15.5
Eu tava ligado a uma máquina construída com o objetivo de fazer seu usuário atingir a iluminação harmonizando as ondas cerebrais. Como já tinha sugerido antes de um ponto de vista externo, ao contrário da inserção no gabarito virtual, tudo que acontecia nas redondezas era captado sem muito esforço pelos meus sentidos.
Reconheci Mira e seus movimentos e seu calor e sua firmeza e a textura de sua pele… Mira estava em meus poros e eu a toquei com minha ‘mente’, que se estendia em várias direções a partir de meu corpo, como um periscópio, melhor, como tentáculos… envolvi Mira num abraço invisível, girei-a como o desenho de um objeto geométrico na tela de um computador, mas ela era carne e osso e sangue e cabelos, e era o olho de minha consciência, não uma máquina… Mira era exatamente o que aparentava: força e disciplina e espontaneidade. O mundo a tinha como ela era.
Chuva, por outro lado, era um fractal (brigado pela pesquisa, Rita). Como cumulus nimbus, sempre mudando de forma, mas com um propósito e só um. Tudo e/ou todos que eram Chuva viviam sob o mesmo preceito de ‘proteger e servir’. Muito estranho. Quem diria que um bêbado, sem-teto e, possivelmente, esquizofrênico, teria ideais tão nobres? Não eu. Havia muito mais em Chuva do que se poderia acompanhar a olho nu.
Roberto Maia ou Velocidade da Luz. Vê-lo despido de seu exterior era como ver eletricidade viva, semovente, uma carga eterna, energia vindo sabe-se lá de onde num looping interminável… o ambiente alimentava o relâmpago vivo que, a seu modo, retribuía. Energia é matéria.
O que fiz a seguir foi inconseqüente. Tendo tocado os outros presentes, voltei minha atenção ao menos nobre na sala. Quem estava ali por lucro?
Lembrei de muitas coisas ditas e feitas e de minha biografia vergonhosa. Olhar pra mim mesmo era algo que eu tentava evitar até quando me barbeava. Eu costumava justificar minha atitude com relação ao que era externo falando da ‘vida’ como uma entidade consciente e responsável por tudo. ‘A vida não me tratou bem’ e tal. Como se fosse algo de que eu não fizesse parte, que não me pertencesse, sobre a qual não exercia nenhum… o quê? Controle? Poder? As palavras erradas. Participação se aproxima mais do conceito em que quero chegar. E naquele momento em que a conveniência de minhas ações passadas perdia sentido frente à grandeza, à nobreza das pessoas ali, na sala, entendi que a vida é um rio em que se mergulha no momento em que o zóide fecunda o óvulo e que sempre muda, sempre se expande em direções inesperadas, acrescentando outros indivíduos à convivência, outros ingredientes à aventura… e esse entendimento causou, como é a palavra?, minha primeira e talvez única epifania.
Eu era parte de algo maior e fora de meu controle. Olhando pra mim mesmo percebi as conexões com o exterior que na verdade me definiam. Algumas muito próximas, outras estendendo-se para além de Peniel. Eu era parte da anima mundi, e deuses e demônios sacudiam-se em minhas tripas. Lembrei do orquidário. Dos pés nus enfiados na terra e do fluxo de energia. Meu templo é a natureza, meu corpo é meu templo, eu sou meu corpo, eu sou a natureza.
Neurofeedback tornou-se biofeedback. E tudo passou a ser muito mais simples.
Resgatei informação obtida por Izzy que se esforçou tanto pra me encontrar em quandures, no ventre, e a entendi também. Coisa alguma deve extinguir-se. Não deve haver extinção, mas mudança, transformação.
Estava tão satisfeito com minha compreensão do todo que estendi o alcance de minha percepção através das conexões das conexões presentes e toquei a mente do homem escuro e longilíneo, portador do medo.
Era um homem ou uma ave?
Uma ave negra, asas com uma envergadura inconcebível. Bem e mal compreendidos numa única entidade que não divulgava ou negava suas verdades. A aceitação do homem-ave, ave-humana foi algo assustador… sua vida era um choque. Transitava entre céu, terra e mar, talvez, também, no fogo. O mar era o… submundo? O inconsciente? A ave predava… peixes? Criminosos? Pesadelos? A ave era um símbolo ou algo real… alguém real?
E de repente, sem transição, como num videoclipe mal planejado, meus olhos se abriram pela não-sei-quantésima vez, mais um na fieira de despertares em Peniel, e não sei quantos ainda por vir, e eu e Roberto e Mira e Chuva o fractal, todos nós andando em direção a Gauge, ao lobo e suas belicosidade e dimensões de bolso.
- Tá se sentindo diferente, Profit? – ouvi a voz de Mira que também era minha voz.
- A-hã. Mas não de verdade. É como se eu calçasse os sapatos que usei a vida toda com uma única diferença: finalmente eles me servem, não machucam mais, sabe? Sou o que sou.
