13.2

September 28, 2008

A princípio pensei que a presença do sujeito fosse, sei lá, ilusão de ótica e/ou alucinação consensual, já que o grupo todo parecia enxergá-lo. Velocidade da Luz era o único que parecia não achar esquisito o fato do cara alternar entre visível e invisível. Depois atribuí essa impressão à luz do sol martelando a areia branca e às ondas de calor que se desprendiam do chão. As imagens do, arrã, sonho ainda espoucando por trás de meus olhos, Mira Bandeira e o cheiro estonteante de seu corpo também eram fatores a serem levados em conta quando se tratava dessa nova percepção que dependia, isso sim, não só dos olhos mas de todo meu corpo.

O formigamento dentro da cabeça, mais precisamente na área intermediária do nariz e dos olhos, acrescentava, ainda, nostalgia à maçaroca de sensações. Acontecia com freqüência na minha pré-adolescência e eu na época achava que tinha a ver com o consumo exagerado de bebidas doces gaseificadas, as precursoras de Johnny. Bom, não tinha. A verdade é que, se havia algo de especial em mim (ou se há?), é esse ‘sentido’, não o sexto, mas o sétimo a juntar-se aos outros.

Se me tornei detetive e consegui sobreviver (mal e porcamente) disso antes de ter a vida financeira organizada e facilitada por Izzy, não foi por causa de minha ‘superdesenvolvida’ capacidade de dedução, raciocínio lógico etc. Foi por saber ler a sensação. Seguir a intuição. Coletar fatos, causas, razões e ter imaginação na dose certa pra tecer uma narrativa a partir desses recortes esparsos também ajudava. Ser um enrolão filho-da-puta ganhava tempo, claro, até a intuição bater e me carregar por paragens exóticas e, como num filme dos anos 90, ter um vislumbre das engrenagens que moviam o mistério.

Enquanto isso, o carinha que instantes atrás parecia não estar lá e agora, sim, estava, terminou seu sussurro, prece ou o que fosse, levantou da pedra em que estava sentado e, outra vez, bateu a incerteza alucinatória. Bolhas de gás subindo por trás de meus olhos.

Ele tinha crescido. Quando o vi bruxuleando de primeira não parecia maior que 1,60m. Ao nos alcançar, tinha 1,90m. Estendeu a mão, no que parecia um cumprimento comum entre esses tipos, e tocou o ombro de Velocidade da Luz. A comunicação deles se deu num nível impossível de captar pra nós, humanos… só consegui captar algumas imagens soltas do que vazou entre eles, em sua comunicação/comunhão semidivina, desprezando a necessidade de uso do aparato vocal, apesar de o possuírem. Durou muito pouco.

- Este é Heytor. Ele guarda o portal de Peniel. É através dele que vamos chegar a Gauge. – Velocidade da Luz compartilhou essa informação e então, jogou a bomba sobre nós. – Só quatro podem entrar. Um deve ficar de fora.

Pensei em perguntar o motivo, pensei em dizer o que suspeitava e aconteceu o que sempre acontece quando penso em excesso: travei. Foi Mira quem disse:

- Como assim, só quatro? Gauge vai precisar de toda ajuda com os gluóns ou eu estou enganada? Por que só quatro?

Heytor afinal se dignou a nos dirigir a palavra. Ouvi-lo era uma experiência surreal, absurda. Sua voz tinha cores, sabores, calor, sons, alma. Era a voz tranqüilizadora que eu gostaria de ouvir em uma situação extrema. A voz de um guia, líder, santo, soldado, poeta. Apesar de todas essas qualidades, a informação que chegou a nós através dela era péssima.

- Um de vocês não é quem diz ser. Fui escolhido como guardião da passagem por um só motivo: ter a capacidade de identificar quem deseja o mal à nossa comunidade.

É, eu já sabia disso e também de quem ele estava falando. Não me esquivei de bancar o ingênuo. “Quem?” estava  me sentindo estranho o bastante pra duvidar de mim mesmo. Eu era eu?

