15.1

November 25, 2008

Vou economizar papel e poupar o eventual leitor dessa barafunda que se passa por narrativa não contando como Mira Bandeira me tirou da banheira melequenta, livrou minha cabeça dos apetrechos hightech que me mantiveram conectado ao gabarito, ajudou-me a ficar em pé enquanto enxaguava com um chuveirinho direcional a gosma que me cobria, me secou, vestiu e, depois de tudo, alimentou. Até porque seria patético demais me expor conscientemente a tamanho ridículo. Mira deixou de lado a persona de ‘mocinha em perigo’ e assumiu rapidamente outro papel típico do escapismo barato do século XX: a mãe. Eu ainda queria comê-la, talvez mais do que nunca, como Freud explicaria com um sorriso no rosto e um charutão fálico entre os dedos.

Já tendo força e controle muscular suficientes pra voltar a bater perna, dessa vez de verdade (pelo menos tanto quanto eu conseguia perceber e não numa realidade de vídeo game), saímos pra rua.

Aquela primeira impressão de construções gigantescas foi confirmada e a idéia de que a cidade cresceu verticalmente naqueles poucos quilômetros (?) quadrados foi plantada. No nível do chão, no entanto, o lugar parecia a típica cidadezinha dos anos 20, 30 no máximo, que se vê o tempo todo nessas novelinhas de época que as emissoras de televisão cometem de vez em quando. Quem quer que tivesse planejado os níveis superiores da comunidade, tinha um grande senso de preservação histórica. Digo isso porque, fora da dimensão de bolso, na cidade litorânea em que eu mesmo vivo, volta e meia restauram um prédio do século retrasado, descobrem um túnel esquecido numa construção abandonada ou desencavam do asfalto trilhos de bonde que deixaram de ser usados há muito mas se tornaram atração turística, tudo isso como se tivessem acabado de descobrir vestígios de uma civilização perdida… história recente tratada como arqueologia, nada menos. Em Peniel a ‘história antiga’ convive com outras eras, à frente até mesmo, e o presente.

Pra variar viajei um pouco. Preciso me controlar mais com as merdas que escrevo a partir daqui porque os arquivos que os meninos me passaram só vão até certo ponto e as pesquisas de Rita só cobrem determinados aspectos do que vivenciei… e aí está o problema: falta de confiança em minha percepção.

Sem céu, sem sol, a cidade era iluminada artificialmente. A noite, também, só era possível por conta da tecnologia que Gauge salvou das ferragens destroçadas que sobraram depois de seu combate com os glúons. Isso em 1936. Mais  sobre o assunto adiante.

Sentir o chão de pedra e andar por ruas estreitas, antigas, me reconectou tanto quanto possível à realidade. Uma base sólida pra iniciar minhas inquisições. Nada incisivo demais. Um exame curioso, talvez. Como não vi sinal de um Apontador na versão real de Peniel, dirigi minhas perguntas a Mira.

“Onde é que tá o Chuva? E Velocidade da Luz?”

- Eles estão bem, Profit. Chuva deve estar em algum lugar do nível intermediário, num prostíbulo ou numa casa de intoxicação. A gente encontra com ele na subida. Velocidade da luz está fazendo algum tipo de relatório, não sei se diretamente a Gauge ou pros neurobiólogos daqui, sobre a experiência de decrepitude e senilidade por que passou no mundo externo.

“E o Chuva se adaptou fácil assim? Eu tava na minha melhor forma física em anos e quase bati as botas e o cara bêbado, subnutrido, fedorento e mal-vestido chega aqui na maior e vai pra gandaia?”

- Cê quer o básico ou preciso entrar em detalhes?

“O básico, claro.”

- Bom, basicamente, sim. Claro que isso deixou os responsáveis pelo departamento de transição local com a pulga atrás da orelha… nenhuma lógica pra adaptação instantânea de Chuva, mas quando disse que trabalhava pros deuses todo mundo calou a boca e guardou as seringas que tavam tentando espetar nele.

“Caralho! Quer dizer que mesmo com todo esse avanço científico os caras estão abertos a explicações tão sem-pé-nem-cabeça quanto essa?”

- Pra ser sincera, não tenho certeza de que eles fazem esse tipo de distinção, sabe? Pelo que entendi, eles acham que mitos, religiões e ciências são só linguagens diferentes que servem pra descrever a mesma coisa.

