Labirinto

June 22, 2008

10.2

Filed under: K.I.S.S.

Lembrar com tantos detalhes do que aconteceu me faz pensar nos filmes pornô dos anos 80. Quando os personagens não estavam dando uma ou metidos num gangbang ou fistfucking ou o que fosse, se precisassem, por exemplo, se deslocar de um lugar pra outro, mal havia edição e assistíamos ao sujeito dirigindo seu carro por todo o trajeto com a duração em tempo real do percurso todo.

Horas mortas.

Nada acontecia.

E a vida é exatamente desse jeito, não?

Cheia de horas mortas preenchidas pelo processo biológico inconsciente (coração batendo, respiração, transpiração, digestão) e alguns poucos luminares no caminho.

Às vezes lembro de coisas que gostaria de esquecer ou que não faz sentido lembrar. Gostaria que fosse diferente. Que só as coisas boas fossem acessíveis depois de passadas. Então eu teria cortado da narrativa meu encontro com o Garça Negra e me concentraria em descrever o prazer que sentia em estar de novo na companhia de Mira. Ela disse:

- Eu sei que você é melhor do que falei na outra hora.

“Não sou, não. Sou exatamente como você descreveu. Faço jus ao meu nome. Viso lucro.”

- Talvez você só esteja se escondendo atrás disso, criando uma desculpa que julgue aceitável. Ou você é um covarde?

“Outra idiossincrasia minha. Mas não é exclusiva. Tem vários outros covardes por aí.”

- Pô, Profit, você não vê que estou tentando me desculpar? Só cala boca e ouve pra variar, ok?

Concordei.

Quando ela terminou de falar, ficou claro pra mim que o que era probabilidade virou possibilidade. Estou falando da promessa de sexo que achei tão estimulante durante o treinamento.

Ela meio que deu a entender que gostava de mim e iria requerer meus serviços na cama. Isso me deixou contente, aliviou meu estresse. A compulsão por álcool deu uma arrefecida.

Consegui imaginar nós dois em ação, usando só máscaras e nada mais. Uma ereção começou a manifestar-se. Daí chegamos.

- Tá entregue. Tem programa pra amanhã?

“Claro. Visitar Phillips e o velho no asilo.”

- Já pensou no que vai perguntar dessa vez?

“Em uma ou duas coisas.” Além do mais, o Mosca ainda não tinha contatado a gente, o que restringia as alternativas de ação.

10.1

Filed under: K.I.S.S.

Quer saber qual o pior lugar possível pra se sentar num ônibus?

Aposto que não.

Ainda assim, lá estava eu, na parte traseira, chacoalhando como se tivessem me ligado a um daqueles aparelhos vibratórios de exercícios localizados, exceto que, claro, eram exercícios generalizados, já que meu corpo todo era submetido ao tormento balançante.

Talvez até estimulasse a próstata.

Chequei meu celular pra ver a hora e, como sempre acontece quando estou distraído, a merda começou a tocar. Queria ter um Treo, mas desses só pós-pago, então passei. Evidente que o identificador de chamadas reconhecia e registrava os números quando eles faziam parte da agenda eletrônica que eu mesmo inserira no aparelho. Que não era o caso nessa ocasião específica.

‘Unknown caller’ ou coisa assim na telinha.

“Alô?”

- Profit, você é um porra, mesmo! Onde que cê tá?

A voz parecia de Mira, mas podia muito bem ser Rita.

“Rita, não tou pra brincadeira! Desliga essa joça e vai dormir que amanhã preciso de você no escritório.”

- Não sou tua estagiária, Profit! Deixa de ser burro e me diz logo onde cê tá que tou indo te buscar.

“Mira? Tou indo pra casa, não precisa se preocupar.”

- Eu vou me sentir culpada se não te levar pessoalmente…

“O pior que podia acontecer já aconteceu. Sabe quem eu encontrei? O teu camarada esquisito, o Garça Negra. E ele colocou um trabuco na minha cara!”

- Arma? Ele não usa arma há anos. O que será que aconteceu pra ele achar que precisa disso?

“Não sei, mas me deu o maior cagaço. Preciso entornar alguma coisa que não seja suco de frutas, água, e que tenha um teor alcoólico elevado.”

- Esse barulho, Profit…? Você tá num ônibus? Qual?

“Sei lá. Peguei o primeiro que passou. Acho que vai pro centro.”

- Diz o número que eu sei todos os itinerários de memória.

“23. Hm.”

- Ok. Desce na avenida que te pego lá. – daí ela desligou.

Estranho como sou levado pelas coincidências… vi que o ônibus entrava numa avenida assim que devolvi o celular ao bolso, dei o sinal e desci. Nem um minuto inteiro se passou e lá estava o bandeiramóvel com a porta se abrindo convidativamente pra mim.

Pulei pra dentro.

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