13.2
A princípio pensei que a presença do sujeito fosse, sei lá, ilusão de ótica e/ou alucinação consensual, já que o grupo todo parecia enxergá-lo. Velocidade da Luz era o único que parecia não achar esquisito o fato do cara alternar entre visível e invisível. Depois atribuí essa impressão à luz do sol martelando a areia branca e às ondas de calor que se desprendiam do chão. As imagens do, arrã, sonho ainda espoucando por trás de meus olhos, Mira Bandeira e o cheiro estonteante de seu corpo também eram fatores a serem levados em conta quando se tratava dessa nova percepção que dependia, isso sim, não só dos olhos mas de todo meu corpo.
O formigamento dentro da cabeça, mais precisamente na área intermediária do nariz e dos olhos, acrescentava, ainda, nostalgia à maçaroca de sensações. Acontecia com freqüência na minha pré-adolescência e eu na época achava que tinha a ver com o consumo exagerado de bebidas doces gaseificadas, as precursoras de Johnny. Bom, não tinha. A verdade é que, se havia algo de especial em mim (ou se há?), é esse ‘sentido’, não o sexto, mas o sétimo a juntar-se aos outros.
Se me tornei detetive e consegui sobreviver (mal e porcamente) disso antes de ter a vida financeira organizada e facilitada por Izzy, não foi por causa de minha ‘superdesenvolvida’ capacidade de dedução, raciocínio lógico etc. Foi por saber ler a sensação. Seguir a intuição. Coletar fatos, causas, razões e ter imaginação na dose certa pra tecer uma narrativa a partir desses recortes esparsos também ajudava. Ser um enrolão filho-da-puta ganhava tempo, claro, até a intuição bater e me carregar por paragens exóticas e, como num filme dos anos 90, ter um vislumbre das engrenagens que moviam o mistério.
Enquanto isso, o carinha que instantes atrás parecia não estar lá e agora, sim, estava, terminou seu sussurro, prece ou o que fosse, levantou da pedra em que estava sentado e, outra vez, bateu a incerteza alucinatória. Bolhas de gás subindo por trás de meus olhos.
Ele tinha crescido. Quando o vi bruxuleando de primeira não parecia maior que 1,60m. Ao nos alcançar, tinha 1,90m. Estendeu a mão, no que parecia um cumprimento comum entre esses tipos, e tocou o ombro de Velocidade da Luz. A comunicação deles se deu num nível impossível de captar pra nós, humanos… só consegui captar algumas imagens soltas do que vazou entre eles, em sua comunicação/comunhão semidivina, desprezando a necessidade de uso do aparato vocal, apesar de o possuírem. Durou muito pouco.
- Este é Heytor. Ele guarda o portal de Peniel. É através dele que vamos chegar a Gauge. – Velocidade da Luz compartilhou essa informação e então, jogou a bomba sobre nós. – Só quatro podem entrar. Um deve ficar de fora.
Pensei em perguntar o motivo, pensei em dizer o que suspeitava e aconteceu o que sempre acontece quando penso em excesso: travei. Foi Mira quem disse:
- Como assim, só quatro? Gauge vai precisar de toda ajuda com os gluóns ou eu estou enganada? Por que só quatro?
Heytor afinal se dignou a nos dirigir a palavra. Ouvi-lo era uma experiência surreal, absurda. Sua voz tinha cores, sabores, calor, sons, alma. Era a voz tranqüilizadora que eu gostaria de ouvir em uma situação extrema. A voz de um guia, líder, santo, soldado, poeta. Apesar de todas essas qualidades, a informação que chegou a nós através dela era péssima.
- Um de vocês não é quem diz ser. Fui escolhido como guardião da passagem por um só motivo: ter a capacidade de identificar quem deseja o mal à nossa comunidade.
É, eu já sabia disso e também de quem ele estava falando. Não me esquivei de bancar o ingênuo. “Quem?” estava me sentindo estranho o bastante pra duvidar de mim mesmo. Eu era eu?
Sobre a cabeça de Chuva, as nuvens se adensaram. Vimos relâmpagos estilhaçando a placidez cinzenta. Não era ele, Mira ou Velocidade da Luz. Estava com os dois últimos há bastante tempo. Quem ocultava todo o corpo? Quem vestia preto? Eu já tinha encontrado o Garça Negra uma vez antes e ele era qualquer coisa menos cordato. A cortesia veio na forma do exame gratuito de minha mão. Havia algo por trás disso também?
“Garça!”
Mira Bandeira agiu. Mais depressa do que eu jamais poderia, talvez recebendo rapidez da aura de Velocidade da Luz e combinado-a com seu treinamento, chutou a traquéia do Garça, que desabou desorientado, permitindo que ela se firmasse sobre ele socando sua máscara e gritando:
- Onde está ele? O que você fez com…
