12.4

August 31, 2008

Mesmo sem poder vê-lo completamente, eu sabia que o rifle estava engatilhado. Terror absoluto inundou meu sistema nervoso. A repetição de um medo ancestral, memória filogenética de meu avô, soldado e policial, herói de aluguel que esteve sob a mira de armas tantas vezes e transmitiu a filhos e netos a tessitura da experiência, o horror ao mundo material, somente falando. Velho filho-da-puta!

O som que ouvi e que por segundos quase me fez perder o controle dos intestinos não era do cão da arma deflagrando o tiro… mais lento, mais pausado que qualquer outra coisa que já ouvira, era o som do rifle sendo desengatilhado.

O susto seguinte veio por via visual: um vulto preto saltando de trás do sofá e correndo em nossa direção. Ainda acelerado pela aura de Velocidade da Luz, pude distinguir o bico amarelo estilizado pintado na máscara, assim como as lentes assustadoras do Garça Negra se aproximando. Então ele atingiu rapidez surpreendente, passou por mim e abraçou Velocidade da Luz. Meio gay, mas não ia ser eu a dizer isso em voz alta. Não praquele cara e prum semi-deus.

- V.L.! Meu Deus, você sumiu por tanto tempo! Todo mundo pensou o pior.

- Já eu não consigo imaginar coisa pior do que o que aconteceu comigo, Garça. Em alguns momentos a morte teria sido bem-vinda.

Ok. Era de se esperar esse tipo de diálogo de sujeitos como eles. Era uma reunião do clubinho dos super-heróis. Ao ver Mira chegando e somando-se ao grupo me perguntei, não pela primeira vez, que raios eu estava fazendo ali.

Lembrei que estava preocupado com minha estagiária que, óbvio, já tinha se distraído novamente, absorvida numa conversa qualquer com sabe-deus-quem no MSN.

“Rita? Cê tá bem, garota?” tirei seus fones de ouvido dela e repeti a pergunta.

- Ai, chefinho, tou sim. O outro cara está no banheiro. Agora dá licença que o Phillips ta me contando como sobreviveu a um relâmpago graças ao wetsuit que usa debaixo das roupas formais em caso de ser abduzido pelos shoggoths pra R’Lyeh.

Não associei no momento, só quando encontrei Phillips de novo: talvez, afinal, ele não fosse um castrati.

Entrei no banheiro e me deparei com uma pilha de roupa sustentada por algum tipo de armação delicada que estava ajoelhada na frente da privada branquinha do meu reservado.

O que quer que fosse, não tinha cabeça. Cheguei perto. A pilha não se movia. Pus uma mão (cacófato) no que supus ser seu ombro e uma explosão de cabelo e barba encharcados pularam de dentro do vaso.

O cheiro de bebida barata e criolina me atingiu.

“Chuva! Que porra cê tava fazendo com a cara enfiada na privada, mané? Suicídio por afogamento?”

Ele arfou um pouco, retomando o ritmo respiratório.

- Bono, velho de guerra… tava comungando com nossos patrões. Eles me passaram as novas ordens. Tá na hora de mostrar nossa mão no jogo.

“Cê não podia usar telefone ou internet como todo mundo, porra?” perguntei, imaginando que não entenderia a resposta.

- Os deuses agem e falam por meios tortuosos, detetive. E quer coisa mais tortuosa que o sistema de esgoto duma cidade como a nossa?

O susto, dessa vez, foi porque entendi que o desgraçado estava certo. E foi claro.

Ainda mais uma informação necessária a ser obtida antes de dar a descarga, livrar-me da merda e resolver o caso.

12.3

August 24, 2008

Tudo a um passo de dar errado.

Saímos do centro e chegamos ao outro centro.

Velocidade da Luz queria que fôssemos imediatamente visitar Gauge. Eu queria falar com Rita. Precisava de um plano. Daí que a sorte interveio a meu favor. Meu celular tocou tão alto que até eu levei um susto. Era tudo de que precisava. Atendi e, como tinha de ser, Rita do outro lado da linha. Ela estava no escritório, nervosa, e eu não conseguia entender o que fazia lá em pleno domingo.

- Vim usar a internet, chefinho! E a gente tem visita… melhor, você tem visita.

“Quem é?”

- Um deles é o cara que você me mandou contatar da última vez que falamos. Já o outro…

“Peraí! Tem outro? E quem é?”

- Ele disse que você vai saber quando vier aqui.

Não tinha mais o que dizer. Falei pra Mira que precisávamos ir pro escritório, que era questão de vida ou morte e que tinha a ver com o caso. Ela acreditou e isso foi bom porque era verdade. Uma verdade meio manchada, mas ainda assim…

Depois de quase atropelar um pedestre desavisado ao estacionar o bandeiramóvel na calçada, Mira desceu e ameaçou o sujeito com a boa e velha violência física, enquanto eu corria o máximo que podia pro escritório. Velocidade da Luz me acompanhou e cruzamos a distância na vertical mais rápido que qualquer elevador.

Minha mão ia tocar a maçaneta, mas alguma coisa deu errado. Eu não conseguia envolvê-la com os dedos, que simplesmente a atravessavam. Um estouro surdo se seguiu e a maçaneta desapareceu enquanto nossa velocidade diminuía. Estávamos tão rápidos que meu corpo vibrava em outra freqüência… meus átomos desarranjaram os átomos da maçaneta. Mais uma vez, reminiscências de filmes de terror: a porta abriu sozinha, rangendo.