Isso me calou a boca por um ou dois minutos. Notei que, apesar de Mira ter dito que a gente encontraria Chuva quando subisse, não havia sinal de elevadores ou de escadas. Ia até mencionar isso, mas…

14.4

November 17, 2008

Flashback: a garganta de ‘Godzilla’ sobrepondo-se à do deus-lobo. Estou no bandeiramóvel sonhando com o futuro? Isto é r.e.m.? Eu e Mira somos versões modernas de Jonas? Vamos constituir família no ventre do kraken? Ou é a cobra-grande? Ou o quê?

O céu oscila, assim como o sol. Como a tela de tevê recebendo um sinal não-tão-bom pra continuar transmitindo.

A luz branca é desligada. Resta o negrume insondável, sem contornos, que nos cerca. Mira ainda segura minha mão, mas seus dedos se desenlaçam dos meus, se abrem, e minha mão pende no vazio absoluto, na escuridão sem fim.

Ergo as mãos… é agora, não é?

A mudança no tempo da narrativa é mero acidente ou proposital? Quem escreve essas linhas confundiu-se ou está só inventando conforme as idéias se encaixam? Pouco importa a filosofia de botequim.

Estou em Peniel. Aqui só há o agora. Aqui o passado é um estado de espírito e o futuro, pensamento mágico, desejo, projeção. Não há substância mais dura que o agora.

A voz feminina canta. É uma cantiga familiar e antiga como o tempo. Identifico o acento francês antes de reconhecer a voz. Ela veio. Palavras latinas emergem no fluxo de sua voz. Ela pára de cantar.

- Lucas, abra os olhos.

Obedeço.

Izzy está sentada ao meu lado numa cama que não é cama e usa uma forma até então inédita. Uma garota de não mais que vinte anos e profundos olhos verdes. A cama que não é cama parece grande demais pra mim, então minha percepção se ajusta e descubro que é ao contrário, eu é que sou muito pequeno pra cama. Ao meu lado, ao lado do móvel desproporcional, há uma jaula e, dentro da jaula, um animal feroz, um felino grande que se agita e ruge.

- Você ainda não nasceu, Lucas. Eu tentei chegar mais tarde, mas só consegui te alcançar agora. O lugar onde está no momento em que eu quis te encontrar é inacessível às potestades do ar. Saiba disso, porém, e informe a quem for conveniente quando chegar a hora: vocês não devem eliminar os glúons. Não devem. A realidade como a conhecem depende disso.

Tento dizer que entendi mas só produzo um som aquoso ininteligível.

- Tudo bem, querido. Sei que entendeu.

Pergunto sem falar qual é a do tigre na jaula.

- Acho que você vai precisar esperar pra ver. Mas tenho algumas hipóteses que podem te manter entretido enquanto a bolsa de sua mãe não rompe. A primeira é que você está recebendo imagens simbólicas, representações do estresse de sua mãe. A segunda, que eu acho mais atraente, tem a ver com privação sensorial. Para não enlouquecer, sua mente infante está sifonando acontecimentos, informações visuais e emocionais de outros estágios  de sua vida. Não sei dizer se anteriores à concepção ou posteriores ao nascimento. Isso deve te divertir pelos próximos… não importa. Só tente lembrar do que eu disse, está bem? Lembre que os glúons não devem ser destruídos.

Eu acordei. Estava sufocando. Abri os olhos e a luz que vi era natural, mas os objetos estavam indistintos, turvos. Estava sob a água. Ou algo parecido. Alcancei as bordas do recipiente que me continha, uma banheira velha, e usei toda a força pra me sentar.

Eletrodos e um óculos hightech pero no mucho estavam ligados à minha cabeça.

Arfei até recuperar o fôlego. Mira, sentada num banco perto da banheira, segurava e torcia uma toalha nas mãos, transmitindo preocupação demasiada com os olhos.

- Você voltou! Cristo, obrigada!

Tentei falar, mas tudo que consegui foi expelir uma golfada do líquido da banheira. Prum sujeito como eu isso era um bocado frustrante. Afinal consegui sussurrar um pouco.

“Onde…? Mira, onde a gente tá?”

- Você demorou mais que eu pra se adaptar, Profit. Sua mente sumiu do gabarito no mesmo minuto em que acordei. Os meninos ficaram apavorados porque acharam que tinham te deletado por acidente.

“Que meninos? Quanto tempo?”

- Os que escrevem as histórias do gabarito. Quanto ao tempo, não sei dizer. Aqui as coisas funcionam num ritmo diferente, você vai ver.

14.3

November 9, 2008

Cronos, Sr. Imortal ou, mais vulgar, O Apontador, nos mostrou os arredores.

