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Depois de tudo encerrado, Rita fez umas pesquisas pra mim, internet, bibliotecas e a porra toda, baseando-se nos relatórios do caso.
Por algum motivo, o que Mosca falou sobre Persinger e LaFrenière soou como causa possível, explicação pro sumiço de Peniel. Deve ter sido o jeito que ele disse. Mosca acredita de verdade em todo tipo de merda.
A idéia resumida por Rita, palavras dela:
- Flutuações em campos energéticos conhecidos e desconhecidos (?) deformam a realidade e alteram a percepção das pessoas que as testemunharam.
Como já disse, um monte de besteira.
A parte da percepção, de acordo com o que experimentei, pode ser real. Sou detetive, investigar é parte do metier. Os caras que examinam ou ‘investigam’ esse tipo de fenômeno têm outro nome. São cientistas. Isso eu não sou, então pra que especular, certo?
Minha adrenalina tava a milhão. Ver Mira espancando o gluón, Heytor ocultando o céu e atravessar o portal… bom, o efeito foi parecido com a boa e velha cannabis. O tempo passou de um jeito diferente, meu corpo reagia com atraso aos estímulos externos e a certeza de minha identidade física se diluiu. A presença de Velocidade da Luz pode explicar o lance com o tempo, acho.
O sonho com o homem-lobo e a escadaria pro céu, a freada brusca do carro, a dor no meu peito, o sol martelando a areia, a tempestade sendo convencida a se formar pela conversa de Chuva e todo o resto já tinham fodido com qualquer possibilidade de eu dar crédito ao que experimentava.
Dar o primeiro passo dentro do portal foi como pisar numa casca de banana… sabe como é, que nem nos desenhos animados, só que está acontecendo contigo, então não parece engraçado. Você é pego de surpresa e não está vendo o que está pra acontecer como o moleque que assiste ao desenho e tira prazer de antecipar a queda do animal humanizado, o choque de seu traseiro no chão. Você não ri porque está assustado, porque a perna que cruzou o portal primeiro continua se esticando mesmo depois de ter atingido o limite do humanamente possível. E piora, porque todo seu corpo acompanha e você se sente como pouca manteiga sendo espalhada num pedaço de pão muito grande. O pedaço de pão do espaço-tempo. Daí, do mesmo jeito que começou, de surpresa, termina.
Você se sente sendo compactado em seu formato original. Está em outro lugar. Sem sol, sem praia, sem nuvens e gigantes. É meio engraçado dizer depois disso como me senti pequeno diante da grandiosidade de Peniel.
Falar em utopia, nos sonhos mais loucos dos escritores de ficção científica do começo do século XX, nos edifícios monstruosos saídos da imaginação de Fritz Lang, não descreveria o efeito de vivenciar a Cidade em primeira mão. Sim, começando com maiúscula. Rita me ajudou com essas referências também. Minha tentativa de criar uma imagem com palavras, apesar de elas serem um recurso que mais obscurece do que aviva a imaginação.
Me explicaram depois, não que eu tenha entendido, que na verdade nós estávamos num subespaço, a tal dimensão de bolso de que Velocidade da Luz falava tanto. Eu me sentia pequeno, e acho que isso é o que queriam dizer, porque estava pequeno, não porque Peniel tivesse um tamanho, como diria Aristóteles Silveira, ‘ciclópico’. E, sim, Aristóteles é outra descoberta de Rita. Menina de futuro no ramo.
Eu ainda olhava com minha melhor expressão esbugalhada pro céu que não estava mais lá quando Mira aterrissou em cima de mim.