Sobre a cabeça de Chuva, as nuvens se adensaram. Vimos relâmpagos estilhaçando a placidez cinzenta. Não era ele, Mira ou Velocidade da Luz. Estava com os dois últimos há bastante tempo. Quem ocultava todo o corpo? Quem vestia preto? Eu já tinha encontrado o Garça Negra uma vez antes e ele era qualquer coisa menos cordato. A cortesia veio  na forma do exame gratuito de minha mão. Havia algo por trás disso também?

“Garça!”

Mira Bandeira agiu. Mais depressa do que eu jamais poderia, talvez recebendo rapidez da aura de Velocidade da Luz e combinado-a com seu treinamento, chutou a traquéia do Garça, que desabou desorientado, permitindo que ela se firmasse sobre ele socando sua máscara e gritando:

- Onde está ele? O que você fez com…

13.1

September 21, 2008

Mira Bandeira dirigia com perícia, o bandeiramóvel devorava a estrada, Velocidade da Luz, Garça Negra e Chuva se apertavam no banco traseiro e eu, não pela primeira vez, sentado ao lado dela, sentia crescer algo inominável sob minha calça… a visão da carne firme de seus braços perfeitos e fortes o bastante pra me quebrar inteiro era suficiente pra fazer meu raciocínio falhar e despertar o instinto primitivo de, bom, trepar. Não em árvores, você sabe.

Tentei pôr de lado os pensamentos luxuriosos. Izzy funcionaria como cruz num exorcismo desse tipo? Melhor Amélia. Amélia no pedestal da santidade, tão inalcançável quanto Mira, podia dar combate àquelas imagens de perfeição debaixo da fantasia da fantasia que se nutria de minhas bolas e imaginação.

Eu, à direita de Mira, sobrepondo ao seu rosto o de Amélia. Heroína e freira.

Precisava de um longo gole de Johnny pra acalmar os nervos mas o que estava à mão era água. Mineral.

O cenário se abriu, partiu-se, e a estrada que percorríamos agora contornava uma praia que eu nunca tinha visto conscientemente e com a qual sonhara. O céu à distância acendia-se com explosões. A voz de Izzy sussurrava francês medieval em meus ouvidos.

Sem perceber, o entorpecimento que tomava conta de minhas pernas espalhou-se pro meu tronco estrangulado pelo cinto de segurança; sem perceber, minhas pálpebras primeiro pesaram e depois arrearam de vez e o mundo dos sonhos descortinava-se diante de meus olhos por um tempo crucial, de vida e de morte e de memórias futuras.

Uma escadaria infinita erguia-se em direção ao céu e eu desejava que, pelo menos, fosse automatizada. Entre ela e eu um homem-lobo, uma fera da escuridão espacial sobre nossas cabeças, parado em desafio. Os roncos e grunhidos que emitia pareciam questionar minha agilidade e a medida de força que seria capaz de empregar. Onde estavam os escorpiões da merda quando eu mais precisava deles? A fortaleza de músculos arrancaria minha cabeça com seus dentes e a cuspiria fora… ou engasgaria com ela, o que permitiria que meu corpo acéfalo alcançasse os degraus e, se fosse mesmo uma escada rolante, chegaria ao céu. Eu não teria como saber pois minha cabeça ainda estaria entalada na garganta do lobo tendo sua glote rosada como único estímulo visual. Por quanto tempo até que os olhos parassem de funcionar e morressem com o cérebro?

Esfolei o peito e quase fraturei externo e costelas com a freada brusca de Mira. A mordida do cinto de segurança me livrou de descobrir os mistérios da digestão e me lançou ao presente. Àquele presente, não o agora.

Já disse que a praia era linda?

