14.3
Cronos, Sr. Imortal ou, mais vulgar, O Apontador, nos mostrou os arredores.
Um troço que ele disse continuava me incomodando: se era a molecada de Peniel quem escrevia nossas ‘aventuras’, se eles narravam tudo, por que havia aquele ruído de fundo em minha cabeça, qual a causa do burburinho interior?
- Os deuses, sr. Profit. Seus deuses.
Juro que não disse coisa alguma em voz alta e só é possível reproduzir o que aconteceu conosco no tal ‘gabarito virtual’ porque nossos redatores de plantão ficaram tão satisfeitos em nos ter como personagens que acharam que merecíamos uma cópia dos seus arquivos. Gurizada hilária. E ‘meus deuses’ me acompanhavam até no espaço restrito da inconsciência? Teria eu mais alguma ‘voz’ por companhia? Havia aquela ligação psíquica (psiquiátrica?) com Izzy, evidente, mas ela se manifestaria, seria incorporada ao metatexto do gabarito?
Saímos do asfalto e pisamos numa faixa de areia familiar… descobri que era oriunda da praia perfeita em que encontramos a entrada pra Peniel, um complemento àquela praia linda onde Mira espancara o glúon sem piedade. Notei que meus tênis brancos tinham desaparecido e pude sentir areia granulada (redundante) e morna entre meus dedos. O mar era uma linha calma, semovente, ondulante, que hipnotizaria até o mais empedernido dos homens… imagina só o efeito em mim? Ergui a mão imitando a aba de um chapéu e protegi meus olhos do… sol? Mas quando cheguei não havia sol em Peniel!
- Não há sol. Não há céu. O que você vê é um…
- Mapa. – Mira disse, aliás, a primeira coisa que dizia depois de nós, machos, monopolizarmos a conversa. Talvez ela não estivesse muito satisfeita com o papel de donzela em perigo. Eu mesmo me senti desconfortável com nossa quase inversão de personas. Covarde, corrupto, desorganizado, (ex)bêbado e enrolão? Sim, minhas características. ‘Herói indômito’? Fala sério.
Diversão, pensei comigo, meus botões e a torcida do Corinthians. O gabarito é como um game, um rpg. Ninguém se machuca de verdade. É, eu podia assimilar aquilo e me portar segundo os parâmetros estabelecidos pelos narradores.
Segurei a mão de Mira e sorri meu melhor sorriso de comercial de dentifrício. Seus lábios negros partiram-se revelando dentes branquíssimos. Ela não era ela mas era. Sua mão apertou a minha.
- Lucas? Você acha que o Garça está bem? O verdadeiro, quer dizer?
“Claro. Por que não estaria? Afinal, o cara que te treinou não se deixaria apanhar tão fácil, né? Ainda mais por uma ameba do espaço…”
- Ele não é mais um garoto, sabe? Por isso começou a usar armas. Não confia nelas, mas sabe o efeito que causam quando alguém as vê.
Os grãos de areia foram lavados dos meus pés pela marola em temperatura ambiente que se erguia de leve, de leve. Eu sabia sim do efeito que a visão de uma arma causa. Mesmo meu .38 já tinha feito um ou dois caras tremerem nas bases. Não importa muito o tamanho do pau que você tem, mas o uso que se faz dele. O Garça Negra era um profissional consumado em causar medo. O cara me fez desmaiar não muito tempo antes só com atitude, efeito surpresa e conversa mole. É, ele estava bem.
Não tinha mais tanta certeza quanto a nós. A linha do mar, até então calma, desenvolveu um abscesso que cresceu rápido e fácil.
- Ããã, os meninos resolveram cortar um pouco da digressão, senhores. A seguir veremos um dos maiores motivos de orgulho para eles. Vão reparar, também, no fascínio que monstros em larga escala exercem sobre suas imaginações.
A cabeça da coisa que fez o abscesso explodir, pra continuar com minha metáfora, era parecida com a de um crocodilo. Proporções e anatomia, por outro lado, eram bem zoadas. Sob a cabeça crocodilesca, por exemplo, um corpo humanóide gordinho com braços curtos e cauda, também, inspirada pelo mesmo animal.
- A origem secreta do monstro que podemos ver adiante são as explosões atômicas ocorridas sobre o Japão no fim da Segunda Guerra. Mas as crianças querem que vocês saibam que acrescentaram uma camada de misticismo ao conceito com a finalidade de prestarem homenagem a dois de seus autores favoritos: Lovecraft e Aristóteles Silveira.
Lovecraft? Lembrei vagamente de ouvir Rita dizendo alguma coisa a seu respeito e a lembrança desapareceu rapidinho quando o bicho escancarou a bocarra e pude ver sua garganta profunda (não deu pra evitar!), escura, sem fim.
