15.2
…Mira me agarrou pelo colarinho e colou seu corpo morno, firme, voluptuoso ao meu. Mais um flashback? Afinal, a gente estava em Peniel ou no gabarito? Onde quer que fosse, era um espaço público. Não, não me envergonhei, nem mesmo quando minha ereção se manifestou e tocou-a na altura de sua pélvis nervosíssima. Izzy já tinha me comido (ou vice-versa, nunca sei ao certo) numa biblioteca pública e me iniciado neste outro fetiche.
Eu queria cair de joelhos e dar em Mira o ‘beijo da vergonha’ mais desavergonhado de todos os tempos. Estava paralisado de tesão. Queria esgotar de vez os últimos milímetros que separavam nossos corpos, fundir-me com ela, e recebi seu incentivo verbal.
- Vá em frente, Profit! Me faça ganhar o dia…
O primeiro beijo sem máscara, sem narração adolescente, real, de verdade, que aconteceu mesmo… só carne na carne, troca de fluídos e impulso recreo-sexual à flor-da-pele.
Fiquei tão desorientado que não sentia mais o chão sob meus pés. Minhas mãos percorreram as costas de Mira de cima a baixo e de novo e outra vez e se fixaram em seus cabelos.
Mira tinha perfume de terra molhada pela chuva depois de um sol escaldante… cheiro de mata atlântica e cachoeira. Sim, a mulher tinha o poder mutante de me tirar o chão, me lançar no vácuo preenchido, tomado por ela, e me empurrar pruma livre associação de idéias que não fazia muito sentido nem pra mim. Ela afastou seu rosto do meu e ainda tinha fome nos olhos e eu, longe de estar saciado, queria saber.
“Que foi isso?” as mulheres adoram caras que não ‘entendem’, sabe?
- Bom, você me salvou daquele robô, herói! Ainda não tinha agradecido. Por outro lado… olhe ao redor. Surpresa!
O cenário tinha mudado radicalmente. Nada de senso histórico neste. Século XXI na veia, melhor, Amsterdam, século XX. Putas maravilhosas exibiam a mercadoria em ruas apinhadas, mulheres anatomicamente perfeitas dançando seminuas, pra cima e pra baixo naqueles postes, sabe, exibindo-se em vitrines amplas como carne no açougue mas nem tanto. Traficantes bem-vestidos trocavam seus produtos por cupons coloridos. Neste lugar, no nível intermediário, descobri depois, as pessoas vinham se divertir. Aqui o governo não tinha um programa ‘fome zero’, mas, isso sim, ‘realidade zero’. O lema no intermédio era ‘toda realidade é passageira’.
Finalmente consegui olhar outra vez pra Mira. Ah, os olhos dessa mulher, a textura inacreditável de sua pele… Mira dourada!
“Cara, não é outro sonho, certo? Eu ia…”
- Eu sei, Lucas. Você já tinha percebido que faltavam meios pra chegar nos níveis superiores e ia perguntar a respeito.
“Você literalmente me tirou do chão, baby!”
- E já tava cheia de te ouvir falando de ‘sonho de voar’. Calei sua boca do jeito mais agradável possível e usei a tecnologia local ao mesmo tempo… aqui o vôo é alimentado por orgones.
Ela me chamou de Lucas, não estávamos no gabarito, me beijou porque quis e eu sabia o que eram orgones! Energia sexual, segundo o maluco do Reich. Bom, não tão maluco assim… e fez isso pra me poupar do susto, da perplexidade e me agradar!
“Uau, você sabe mesmo como cativar um detetive! Alguma chance de…”
- Todas, mas não agora. Tem um negócio que você pode fazer por mim… pra me agradar um pouquinho também, um tipo de compensação.
“É só dizer.”
- Confira sua arma, munição, trava e tal. Alongue-se, faça um aquecimento rápido. A gente deve ter ação por aqui em breve. Dá pra sentir no ar. Não quero que sejamos pegos de surpresa.
Claro… claro? Não fazia sentido! Mas fazia! As pessoas iam ao nível intermediário pra escapar, desafogar as frustrações, fazer catarse. Nada melhor que um pouco da boa e velha ultraviolência regada à bebida e sexo… ou assim o entretenimento de massa pregava. No nível intermediário o melhor e o pior do gênero humano aflorava: instintos primitivos, devaneios absolutos.
Fiz o que Mira pediu do melhor jeito que pude. E ainda bem que o fiz. Quando entramos na casa de intoxicação o tempo já estava fechado e Chuva, mais bêbado e rabugento que nunca, vociferava com os outros clientes.
- Não saio daqui, porra! Tou numa missão! Meu camarada agente chega a qualquer hora!
