Labirinto

June 7, 2008

9.1

Filed under: K.I.S.S.

Apesar de meu elevado grau de corruptibilidade, não deixo de ser humano, e percebi sob a superfície do disfarce de Lorre que havia algo que repugnaria até a mim.

Mira, que tem padrões morais mais elevados que os meus, não deixou passar a oportunidade de me esculachar.

-Você é corrupto e covarde, Profit.

Calei a boca. Em situações assim o melhor é não discutir.

Alcançamos Chuva no lugar onde o largamos e fomos de volta, os três juntos, até o bandeiramóvel.

Chuva não estava falando pelos cotovelos e eu ainda não tinha entendido direito a natureza de nossa relação. Sabia que era um enviado dos ‘deuses’, um tipo de guarda-costas sobrenatural pra situações com as quais eu e Mira não poderíamos lidar.

-Mandou bem, Bono. Os chefes estão contentes. – fez uma pausa – mas recomendam extremo cuidado ao prosseguir com a missão. Lorre, além de não ser o que aparenta, provavelmente está mentindo.

“Como assim? Você quer dizer que mesmo caras da hierarquia dos chefes não têm certeza se o fulano disse a verdade?”

-Exato. Mas não precisa ficar nervoso. Você vai ser o primeiro a saber do que se trata quando ele revelar a mão que tem nesse jogo.

Daí Chuva fez um negócio que me deu inveja: produziu um quartilho de uísque do bolso do paletó amarfanhado, desenroscou a tampa, tomou um gole longo, deu um piparote num chapéu imaginário, virou-se e sumiu na neblina que, momentos depois, o acompanhou.

Mira já estava dentro do carro, atrás do volante. Tentei abrir a porta do carona e descobri que estava travada. Ela me olhou fazendo careta e mostrou o dedo médio num gesto universal. Acelerou me fazendo engolir poeira e fumaça e fiquei sozinho na frente do armazém.

Ia começar a andar até o ponto de ônibus mais próximo quando notei que estava sendo seguido. Sabe como é, algo que estava se tornando recorrente em minha vida. Além disso, tenho sempre a impressão de que se percebo essas coisas é porque o perseguidor assim o quer.

Parei e virei.

Escuridão.

Daí vi que uma parte dela se destacava e deslocava em minha direção. Grandes olhos orlados por um contorno amarelo brilhavam das trevas próximas. Uma garra, também amarela, projetou-se não sei bem de onde e agarrou meu antebraço.

Os olhos, então, aproximaram-se do meu rosto.

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