Labirinto

October 5, 2008

13.3

Filed under: K.I.S.S.

O que ela disse?

Não deu pra ouvir, ficou perdido sob o som de uma saraivada de socos cada vez mais violentos que pareciam ser sua forma de comunicar preferida. Ela bateu, bateu, bateu e de onde eu estava, parecia estar castigando um colchão d’água com os punhos porque quem quer que usasse o disfarce não se deformava e Mira já demonstrava sinais de cansaço. De algum jeito, em algum momento, entre uma piscada e outra de meus olhos, ela arrancou a máscara  que cobria o rosto do farsante.

Não podia ser pior.

“Lorre?”

O cliente, claro, o sujeito que se comprometeu a tornar-me rico além da compreeensão desde que eu encontrasse Peniel e, justo quando finalmente tinha resolvido o caso, ele aparecia vestindo a fantasia do combatente do crime mais casca-grossa do litoral.

Daí me dei conta de que não podia ser Lorre! Puta alívio! Lorre era atarracado, não tinha pescoço e seu panceps não poderia ter-se desenvolvido somente com o exercício repetitivo de levantamento de copos. Pra caber no uniforme do Garça Negra ele teria que espichar, no mínimo, trinta centímetros, além de perder quilos e mais quilos.

Mira tirou um troço que parecia um batom de algum bolso oculto, mas isso não me deu idéias pervertidas porque, sinceramente, eu estava em choque por testemunhar sua capacidade pra violência… disciplinar os moleques no calçadão não se aproximava disso, que sequer fazia lembrar a ação anterior:  tapinhas leves em bundas carnudas… Mira queria causar danos permanentes. Ponto.

Ela aproximou o ‘batom’ da cara de ‘Lorre’ que aparentemente entendeu sua intenção. Eu entenderia. Ódio primitivo deformava o rosto de Mira.

- Ele… quando me considerou pronta pro combate, ele me deu isso com a ressalva de que eu não confiasse em armas…

De quem ela estava falando? Óbvio. Por isso o Garça se mostrou preocupado ao me abordar eras atrás. Preocupação com ela. Garça Negra e Mira Bandeira eram bem mais próximos do que seu comportamento demonstrava.

Ouvi um clique, um chinc, e uma das extremidades do ‘batom’ acendeu.

Ela aproximou a chama da papada de ‘Lorre’.

E aí minha educação a respeito dos gluóns começou de verdade: o rosto recuou, porra! Literalmente! Quanto mais ela aproximava o fogo, mais a cara de Lorre fugia, escorria, derramava-se. E as direções em que fazia isso confirmavam a inumanidade da coisa, a impossibilidade de que ossos ou músculos sustentassem seus movimentos.

O som produzido quando a situação ficou insustentável pra ele foi um ‘splorsh!’, como quando uma bambucha arrebenta na cabeça de alguém no carnaval.

Surpresa!

A coisa que parecia Lorre escorreu pra fora da fantasia do Garça e contorceu-se na areia diante de nossos olhos. Mais um flashe da pré-adolescência, um livro de ciências em que encontrei o desenho de uma ameba. Um gluón era uma ameba espacial! Sem boca, a coisa disse:

- Vocês podem conseguir me destruir, mas onde há um de nós, todos estão. Meus olhos são os olhos de minha raça. Estamos unidos em todos os momentos.

Verdade ou blefe? Ouvi ecos do verdadeiro Lorre com o ‘nós’ do gluón e de Velocidade da Luz com aquele ‘onde há um de nós’.

Eu precisava mijar. Eu precisava cagar. Era medo.

Saquei então qual era a do galpão e porque todos os empregados se pareciam com Lorre. O alívio que senti há não mais de um minuto foi pra puta que o pariu. Eu tinha sido contratado pelo inimigo nojento e insidioso de alguém que, todos pareciam acreditar, era essencialmente bom. Claro que o lucro é tudo que interessa no fim das contas e sou bastante tolerante com estrangeiros… mas isso? Ameba espacial?

Mira mantinha o maçarico miniatura apontado pra criatura mas seu cansaço era evidente.

O chão tremeu.

E então tremeu de novo.

Heytor, que há pouco tinha um metro e noventa, agora encobria as nuvens com que Chuva conversava. Sua voz soou como o trovão:

- O portal abriu-se para os quatro. Passem. Deixem que eu cuide dessa coisa. É minha atribuição.

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