Um troço que ele disse continuava me incomodando: se era a molecada de Peniel quem escrevia nossas ‘aventuras’, se eles narravam tudo, por que havia aquele ruído de fundo em minha cabeça, qual a causa do burburinho interior?

- Os deuses, sr. Profit. Seus deuses.

Juro que não disse coisa alguma em voz alta e só é possível reproduzir o que aconteceu conosco no tal ‘gabarito virtual’ porque nossos redatores de plantão ficaram tão satisfeitos em nos ter como personagens que acharam que merecíamos uma cópia dos seus arquivos. Gurizada hilária. E ‘meus deuses’ me acompanhavam até no espaço restrito da inconsciência? Teria eu mais alguma ‘voz’ por companhia? Havia aquela ligação psíquica (psiquiátrica?) com Izzy, evidente, mas ela se manifestaria, seria incorporada ao metatexto do gabarito?

Saímos do asfalto e pisamos numa faixa de areia familiar… descobri que era oriunda da praia perfeita em que encontramos a entrada pra Peniel, um complemento àquela praia linda onde Mira espancara o glúon sem piedade. Notei que meus tênis brancos tinham desaparecido e pude sentir areia granulada (redundante) e morna entre meus dedos. O mar era uma linha calma, semovente, ondulante, que hipnotizaria até o mais empedernido dos homens… imagina só o efeito em mim? Ergui  a mão imitando a aba de um chapéu e protegi meus olhos do… sol? Mas quando cheguei não havia sol em Peniel!

- Não há sol. Não há céu. O que você vê é um…

- Mapa. – Mira disse, aliás, a primeira coisa  que dizia depois de nós, machos, monopolizarmos a conversa. Talvez ela não estivesse muito satisfeita com o papel de donzela em perigo. Eu mesmo me senti desconfortável com nossa quase inversão de personas. Covarde, corrupto, desorganizado, (ex)bêbado e enrolão? Sim, minhas características. ‘Herói indômito’? Fala sério.

Diversão, pensei comigo, meus botões e a torcida do Corinthians. O gabarito é como um game, um rpg. Ninguém se machuca de verdade. É, eu podia assimilar aquilo e me portar segundo os parâmetros estabelecidos pelos narradores.

Segurei a mão de Mira e sorri meu melhor sorriso de comercial de dentifrício. Seus lábios negros partiram-se revelando dentes branquíssimos. Ela não era ela mas era. Sua mão apertou a minha.

- Lucas? Você acha que o Garça está bem? O verdadeiro, quer dizer?

“Claro. Por que não estaria? Afinal, o cara que te treinou não se deixaria apanhar tão fácil, né? Ainda mais por uma ameba do espaço…”

- Ele não é mais um garoto, sabe? Por isso começou a usar armas. Não confia nelas, mas sabe o efeito que causam quando alguém as vê.

Os grãos de areia foram lavados dos meus pés pela marola em temperatura ambiente que se erguia de leve, de leve. Eu sabia sim do efeito que a visão de uma arma causa. Mesmo meu .38 já tinha feito um ou dois caras tremerem nas bases. Não importa muito o tamanho do pau que você tem, mas o uso que se faz dele. O Garça Negra era um profissional consumado em causar medo. O cara me fez desmaiar não muito tempo antes só com atitude, efeito surpresa e conversa mole. É, ele estava bem.

Não tinha mais tanta certeza quanto a nós. A linha do mar, até então calma, desenvolveu um abscesso que cresceu rápido e fácil.

- Ããã, os meninos resolveram cortar um pouco da digressão, senhores. A seguir veremos um dos maiores motivos de orgulho para eles. Vão reparar, também, no fascínio que monstros em larga escala exercem sobre suas imaginações.

A cabeça da coisa que fez o abscesso explodir, pra continuar com minha metáfora, era parecida com a de um crocodilo. Proporções e anatomia, por outro lado, eram bem zoadas. Sob a cabeça crocodilesca, por exemplo, um corpo humanóide gordinho com braços curtos e cauda, também, inspirada pelo mesmo animal.

- A origem secreta do monstro que podemos ver adiante são as explosões atômicas ocorridas sobre o Japão no fim da Segunda Guerra. Mas as crianças querem que vocês saibam que acrescentaram uma camada de misticismo ao conceito com a finalidade de prestarem homenagem a dois de seus autores  favoritos: Lovecraft e Aristóteles Silveira.

Lovecraft? Lembrei vagamente de ouvir Rita dizendo alguma coisa a seu respeito e a lembrança desapareceu rapidinho quando o bicho escancarou a bocarra e pude ver sua garganta profunda (não deu pra evitar!), escura, sem fim.

