14.1

October 27, 2008

Tudo ficou escuro de repente. Voltei à garganta do lobo? Ou era algo inédito que me acontecia? Choque… batida… corpo contra corpo.

Mira? Eu estava acordado. Meus olhos estavam abertos, assim como meus poros, narinas, boca, ouvidos. A escuridão persistiu. Então fechei os olhos, busquei refúgio em mim mesmo e me abri outra vez.

Fui devolvido a um mundo duocromático de emoções básicas, de dicotomia enervante. Estava em meu apartamento e luz branca iluminava os contornos pretos da janela ampla do quarto. Virei pro lado numa tentativa fracassada de escapar da iluminação anormal.

Mira estava deitada em minha cama. Sem fantasia. Só uma calcinha preta de renda marcando seu corpo claro. Se era um sonho, era o melhor possível. Estendi a mão e toquei seu pescoço. Calor, pulsação. Como uma gata preguiçosa, ela ergueu o ombro e prendeu minha palma naquele vão morno. Sorriu. Quantas vezes a vi sorrir sem máscara? Quantas vezes a vi sem máscara? Dentes brancos emoldurados por lábios carnudos, negros. Ela abriu os olhos mais escuros do universo e ainda assim uma galáxia de possibilidades brilhava em suas íris. Suas tetas feitas perfeitas na horizontal relaxada apontavam em minha direção e meu corpo reagiu ao seu, funções primitivas, autônomas, suplantando a razão de vez, obliterando o pensamento. Eu a beijei. Senti seus dentes com a língua, ela abriu a boca, permitiu que eu explorasse. Nunca senti tanta intensidade num contato físico. Ou metafísico, no caso de Izzy. Aquela era a experiência pura do contato humano, desvelada aos sentidos, não havia nada entre nós, afinal. Nem roupas, nem identidades secretas, nem espaço. E a terra pareceu se mover.

Pra meu desconsolo, a terra, de fato, tinha se movido. Literalmente. Não era uma metáfora pro efeito inebriante que  ter Mira em meus braços causava.

A luz que vazava pela janela era pouca e estabelecia os contornos de uma mão gigantesca. Heytor? O que Heytor fazia do lado de fora do meu prédio? O vidro temperado trincou primeiro e depois voou das esquadrias. A mão era inumana, mecânica, uma garra que se estendia na direção da cama e eu só fiz observá-la pasmado enquanto subtraía Mira de meu abraço. Mão de brinquedo gigantesca, outra lembrança de infância, braço sem cotovelo que se alongava e retraía, levando Mira pela janela, pra fora do quarto.

Saí da pasmaceira, me estiquei, apanhei o coldre no criado mudo, saquei o .38, conferi a munição e corri pro que restava de janela. Se eu ainda tivesse dúvida de que estava sonhando, aquela era a prova definitiva.

Um robô gigante. Nada parecido com os robôs modernos dos noticiários. Do tipo que aparecia em filmes de fc nos anos 50, nas capas de pulps. A cabeça era de vidro. Eu podia ver o típico cientista louco das hqs dentro dela, acomodado numa poltrona, ocupado com alavancas, pedais e parafernálias mil. O robô aproximou Mira da cúpula de vidro e o cientista louco a devorou com os olhos. Recuei da janela torcendo pra que o espaço fosse suficiente, corri de volta e me joguei no vazio, arma em punho, braço estendido, mira perfeita: o domo de vidro, o cientista, os centímetros de pele entre seus olhos. Disparei uma, duas, três, quatro, cinco vezes. A primeira bala arranhou o vidro. A segunda acertou o mesmo ponto e provocou uma pequena rachadura. A terceira aumentou o raio da mesma. A quarta quebrou o vidro. A quinta atingiu o alvo. A cabeça do cientista foi jogada violentamente pra trás. Sangue preto saiu pela parte posterior e esfacelada de seu crânio.

Quantos segundos durou tudo isso? Quem já esteve num tiroteio sabe do que estou falando. Dois e meio, três segundos? Senti a atração inevitável que o chão exerce sobre quem desafia a lei mais importante. Se era um sonho e, a essa altura eu estava convencido de que esse era mesmo o caso, não era um sonho de voar. A queda, lembrei de ter ouvido em algum lugar, não era o mais preocupante. É a aterrissagem que mata. A aproximação do solo foi violenta. Acho que ao gritar fechei os olhos. Senti meu corpo inteiro como uma navalha rasgando o ar de cima a baixo.

A queda parecia durar uma eternidade.

De repente, outra vez, o frescor do ar foi interrompido.

Eu não estava mais caindo.

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