Labirinto

September 17, 2008

12.6

Filed under: K.I.S.S.

Dessa vez consegui impor meu próprio sabor de silêncio constrangedor. O Garça olhou pra mim e sei que seu olhar foi intenso não pela expressão facial soterrada por lentes e máscara, mas pelo tempo que ficou absolutamente parado, sem piscar, ou piscando em sintonia comigo, de maneira que eu não percebesse quando ele mesmo piscava.

Quem jogou um osso pro lobo do silêncio que rondava e passava de constrangedor a ameaçador foi Velocidade da Luz.

- Escute, sr. Profit, para desempenhar o papel que lhe cabe nessa trama, talvez baste saber que se trata de uma raça alienígena antiqüíssima. Onde há um gluón está toda a espécie, onde a espécie estiver, haverá o gluón.

“É pra entender isso que cê disse, Roberto?”

- Por favor, sr. Profit, não me chame assim. O homem contemporâneo supervaloriza o conceito de ‘entender’. É possível saber que chove mesmo quando não se pode conceber o ciclo de evaporação, condensação e precipitação. E, claro, quando seu companheiro ordena, chove.

- Eu não ordeno. Só sugiro. Coisas acontecem porque acontecem. – Chuva aproveitou a deixa pra participar da conversa. – Esse superpessoal é meio maníaco por controle, né não, Bono?

Chuva era doido que nem um mão-pelada em chamas correndo pro rio e mesmo assim aquele clichê do relógio quebrado se aplicava. Não gosto muito de entrar no mérito da velha questão da magia, se existe ou não existe pouco importa. Sei que nunca descreveria Chuva como um ‘produto da magia’ ou ‘enviado dos deuses’. Ele parecia mais uma moita de cabelo andrajosa, ambulante e fedorenta. Seus dentes tinham tártaro. A roupa esfarrapada pendia de seu corpo como de um cabide, tamanha sua magreza. Qualquer um poderia argumentar que Chuva era um caso clássico de esquizofrenia paranóide sem pestanejar. Ouve vozes? Sim. Acredita estar a serviço de forças superiores incognoscíveis? Também. Que há uma conspiração de forças opostas e que o equilíbrio cósmico está em risco? Idem. De algum jeito, não quero saber como, Chuva dialogava com o clima. Certo, você vai dizer, Profit entrou no delírio do sujeito. É tudo coincidência, posso te ouvir pensar. Mais uma vez, e posso estar enganado, não importa: tudo acontecia na ordem e momento certos.

Toda essa digressão pra dizer que anui com a cabeça e o coração e me senti um pouco mais distante de Mira e dos seus e um bocado mais próximo de meu aliado oriundo da ala psiquiátrica de algum hospital das redondezas.

A loucura faz parte de ser humano. Querer controlar os processos que mantém sociedade, mundo e universo em movimento, não. É inumano, desumano, super-humano. Nada a ver com minha praia.

Daí que caiu a ficha e entendi o que Velocidade da Luz quis dizer com seu ‘basta saber’. Uma explicação naquele momento não tornaria minha vida mais fácil. Como tinha sido eu a parar a bola dos acontecimentos, caprichei no bicudo e a pus pra rolar outra vez.

“Tudo bem, e agora?”

- Agora vamos aonde precisamos ir. Ajudamos quem precisamos ajudar.

Mais material aberto à interpretação, cortesia do sr. Velocidade da Luz. O Garça ajustou as luvas, e socou uma das mãos espalmada pra aumentar o efeito dramático.

- Peniel. Gauge.

Não resisti à tentação e larguei:

“Rápido! Todos pro bandeiramóvel!”

Ninguém riu.

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