14.2

November 2, 2008

O que eu tinha reconhecido como sonho e excluído bem rápido da subcategoria ‘de voar’ mudou de uma hora pra outra. Sim, eu não estava mais caindo. Isso me deu coragem pra abrir os olhos e checar minha situação.

A distância que separava a solidez  recém-adquirida de meus músculos de transformar-se em liquidez na calçada era mínima. Dez centímetros, talvez menos… foi durante esse despertar recorrente, essa impressão de, a cada piscada, descobrir um mundo novo, que percebi uma elevação involuntária de meu corpo por uma força (ou seria anti-força? Contra-força? Antigravidade!). Eu flutuava horizontalmente cada vez mais alto. Com algum esforço e muita tentativa e erro, consegui posicionar-me na vertical.

Estava ao lado do robô gigante, da marionete sem vida do cientista louco, também sem vida graças à minha pontaria perfeita. Alcancei a garra da máquina que tinha abduzido Mira de meus braços, interrompido a tão antecipada cópula, robô empata-foda.

Ela estava voltando a si, mas parecia haver um erro de continuidade que os masturbadores crônicos não deixariam passar: Mira usava um vestidinho leve e solto, algo diáfano. Decote generoso. Mas há pouco só estava de calcinha. Não tinha importância. Libertei-a da mão mecânica e abracei-a com ternura. Ela me olhou e vi em suas íris de galáxia distante que nos aproximávamos mais a cada momento.

- Lucas… – quantas vezes ela disse meu primeiro nome? E com quanta doçura era capaz de pronunciá-lo?

O peso extra de Mira nos trouxe de volta ao solo, uma descida suave, ideal, como num filme de super-heróis. Ao tocar o asfalto preto notei que não estava mais descalço, usava jean e camiseta base lisa, tudo branco, alto contraste.

- Olá.

Voltei-me pra voz cavernosa e encarquilhada que pronunciara a palavra e não me decepcionei com a aparência de seu originador. O nome que pipocou em minha cabeça? Matusalém. Velho como o tempo, pele fina feito papel, crânio pelado, mais rugas que os grãos de areia numa praia e usando uma fantasia de homem-bombom que me confundiu quanto à sua funcionalidade.

Quem era ele? Por que usava tantos relógios? Pra que servia o joystick que manipulava com delicadeza e dedos encurvados pela artrite? E o sujeito começou a responder, como se tivesse lido meus pensamentos.

- Ããã, aqui me chamam de Apontador, mas gosto mais de Sr.Imortal, ou Cronos, não consigo lembrar. Como prova de gratidão por ter detido meu arqui-inimigo, Dr. Entropia, parei o tempo e o fiz recuar de modo que pudesse resgatar sua amiga, senhor…

“Profit. Lucas Profit. Diz uma coisa velhinho: isso aqui é Peniel?”

- Ah, não, sr. Profit. Só um aspecto dela. Um mapa, pode-se dizer. Peniel é muito mais real que aqui. Nossos técnicos detectaram a possibilidade de trauma neurológico massivo para o senhor e sua companheira… pós-transição, quero dizer, por conta da lei de conservação da massa, sabe? Reduziram-na com a indução a um estado semi-comatoso e introduziram ambos no gabarito virtual… pelo menos suas consciências, se é que estou conseguindo me fazer entender. Seus corpos estão em câmeras de descompressão em Peniel, adaptando-se com rapidez a uma realidade mais, ããã, concentrada. Nossas crianças estão escrevendo o roteiro de suas aventuras enquanto isso. É uma forma de estimular a criatividade dos mais jovens e obedece  o preceito de Gauge de repúdio à inércia.

“Esse cara existe?” perguntei à Mira. Ele não se fez de rogado e respondeu. Parecia ser essa sua função.

- Não de verdade. Já fui o avô de alguém. Às portas da morte me introduziram no gabarito. Agora sou um avatar, um arquétipo. Um menino muito esperto escreve meus diálogos. Está introduzindo a função ‘cicerone’ em minha personalidade exatamente… agora. Venham, vamos conhecer Peniel enquanto seus corpos descansam.

“E essa narrativa toda que venho fazendo? São elas que escrevem também? Digo, as crianças?”

- Claro. Mas trabalham a partir de material pré-existente de suas psiques. É como vocês, ããã, vêem a si mesmos. Uma visão exaltada, sexy e heróica, diga-se de passagem. Maxwell Grant ficaria orgulhoso de como se saíram nos papéis de ‘herói indômito’ e ‘mocinha em perigo’.

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