Labirinto

August 3, 2008

12.1

Filed under: K.I.S.S.

Mira foi a primeira super-heroína fantasiada a cruzar meu caminho. Velocidade da Luz foi o primeiro super-humano. Semi-deus, que seja.

Já tinha visto coisas estranhas. Cheirado, tateado e ouvido. Degustado, infelizmente. Mas algo miraculoso era diferente. Num instante o sujeito é um velho aleijado pela idade. Noutro foi substituído por algo saído dum romance fantástico escrito por Nietzche. A energia misteriosa que Velocidade da Luz exsudava fazia crescer minha vontade de movimento, a direção não importando, por qualquer razão.

- A dimensão de bolso está longe. – disse, suas palavras soando como energia conduzida por cabos mas lutando por liberdade.

- Velocidade da Luz? – Mira parecia meio arfante. – Seus documentos… suas coisas estão com uma pessoa de confiança na cidade. Você vai precisar delas?

Pensei no significado popular de ‘documentos’. O cara estava nu. Fazia sentido.

- Sim! Meus pertences devem ter se transformado também, agora que invoquei o relâmpago. Meu anel deve ter voltado.

Íamos ver Mosca, claro. Só que não podíamos circular com um semi-deus pelado. Tive um prazerzinho mórbido em tirar as calças de Phillips, que ainda estava desacordado, checar pra ter certeza de que ele mantivera o controle da bexiga e do esfíncter, e passar a bendita pra Velocidade da Luz. Só pra constar, a suspeita de que o sexo por telefone era uma ficção pessoal de Phillips foi confirmada. O homem era praticamente assexuado. Ou hermafrodita, como boa parte dos vermes.

As calças em Velocidade da Luz ficaram curtas, pareciam calças capri, o que ajudaria o cara a passar despercebido.

Convencê-lo a ir no carro quando o sujeito podia praticamente se teleportar pra onde bem desejasse foi difícil, mas Mira mostrou-se convincente e sedutora na medida certa.

Ele emprestou velocidade ao bandeiramóvel e fizemos o percurso em um doze avos do tempo normal. Claro que ao chegar na cidade perdemos todo o tempo ganho com as manobras rituais em ritmo desacelerado. Chegar à casa de Mosca era sempre uma puta chateação. Além disso eu não conseguia entender direito o lance do lugar. Era tudo igual ao centro da cidade, mas a luz ali parecia diferente, quase como se fosse um fluído, e uma tonalidade parecidíssima com a fotografia de um filme de terror da geração videoclipe.

Enfim, tínhamos chegado.

Entramos.

A aura energética de Velocidade da Luz iluminou o caminho até a sala de Mosca. Juro que vi uma barata de um metro de comprimento nos acompanhando, o que não aconteceu antes.

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