósmica’ era forte. Mas explicaria o interesse dos patrocinadores de Chuva depois de tanto tempo de silêncio de rádio.

“É mais complicado do que parece…” comecei, mas fui interrompido. Ele tinha suas próprias prioridades.

- Além de possivelmente estar levando um inimigo ao melhor de nós, você ainda está arrastando Mira Bandeira junto.

Eu quis explicar que não tinha coisa alguma a ver com o envolvimento dela, que Lorre a tinha contratado, mas o Garça não queria ouvir. Muito parecido com um monte de caras que conheço, tudo que ele sabia fazer depois de começar um discurso era continuar falando sem dar trégua. O Garça não acreditava no conceito de interlocutor. Ele parecia agitado o bastante pra me espancar,  o que eu tentaria evitar com todas as minhas forças.

- Vou dizer isso e quero que preste atenção, Lucas Profit: pare agora ou vou me certificar de que você não pise na bola nunca mais. Entendido?

Eu concordei, claro.

Daí ele tirou sua pistola do coldre, apontou na minha direção e disse:

- Bang!

Foi o suficiente preu desmaiar… imagino que não tenha sido cinematográfico, em câmera lenta, porque quando recobrei os sentidos estava com o queixo dolorido.

Não vi o sujeito indo embora, apesar de não ter ficado fora do ar por muito tempo.

Ele era tudo que os jornais diziam. Um tipo de monstro moral que não aceita resposta negativa ou que alguém discorde de sua sacrossanta visão.

Felizmente não mijei nas calças, mas só porque acordei a tempo.

E o tal ônibus?

9.2

June 9, 2008

- Lucas Profit? – eu esperava uma voz assustadora, algo entre o som que nosotros emitimos e o grasnar de um pássaro. Bom, me decepcionei.

Apesar do convívio com Mira, foi chocante encontrar o sujeito de preto. Preto e amarelo. Sua roupa, sua fantasia, chamava menos atenção que os tops justos dela e, ainda assim, era mais espalhafatosa. De certa forma lembrava um pouco um uniforme de tropas de choque, quase uma armadura, como nos filmes ou nas notícias de jornal. Um colete a prova de bala negro, camisa, calça e acessórios, tudo preto como a noite. A máscara cobria o rosto todo e os olhos, percebi, eram lentes de um óculos hightech.

“Eu mesmo. E você, é?” já sabia de quem se tratava, óbvio, mas tinha um prazer mórbido em ouvir esses caras falando seus nomes de guerra em voz alta.

- Garça Negra! – era esquisito. Um nome que soava feminino por causa da terminação. De qualquer jeito a figura longilínea na escuridão próxima ao armazém era assustadora.

Silêncio. Um pouco mais do mesmo.

“É só isso? Quer dizer, você me abordou no meio da noite numa rua deserta somente pra se apresentar?” não acreditei que tinha mesmo dito aquilo, mas, cara, tava perdendo a paciência com a pausa dramática do indivíduo.

- Na verdade sou duma época em que a reticência era considerada uma virtude. E você ainda não sabe, mas precisa de mim. – vestido daquele jeito, temi por uma cantada. Até curto um pouco de masoquismo, mas prefiro as mulheres. Nada pessoal.

Os olhos sob as lentes se dilataram.

- Não sou viado, porra! Me visto assim pra ocultar minha identidade secreta! – puta merda! E eu pensando que tinha superado meu reflexo de narrar em voz alta!

“Mal aí…” foi a única coisa em que consegui pensar.

- De qualquer jeito não vim falar de mim. – parecia que as coisas voltavam ao normal entre nós.

- Você está se metendo no maior rolo e precisa ser advertido. Esse ‘homem’ que te contratou é um alienígena no pior sentido, tipo Arquivo X, mesmo, e está te usando pra chegar a alguém muito especial.

Bom, não era uma surpresa completa, já que Lorre praticamente tinha saído do armário com relação a sua origem extraterrestre.

“E de quem se trata?”

- O inimigo natural dos gluóns.

9.1

June 7, 2008

Apesar de meu elevado grau de corruptibilidade, não deixo de ser humano, e percebi sob a superfície do disfarce de Lorre que havia algo que repugnaria até a mim.

Mira, que tem padrões morais mais elevados que os meus, não deixou passar a oportunidade de me esculachar.

-Você é corrupto e covarde, Profit.