Rita estava com os fones de ouvido e não escutou a implosão da maçaneta. Assustou-se quando nos viu. Do outro lado da sala vi que um fuzil apontava pro meu peito detrás do sofá. Não era um cliente, óbvio. Clientes não costumam tocaiar detetives. Não desse jeito, em seus escritórios, na sala de espera. Eu precisava de toda ajuda que conseguisse e ele, afinal, veio.

12.2

August 17, 2008

A barata, descobri logo que encontramos Mosca atordoado, sobrancelhas chamuscadas, era o tal daemon. Mosca e barata. Que dupla!

O raio que tinha transformado os papéis de Roberto da Maia no anel de Velocidade da Luz quase desfez a cura miraculosa pela qual Mosca passou tempos atrás.

A pele de seu rosto estava avermelhada até o topo da cabeça. Não foram só as sobrancelhas que fugiram do perigo. Ah, e ele ficou um pouco mais lesado que o de costume.

- Nunca pensei que ia ver um troço assim: tava examinando o material no microscópio e vi, literalmente, a matéria se rearranjar! Nem os alquimistas tentaram transformar vegetal em mineral! Se bem que não estou levando em conta os coprólitos! Um campo Persinger-LaFrenière se abrindo e fechando sob meus olhos! Não tem dinheiro que pague essa experiência. Muito obrigado!

Ele falou, nós ouvimos, mas pressa era a palavra de ordem.

Pegamos o anel e Velocidade da Luz, bom, o “vestiu”. Não faz muito sentido, certo? Ele colocou o anel no dedo, sussurrou qualquer coisa e o metal começou a se comportar como líquido, cobrindo todo seu corpo, exceto a cabeça, com uma película dourada… ele não precisava mais de calças se é que isso interessa. O metal produzia também um design na pseudo-pele que imitava as linhas de costura dos tecidos mais finos.

Já estávamos de saída. Os cabelos azuis e o corpo dourado de Velocidade da Luz chamariam atenção quando chegássemos ao plano mais corriqueiro do centro da cidade e abandonássemos a iluminação bizarra do refúgio de Mosca.

Nem tive tempo de mencionar isso.

Mira e Velocidade da Luz já estavam no bandeiramóvel. Entrei e sentei no banco do passageiro ao lado da motorista. A energia que Velocidade emitia continuava funcionando como eletricidade estática pros meus pêlos e eu estava outra vez arrepiado.

- Pra onde agora? – ela perguntou olhando nosso carona pelo retrovisor.

“Talvez eu deva opinar sobre isso…”, consegui murmurar, já ciente de que não seria ouvido. Precisava dar um jeito de falar com Rita, de saber se ela conseguira fazer o que pedi. Precisava ganhar tempo, também, porque, apesar de as coisas estarem progredindo rapidamente pra sua possível conclusão, ainda não tinha esquecido que Lorre era um gluón, que Velocidade da Luz era amigo do inimigo do contratante e que estava nos levando diretamente a ele.

12.1

August 3, 2008

Mira foi a primeira super-heroína fantasiada a cruzar meu caminho. Velocidade da Luz foi o primeiro super-humano. Semi-deus, que seja.

Já tinha visto coisas estranhas. Cheirado, tateado e ouvido. Degustado, infelizmente. Mas algo miraculoso era diferente. Num instante o sujeito é um velho aleijado pela idade. Noutro foi substituído por algo saído dum romance fantástico escrito por Nietzche. A energia misteriosa que Velocidade da Luz exsudava fazia crescer minha vontade de movimento, a direção não importando, por qualquer razão.

- A dimensão de bolso está longe. – disse, suas palavras soando como energia conduzida por cabos mas lutando por liberdade.

- Velocidade da Luz? – Mira parecia meio arfante. – Seus documentos… suas coisas estão com uma pessoa de confiança na cidade. Você vai precisar delas?

Pensei no significado popular de ‘documentos’. O cara estava nu. Fazia sentido.

- Sim! Meus pertences devem ter se transformado também, agora que invoquei o relâmpago. Meu anel deve ter voltado.

Íamos ver Mosca, claro. Só que não podíamos circular com um semi-deus pelado. Tive um prazerzinho mórbido em tirar as calças de Phillips, que ainda estava desacordado, checar pra ter certeza de que ele mantivera o controle da bexiga e do esfíncter, e passar a bendita pra Velocidade da Luz. Só pra constar, a suspeita de que o sexo por telefone era uma ficção pessoal de Phillips foi confirmada. O homem era praticamente assexuado. Ou hermafrodita, como boa parte dos vermes.

As calças em Velocidade da Luz ficaram curtas, pareciam calças capri, o que ajudaria o cara a passar despercebido.

Convencê-lo a ir no carro quando o sujeito podia praticamente se teleportar pra onde bem desejasse foi difícil, mas Mira mostrou-se convincente e sedutora na medida certa.

Ele emprestou velocidade ao bandeiramóvel e fizemos o percurso em um doze avos do tempo normal. Claro que ao chegar na cidade perdemos todo o tempo ganho com as manobras rituais em ritmo desacelerado. Chegar à casa de Mosca era sempre uma puta chateação. Além disso eu não conseguia entender direito o lance do lugar. Era tudo igual ao centro da cidade, mas a luz ali parecia diferente, quase como se fosse um fluído, e uma tonalidade parecidíssima com a fotografia de um filme de terror da geração videoclipe.

Enfim, tínhamos chegado.

Entramos.

A aura energética de Velocidade da Luz iluminou o caminho até a sala de Mosca. Juro que vi uma barata de um metro de comprimento nos acompanhando, o que não aconteceu antes.

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