15.4
Sim.
De repente a supercidade com toda tecnologia em que eu podia pensar e um pouco além, altíssimo grau de civilidade, foi invadida por hunos foderosos. A explosão entusiasmada dos bebuns durou até alguém pagar a próxima rodada pro grupo todo em, cê sabe, comemoração pela guerra iminente, o que os fez voltarem suas atenções às bebidas que era, afinal, o objetivo de se reunirem ali. Beber e esquecer… minha fama foi temporária mesmo, nem chegou perto dos tais quinze minutos lendários.
Quando dei por mim, Mira e Chuva já tinham me conduzido pra fora e atravessávamos uma ponte suspensa, coisa de filme spielberguiano, que não dava em lugar algum. A ponte simplesmente desaparecia no que eu achei serem nuvens. Com formatos gozados, antinaturais, mas ainda assim… nuvens.
Entramos na fofura aérea e eu pude ver o outro lado, o porto seguro com chão sólido em que pisar. A sensação firme e nada balouçante sob meus pés me devolveu o fôlego necessário pra falar.
"Então, quando vamos pro nível superior?"
- Ai, Profit, você é tão engraçado às vezes, sabia? Não sei como consegue ser detetive tendo essas crises de desatenção!
É, Mira tirava prazer, também, de divertir-se às minhas custas. Tadinho de mim!
- Bono, nós já chegamos, cara! Não tá vendo a luz? Era aqui que os deuses queriam a gente desde o começo. À direita de Gauge.
Chuva continuava falando coisas sem sentido. Era sua natureza de ‘iluminado’, acho. A cabeça encharcada de bebida e outras substâncias e/ou organismos obedecia regras diferentes, suas conexões mentais, as associações que fazia, eram só suas.
"E a gente vai ver o tal Gauge ainda hoje?"
- Antes vamos buscar Velocidade da Luz. A essa altura ele já deve ter matado a curiosidade de todo neurobiólogo local.
O nível superior era, como os outros já familiares de Peniel, diferente. Não era um troço do tipo ficção científica e ao mesmo tempo essa seria a aproximação mais correta de se fazer. Lembrava um pouco um hospital idealizado por Hollywood, ou o Céu de celulóide: muito branco, muita luz, o que tornava a visão difícil e a descrição, por conta disso, impraticável.
As paredes das construções não pareciam produto de engenharia ou mão-de-obra. Era mais como se tivessem sido cultivadas com paciência. Ao tato o material lembrava, sei lá, algo orgânico, vivo, mas não tou pensando em vida vegetal ou animal… algo entre as duas… fungo, talvez?
No fim do corredor, mais brancura e luz difusa. Antes que eu pudesse abrir a boca e perguntar como a gente saía dali ou se tínhamos errado o caminho, se precisávamos dar meia volta e assim por diante, Mira acariciou a parede, desenhou um símbolo invisível em sua superfície e batucou três vezes com o indicador, como se teclasse uma senha num keypad. A parede emitiu um som parecido com o ronronar de um gato e fui surpreendido de novo: nenhuma porta abriu ou deslizou como nos filmes ou séries de fc… só fez um troço que bagunçou ainda mais minha percepção mas ao qual já devia ter me habituado desde que escorreguei Peniel adentro. Havia uma parede no fim do corredor e, então, não mais.
Encontramos Velocidade da Luz sentado num cubículo e preso a um equipamento de aparência ameaçadora, pesada. Um parente mais sofisticado dos óculos e eletrodos e banheira com gosma que me conectaram ao gabarito, acho. Ao contrário do que imaginei, ele nos percebeu assim que nos aproximamos.
- Ah, enfim meus companheiros de viagem me encontraram! Que reunião feliz!
"Pra que serve essa tralha, Roberto?"
- Por favor, me chame de… esqueça. Essa ‘tralha’ é uma invenção do mundo exterior que nossos neurobiólogos importaram e aperfeiçoaram. Equipamento de neurofeedback.
"E serve pra quê?"
- Harmonizar as ondas cerebrais. Eles me recomendaram sessões de neurofeedback depois de minha experiência no exterior. Quer experimentar, Profit? Vai te fazer bem.
"Bom, parece que funciona, não? Primeira vez que te vejo relaxado desse jeito, Betão!"
É, pra quem tinha conhecido Roberto Maia no Lar Providência e aos cuidados do pegajosíssimo Phillips (pré-raio), aquele ali era realmente um novo homem. Mesmo depois de voltar à sua ‘forma real’ como ele gostava de dizer, Roberto tinha uma aura mais dramática do que agora. E eu precisava colocar as coisas em perspectiva. Como pensei que o negócio não era perigoso, deixei Velocidade da Luz prendê-lo à minha cabeça.
