15.3
Chuva, o espantoso espantalho etílico, lançava perdigotos em arco sobre os presentes que tinham o azar de estar ao seu alcance, melhor, ao alcance de sua saliva. Mira tinha razão: o ar estava prenhe com a tensão de Chuva. Dava pra sentir, como eletricidade estática erguendo cabelinhos quase imperceptíveis na nuca. Chuva era uma criatura do clima, mas não imaginei que ele seria capaz de afetar a atmosfera artificial de Peniel. Mais uma vez estava errado. Nenhuma novidade nisso.
"Mira, eu vou chegar no Chuva pra ver se consigo acalmá-lo. Daí a gente sai desse nível e vai prum lugar mais tranqüilo."
- Copiado, Profit. Tou na sua retaguarda.
Bom, aquilo invertia a ordem que eu tinha imaginado pra entrarmos no recinto apertado, apertado… motivos egoístas, evidente. Esperava tirar uma casquinha de Mira com ela indo na frente e eu esbarrando em sua guarnição traseira como quem não quer nada. Deu quase na mesma, mas era sua linha de frente que esbarrava em minhas costas. E eu parava de propósito, claro. Claro, também, que o contato macio do corpo de Mira com o meu me deixava com sobrecarga de orgones e a cor de minha pele mudava da natural mescla de índios e europeus pruma antinatural cor azulada. Energia sexual azul, nada menos. Se precisasse voar do local já tinha combustível.
Chuva ficava cada vez mais agitado e, bom, ‘choviam’ cada vez mais perdigotos nos passantes inocentes. Até que demorou pra alguém se irritar com a situação. Chuva obviamente não fez de propósito, mas sendo ele um instrumento dos deuses e sem fazer a mínima idéia do que se passa por humor pra essa canalha, a coisa toda pareceu coincidência demais quando aconteceu.
Eu tinha, afinal, conseguido chamar a atenção de Chuva com uma gesticulação excessiva, muito parecida com um ataque epiléptico que acometesse somente os braços e ele ficou em pé na mesa de imediato, sorrisão de reconhecimento na cara amassada. Só que ao levantar, chutou a bebida de alguém. E derramar o drink alheio é o tipo de ofensa que demanda sangue como pagamento.
O sujeito em questão, adversário imediato de Chuva, era cerca de trinta centímetros mais alto que ele. Sua massa muscular recobriria o esqueleto de meu amigo com porte de cabide umas três ou quatro vezes. Não, ele não pertencia à elite superhumana de Peniel, era só mais um dos noventa e cinco porcento dos normais. Nem por isso era menos assustador. A mão do indivíduo era do tamanho exato da minha cabeça. Como eu sei disso? Vai lendo.
O cara levantou pronto pra socar meu amigo (?) bêbado e fedorento. A esta altura eu estava próximo e azul o bastante pra interferir. E, inacreditavelmente pra quem me conhece, foi o que fiz. O sujeito soltou um gancho demolidor com a direita que certamente arrancaria a pouca carne que restava nos ossos de Chuva e eu, cheio de tesão e vontade de impressionar Mira, aparei o golpe com minha cara. Agora você sabe.
Contrariando as leis da física, particularmente da entropia, e todas essas paradas de vida e morte, não apaguei, nem desencarnei. Só vi umas faíscas azuis saindo do ponto de contato entre sua mão enorme e meu rosto dolorido. Ah, sim, eu caí sentado no que, gosto de pensar, era bebida empoçada no chão. A alternativa pra justificar meus fundilhos molhados seria admitir que mijei nas calças de novo.
Confusão armada, Mira, a espancadora profissional, distribuiu um punhado daqueles golpes bonitos e elegantes que só ela sabe dar, abrindo espaço pra Chuva ajudar-me a levantar. Em pé, percebi que minha pele voltara ao tom normal e que minha cara só ficaria azul de novo quando os hematomas pretos em volta dos meus olhos começassem a esmaecer. Alguém gritou:
- Porra! Esse aí não é o tal detetive?
Cara, que surpresa! Eu era famoso em Peniel e não sabia! E um segundo elemento soltou:
- Se não é, parece. Ô, idiota, foi você que os glúons contrataram pra achar a Cidade? Foi você que trouxe esses alienígenas escrotos pra acabar com nosso sôssego?
Não era nesse tipo de fama que eu tava pensando, claro. Era linchamento na certa. Já podia antecipar as fraturas expostas e alguém usando meu crânio rachado como penico. Daí eles me tomaram das mãos de Chuva e me ergueram no ar, acima de suas cabeças. E a gritaria recomeçou.
- Viva o detetive idiota! Até que enfim a gente vai ter uma coisa diferente pra espancar além de nós mesmos! É o fim do tédio, porra!
Puta que o pariu! Que foi que eu fiz?
