Labirinto

July 27, 2008

11.5

Filed under: K.I.S.S.

Aquilo era novidade.

Na lógica particular das histórias em quadrinhos, falar um nome mágico associado a um relâmpago tinha conseqüências transformadoras pra quem o fizesse.

Internamente eu torcia pra que Roberto da Maia dissesse o nome e se livrasse da gente, de Phillips, da cadeira de rodas, dos remédios e todas as outras aporrinhações derivadas da idade.

Algo moveu-se na minha memória, um sonho agora distante em que a mulher que não mais era mulher beijou-me repetidas vezes, seus lábios queimando um espaço internalizado, um pequeno trauma com duas sílabas. Só duas.

- Vocês vão pra dimensão de bolso comigo. Vão ajudar Gauge.

Não, não era essa a palavra. Era… bra qualquer coisa. O que quer que fosse Gauge, o velho me inspirava a querer ajudar, sim.

“Como? Quer dizer, quem é Gauge? Ou ainda, o quê é Gauge?

- Gauge veio pra nos salvar!

- Como é o nome do seu relâmpago? – Mira perguntou.

“Braman.” – eu disse.

Ambos me olharam. Estupidificados. O velho tinha uma expressão inédita no rosto. Reconhecimento. Felicidade. Como alguém que volta pra casa depois de muito tempo.

- Obrigado, sr. Profit.

Ele não pronunciou a palavra como eu esperava que fizesse. Seu corpo estremeceu e ficou ereto. Seus lábios formaram as letras com um sopro diminuto de ar.

Ele falou, mas fui ensurdecido pelo som. Um estrondo tão grandioso que estremeceu a terra sob meus pés. O céu rasgou-se de alto a baixo. Por um instante também não enxerguei nada além da luminosidade fulminante que caiu exatamente sobre Roberto da Maia. Pensei que o velho tinha sido desintegrado. Afinal, quando a luz se dissipou, pude ver Phillips estatelado na grama; Mira tinha um sorriso triunfante no rosto. Eletricidade eriçava todos os meus pêlos.

Maia estava curvado sobre si mesmo, mas a cabeça não era mais calva. Cabelos azuis claros, quase cinzas, derramavam-se sobre seu rosto. Estava nu. Suas roupas de convalescente foram consumidas pelo raio, relâmpago, o que quer que fosse.

Apoiando-se no que restou da cadeira, puro metal retorcido, ergueu-se, primeiro vacilante, depois ereto. Era longilíneo e parecia pelo menos quarenta anos mais jovem. Seu peito nu trazia a tatuagem de um relâmpago que se dividia várias vezes e terminava no umbigo. Sem motivo aparente, lembrei que várias culturas consideram o umbigo um dos centros de energia do corpo.

Maia dispendia fagulhas, parecia quase radiativo.

Sorriu pra mim um sorriso sem preço, de prazer absoluto, de poder sem igual. O Homem Mais Veloz do Planeta, Velocidade da Luz, tinha retornado.

- Sr. Profit. Enfim o vejo sem um véu entre nós.

Fiquei mudo. O que se pode dizer numa situação dessas? Ele soava bíblico, parecia saído de um filme com efeitos da IL&M. Calou minha boca pra valer. Pero no mucho.

Comments »

The URI to TrackBack this entry is: http://labirinto.blogsome.com/2008/07/27/115-2/trackback/

No comments yet.

RSS feed for comments on this post.

Leave a comment

Line and paragraph breaks automatic, e-mail address never displayed, HTML allowed: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <code> <em> <i> <strike> <strong>


Get free blog up and running in minutes with Blogsome
Theme designed by Jay of onefinejay.com