Labirinto

September 21, 2008

13.1

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Mira Bandeira dirigia com perícia, o bandeiramóvel devorava a estrada, Velocidade da Luz, Garça Negra e Chuva se apertavam no banco traseiro e eu, não pela primeira vez, sentado ao lado dela, sentia crescer algo inominável sob minha calça… a visão da carne firme de seus braços perfeitos e fortes o bastante pra me quebrar inteiro era suficiente pra fazer meu raciocínio falhar e despertar o instinto primitivo de, bom, trepar. Não em árvores, você sabe.

Tentei pôr de lado os pensamentos luxuriosos. Izzy funcionaria como cruz num exorcismo desse tipo? Melhor Amélia. Amélia no pedestal da santidade, tão inalcançável quanto Mira, podia dar combate àquelas imagens de perfeição debaixo da fantasia da fantasia que se nutria de minhas bolas e imaginação.

Eu, à direita de Mira, sobrepondo ao seu rosto o de Amélia. Heroína e freira.

Precisava de um longo gole de Johnny pra acalmar os nervos mas o que estava à mão era água. Mineral.

O cenário se abriu, partiu-se, e a estrada que percorríamos agora contornava uma praia que eu nunca tinha visto conscientemente e com a qual sonhara. O céu à distância acendia-se com explosões. A voz de Izzy sussurrava francês medieval em meus ouvidos.

Sem perceber, o entorpecimento que tomava conta de minhas pernas espalhou-se pro meu tronco estrangulado pelo cinto de segurança; sem perceber, minhas pálpebras primeiro pesaram e depois arrearam de vez e o mundo dos sonhos descortinava-se diante de meus olhos por um tempo crucial, de vida e de morte e de memórias futuras.

Uma escadaria infinita erguia-se em direção ao céu e eu desejava que, pelo menos, fosse automatizada. Entre ela e eu um homem-lobo, uma fera da escuridão espacial sobre nossas cabeças, parado em desafio. Os roncos e grunhidos que emitia pareciam questionar minha agilidade e a medida de força que seria capaz de empregar. Onde estavam os escorpiões da merda quando eu mais precisava deles? A fortaleza de músculos arrancaria minha cabeça com seus dentes e a cuspiria fora… ou engasgaria com ela, o que permitiria que meu corpo acéfalo alcançasse os degraus e, se fosse mesmo uma escada rolante, chegaria ao céu. Eu não teria como saber pois minha cabeça ainda estaria entalada na garganta do lobo tendo sua glote rosada como único estímulo visual. Por quanto tempo até que os olhos parassem de funcionar e morressem com o cérebro?

Esfolei o peito e quase fraturei externo e costelas com a freada brusca de Mira. A mordida do cinto de segurança me livrou de descobrir os mistérios da digestão e me lançou ao presente. Àquele presente, não o agora.

Já disse que a praia era linda?

A superfície de uma planura próxima da perfeição, exceto por microdunas semoventes, refletia a luz do sol que ali parecia um excesso. A luz do sol, e isso é esquisito, me atingia como um som, o som de uma bigorna sob o malho, metálico, moldando minha percepção pros eventos absurdos logo ali adiante. Ainda tenho dúvidas sérias sobre o que aconteceu. Quer dizer, sobre quanto aconteceu no mundo de fato e quanto só na minha cabeça que talvez ainda esteja entalada na garganta do deus-lobo enquanto meu corpo certamente alcançou o paraíso.

Tou pondo o carro na frente dos bois.

Estávamos os cinco em pé na areia da praia e o Garça Negra devia estar se sentindo mais exposto que nunca. Preto no branco.

Daí um carinha que antes não estava lá agora estava.

E pude ver o movimento de seus lábios.

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