A superfície de uma planura próxima da perfeição, exceto por microdunas semoventes, refletia a luz do sol que ali parecia um excesso. A luz do sol, e isso é esquisito, me atingia como um som, o som de uma bigorna sob o malho, metálico, moldando minha percepção pros eventos absurdos logo ali adiante. Ainda tenho dúvidas sérias sobre o que aconteceu. Quer dizer, sobre quanto aconteceu no mundo de fato e quanto só na minha cabeça que talvez ainda esteja entalada na garganta do deus-lobo enquanto meu corpo certamente alcançou o paraíso.

Tou pondo o carro na frente dos bois.

Estávamos os cinco em pé na areia da praia e o Garça Negra devia estar se sentindo mais exposto que nunca. Preto no branco.

Daí um carinha que antes não estava lá agora estava.

E pude ver o movimento de seus lábios.

12.6

September 17, 2008

Dessa vez consegui impor meu próprio sabor de silêncio constrangedor. O Garça olhou pra mim e sei que seu olhar foi intenso não pela expressão facial soterrada por lentes e máscara, mas pelo tempo que ficou absolutamente parado, sem piscar, ou piscando em sintonia comigo, de maneira que eu não percebesse quando ele mesmo piscava.

Quem jogou um osso pro lobo do silêncio que rondava e passava de constrangedor a ameaçador foi Velocidade da Luz.

- Escute, sr. Profit, para desempenhar o papel que lhe cabe nessa trama, talvez baste saber que se trata de uma raça alienígena antiqüíssima. Onde há um gluón está toda a espécie, onde a espécie estiver, haverá o gluón.

“É pra entender isso que cê disse, Roberto?”

- Por favor, sr. Profit, não me chame assim. O homem contemporâneo supervaloriza o conceito de ‘entender’. É possível saber que chove mesmo quando não se pode conceber o ciclo de evaporação, condensação e precipitação. E, claro, quando seu companheiro ordena, chove.

- Eu não ordeno. Só sugiro. Coisas acontecem porque acontecem. – Chuva aproveitou a deixa pra participar da conversa. – Esse superpessoal é meio maníaco por controle, né não, Bono?

Chuva era doido que nem um mão-pelada em chamas correndo pro rio e mesmo assim aquele clichê do relógio quebrado se aplicava. Não gosto muito de entrar no mérito da velha questão da magia, se existe ou não existe pouco importa. Sei que nunca descreveria Chuva como um ‘produto da magia’ ou ‘enviado dos deuses’. Ele parecia mais uma moita de cabelo andrajosa, ambulante e fedorenta. Seus dentes tinham tártaro. A roupa esfarrapada pendia de seu corpo como de um cabide, tamanha sua magreza. Qualquer um poderia argumentar que Chuva era um caso clássico de esquizofrenia paranóide sem pestanejar. Ouve vozes? Sim. Acredita estar a serviço de forças superiores incognoscíveis? Também. Que há uma conspiração de forças opostas e que o equilíbrio cósmico está em risco? Idem. De algum jeito, não quero saber como, Chuva dialogava com o clima. Certo, você vai dizer, Profit entrou no delírio do sujeito. É tudo coincidência, posso te ouvir pensar. Mais uma vez, e posso estar enganado, não importa: tudo acontecia na ordem e momento certos.

Toda essa digressão pra dizer que anui com a cabeça e o coração e me senti um pouco mais distante de Mira e dos seus e um bocado mais próximo de meu aliado oriundo da ala psiquiátrica de algum hospital das redondezas.

A loucura faz parte de ser humano. Querer controlar os processos que mantém sociedade, mundo e universo em movimento, não. É inumano, desumano, super-humano. Nada a ver com minha praia.

Daí que caiu a ficha e entendi o que Velocidade da Luz quis dizer com seu ‘basta saber’. Uma explicação naquele momento não tornaria minha vida mais fácil. Como tinha sido eu a parar a bola dos acontecimentos, caprichei no bicudo e a pus pra rolar outra vez.

“Tudo bem, e agora?”

- Agora vamos aonde precisamos ir. Ajudamos quem precisamos ajudar.

