10.1
Quer saber qual o pior lugar possível pra se sentar num ônibus?
Aposto que não.
Ainda assim, lá estava eu, na parte traseira, chacoalhando como se tivessem me ligado a um daqueles aparelhos vibratórios de exercícios localizados, exceto que, claro, eram exercícios generalizados, já que meu corpo todo era submetido ao tormento balançante.
Talvez até estimulasse a próstata.
Chequei meu celular pra ver a hora e, como sempre acontece quando estou distraído, a merda começou a tocar. Queria ter um Treo, mas desses só pós-pago, então passei. Evidente que o identificador de chamadas reconhecia e registrava os números quando eles faziam parte da agenda eletrônica que eu mesmo inserira no aparelho. Que não era o caso nessa ocasião específica.
‘Unknown caller’ ou coisa assim na telinha.
“Alô?”
- Profit, você é um porra, mesmo! Onde que cê tá?
A voz parecia de Mira, mas podia muito bem ser Rita.
“Rita, não tou pra brincadeira! Desliga essa joça e vai dormir que amanhã preciso de você no escritório.”
- Não sou tua estagiária, Profit! Deixa de ser burro e me diz logo onde cê tá que tou indo te buscar.
“Mira? Tou indo pra casa, não precisa se preocupar.”
- Eu vou me sentir culpada se não te levar pessoalmente…
“O pior que podia acontecer já aconteceu. Sabe quem eu encontrei? O teu camarada esquisito, o Garça Negra. E ele colocou um trabuco na minha cara!”
- Arma? Ele não usa arma há anos. O que será que aconteceu pra ele achar que precisa disso?
“Não sei, mas me deu o maior cagaço. Preciso entornar alguma coisa que não seja suco de frutas, água, e que tenha um teor alcoólico elevado.”
- Esse barulho, Profit…? Você tá num ônibus? Qual?
“Sei lá. Peguei o primeiro que passou. Acho que vai pro centro.”
- Diz o número que eu sei todos os itinerários de memória.
“23. Hm.”
- Ok. Desce na avenida que te pego lá. – daí ela desligou.
Estranho como sou levado pelas coincidências… vi que o ônibus entrava numa avenida assim que devolvi o celular ao bolso, dei o sinal e desci. Nem um minuto inteiro se passou e lá estava o bandeiramóvel com a porta se abrindo convidativamente pra mim.
Pulei pra dentro.
