14.2
O que eu tinha reconhecido como sonho e excluído bem rápido da subcategoria ‘de voar’ mudou de uma hora pra outra. Sim, eu não estava mais caindo. Isso me deu coragem pra abrir os olhos e checar minha situação.
A distância que separava a solidez recém-adquirida de meus músculos de transformar-se em liquidez na calçada era mínima. Dez centímetros, talvez menos… foi durante esse despertar recorrente, essa impressão de, a cada piscada, descobrir um mundo novo, que percebi uma elevação involuntária de meu corpo por uma força (ou seria anti-força? Contra-força? Antigravidade!). Eu flutuava horizontalmente cada vez mais alto. Com algum esforço e muita tentativa e erro, consegui posicionar-me na vertical.
Estava ao lado do robô gigante, da marionete sem vida do cientista louco, também sem vida graças à minha pontaria perfeita. Alcancei a garra da máquina que tinha abduzido Mira de meus braços, interrompido a tão antecipada cópula, robô empata-foda.
Ela estava voltando a si, mas parecia haver um erro de continuidade que os masturbadores crônicos não deixariam passar: Mira usava um vestidinho leve e solto, algo diáfano. Decote generoso. Mas há pouco só estava de calcinha. Não tinha importância. Libertei-a da mão mecânica e abracei-a com ternura. Ela me olhou e vi em suas íris de galáxia distante que nos aproximávamos mais a cada momento.
- Lucas… – quantas vezes ela disse meu primeiro nome? E com quanta doçura era capaz de pronunciá-lo?
O peso extra de Mira nos trouxe de volta ao solo, uma descida suave, ideal, como num filme de super-heróis. Ao tocar o asfalto preto notei que não estava mais descalço, usava jean e camiseta base lisa, tudo branco, alto contraste.
- Olá.
Voltei-me pra voz cavernosa e encarquilhada que pronunciara a palavra e não me decepcionei com a aparência de seu originador. O nome que pipocou em minha cabeça? Matusalém. Velho como o tempo, pele fina feito papel, crânio pelado, mais rugas que os grãos de areia numa praia e usando uma fantasia de homem-bombom que me confundiu quanto à sua funcionalidade.
Quem era ele? Por que usava tantos relógios? Pra que servia o joystick que manipulava com delicadeza e dedos encurvados pela artrite? E o sujeito começou a responder, como se tivesse lido meus pensamentos.
- Ããã, aqui me chamam de Apontador, mas gosto mais de Sr.Imortal, ou Cronos, não consigo lembrar. Como prova de gratidão por ter detido meu arqui-inimigo, Dr. Entropia, parei o tempo e o fiz recuar de modo que pudesse resgatar sua amiga, senhor…
“Profit. Lucas Profit. Diz uma coisa velhinho: isso aqui é Peniel?”
- Ah, não, sr. Profit. Só um aspecto dela. Um mapa, pode-se dizer. Peniel é muito mais real que aqui. Nossos técnicos detectaram a possibilidade de trauma neurológico massivo para o senhor e sua companheira… pós-transição, quero dizer, por conta da lei de conservação da massa, sabe? Reduziram-na com a indução a um estado semi-comatoso e introduziram ambos no gabarito virtual… pelo menos suas consciências, se é que estou conseguindo me fazer entender. Seus corpos estão em câmeras de descompressão em Peniel, adaptando-se com rapidez a uma realidade mais, ããã, concentrada. Nossas crianças estão escrevendo o roteiro de suas aventuras enquanto isso. É uma forma de estimular a criatividade dos mais jovens e obedece o preceito de Gauge de repúdio à inércia.
“Esse cara existe?” perguntei à Mira. Ele não se fez de rogado e respondeu. Parecia ser essa sua função.
- Não de verdade. Já fui o avô de alguém. Às portas da morte me introduziram no gabarito. Agora sou um avatar, um arquétipo. Um menino muito esperto escreve meus diálogos. Está introduzindo a função ‘cicerone’ em minha personalidade exatamente… agora. Venham, vamos conhecer Peniel enquanto seus corpos descansam.
“E essa narrativa toda que venho fazendo? São elas que escrevem também? Digo, as crianças?”
- Claro. Mas trabalham a partir de material pré-existente de suas psiques. É como vocês, ããã, vêem a si mesmos. Uma visão exaltada, sexy e heróica, diga-se de passagem. Maxwell Grant ficaria orgulhoso de como se saíram nos papéis de ‘herói indômito’ e ‘mocinha em perigo’.