Calei a boca. Em situações assim o melhor é não discutir.

Alcançamos Chuva no lugar onde o largamos e fomos de volta, os três juntos, até o bandeiramóvel.

Chuva não estava falando pelos cotovelos e eu ainda não tinha entendido direito a natureza de nossa relação. Sabia que era um enviado dos ‘deuses’, um tipo de guarda-costas sobrenatural pra situações com as quais eu e Mira não poderíamos lidar.

-Mandou bem, Bono. Os chefes estão contentes. – fez uma pausa – mas recomendam extremo cuidado ao prosseguir com a missão. Lorre, além de não ser o que aparenta, provavelmente está mentindo.

“Como assim? Você quer dizer que mesmo caras da hierarquia dos chefes não têm certeza se o fulano disse a verdade?”

-Exato. Mas não precisa ficar nervoso. Você vai ser o primeiro a saber do que se trata quando ele revelar a mão que tem nesse jogo.

Daí Chuva fez um negócio que me deu inveja: produziu um quartilho de uísque do bolso do paletó amarfanhado, desenroscou a tampa, tomou um gole longo, deu um piparote num chapéu imaginário, virou-se e sumiu na neblina que, momentos depois, o acompanhou.

Mira já estava dentro do carro, atrás do volante. Tentei abrir a porta do carona e descobri que estava travada. Ela me olhou fazendo careta e mostrou o dedo médio num gesto universal. Acelerou me fazendo engolir poeira e fumaça e fiquei sozinho na frente do armazém.

Ia começar a andar até o ponto de ônibus mais próximo quando notei que estava sendo seguido. Sabe como é, algo que estava se tornando recorrente em minha vida. Além disso, tenho sempre a impressão de que se percebo essas coisas é porque o perseguidor assim o quer.

Parei e virei.

Escuridão.

Daí vi que uma parte dela se destacava e deslocava em minha direção. Grandes olhos orlados por um contorno amarelo brilhavam das trevas próximas. Uma garra, também amarela, projetou-se não sei bem de onde e agarrou meu antebraço.

Os olhos, então, aproximaram-se do meu rosto.

8.9

June 1, 2008

Percebi que estava me referindo a Lorre no plural, como ele mesmo fizera na sua primeira visita ao meu escritório. Conseqüência da idéia de que ele e os seus eram ‘estranhos numa terra estranha’

Finalmente entendi como soldados numa guerra devem sentir-se em relação ao adversário. Não havia palavra mais precisa pra descrever os estrangeiros do que ‘vocês’, o externo, o outro…

Possível que sequer participassem do mesmo inconsciente coletivo que nós.

-Encontrar a cidade, encontrar Peniel, é somente o primeiro passo de nossa missão. O verdadeiro objetivo é recuperar tecnologia perdida de nosso… lugar. Não nos interessa em nada a possibilidade de que seus técnicos façam engenharia reversa em nossos aparelhos e descubram a viabilidade da viagem intergaláctica. Já temos concorrentes o bastante nesse jogo.

-É só isso mesmo? Quer dizer, depois de recuperar a tal tecnologia, vocês vão voltar quietinhos pro seu ponto de origem e deixar a gente em paz? – Mira perguntou, e admirei sua frieza na situação.

-Sim. Só queremos o que nos pertence. Não há interesse de nossa parte em seu, arrã, ecossistema. As condições climáticas daqui estão muito deterioradas pra que nos servisse de colônia.

Talvez ele estivesse mentindo, talvez não.

-Além disso, nossa oferta de torná-los ricos continua de pé.

Isso me convenceu. Apesar das dúvidas iniciais, percebi que Lorre estava tão interessado em nosso habitat quanto nós no dele. Afinal, ele apertou os botões certos e termino sempre fazendo jus ao meu nome por menos lógica que seja a situação.

Falei rapidamente no ouvido de Mira:

“Vamos dar uma desculpa qualquer e sair daqui antes que ele mude de idéia e decida que é melhor desintegrar a gente ou coisa parecida.”

-Bom, vamos embora. – disse Mira, com sua entonação decidida.

-Antes de partirem, queiram lembrar que as informações que têm agora sobre nossa presença aqui não devem ser divulgadas sob qualquer circunstância.

-Ou?

-Ou cancelaremos o contrato.

Ele sorriu novamente e a dúvida a respeito do significado do sorriso durou outro tanto.

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