Mais material aberto à interpretação, cortesia do sr. Velocidade da Luz. O Garça ajustou as luvas, e socou uma das mãos espalmada pra aumentar o efeito dramático.

- Peniel. Gauge.

Não resisti à tentação e larguei:

“Rápido! Todos pro bandeiramóvel!”

Ninguém riu.

12.5

September 7, 2008

Voltei à sala de visita acompanhado por Chuva. Merda, o jeito como pensei essa frase me fez lembrar dum desenho animado que já era velho na minha infância e tinha um sujeito azarado, mas tão azarado, que tinha uma nuvem de chuva sobre sua cabeça que o acompanhava aonde quer que fosse. Uruca. Esse era o nome dele.

Fazer essa associação com minha infância disparou  um efeito dominó pro qual eu não estava preparado e percebi que, bem ali, na minha frente, estavam versões reais de personagens que povoaram meus sonhos em tempos idos e foram primeiro sublimados depois esquecidos na rotina hipnotizante que chamamos de vida.

Essa absorção em mim mesmo durou pouco.

O Garça Negra, Velocidade da Luz e Mira Bandeira conversavam entusiasmados e ignoraram nossa entrada. Olhei pra Chuva e ele, ainda fedendo à bebida e ao líquido insalubre da privada, disse com seu tom de bêbado desleixado inspirado divinamente:

- É uma hora tão boa quanto qualquer outra, Bono.

Me aproximei dos três e lembrei do macaco-rato cagador de lagostas. Ou babuíno cagador de escorpiões. Ainda preciso decidir que versão é pior. Apesar de estar além do ateísmo, murmurei uma prece, organizada mentalmente de última hora e que, eu esperava, fosse o tipo de chamada que os deuses que supostamente me protegiam esperavam.

“Muito bem, senhores. O bicho vai pegar, mas quero sair vivo dessa e resolver o caso de vez. Favor atender pelo menos ao primeiro item.”

O Garça Negra estava de costas pra mim. Precisei pôr a mão em seu ombro e fazê-lo girar e ser tão rápido quanto o treinamento de Mira permitia pra fazer o que pretendi. Quando ele terminou a elipse sobre os calcanhares e vi meu reflexo em suas lentes soquei com toda força seu estômago. Um verdadeiro feito. Deixou o Garça muito aborrecido. Como ele não previu isso?

- Ficou louco, Profit?

Ele fez essa pergunta uns minutos depois enquanto examinava minha mão em busca de ossos quebrados. Como não reparei na armadura do cara? De qualquer jeito tinha capturado sua atenção e entre gemidos e auto-recriminação perguntei o que precisava saber.

“Por que você tava entrincheirado atrás do meu sofá e apontando um rifle pro meu peito?”

- Profit, aquilo não é um rifle, é um fuzil!

“Isso é melhor ou pior do que o que eu falei?”

- Nenhuma das alternativas. É só mais preciso. E eu não estava apontando pro seu peito. Estava apontando pra porta no caso de… você sabe.

“Não sei, não. Lembre que não sou um de vocês super-heróis e não conheço as palavras e senhas secretas de seu clubinho.”

- Gluóns, Profit. Quando você mandou sua secretária me chamar, achei que estivesse ciente da ameaça. Aliás, como ela me encontrou?

“Primeiro, Rita é minha estagiária, não secretária. Segundo, ela é estagiária de um detetive, meu velho. Sabe como é: três meses são mais que suficientes pra alguém com o conjunto certo de requisitos tornar-se capaz de encontrar qualquer um em qualquer lugar.”

- Muito impressionante, Profit. Soube que há uns meses você não seria capaz de dizer uma frase tão longa e com sentido. Parabéns. E você não quebrou dedo algum. Da próxima vez certifique-se de estar socando carne, não cota de aço revestida de kevlar.

“Vocês vivem repetindo isso e toda vez que pergunto recebo uma resposta meia-boca: que porra é um gluón?”

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