16.1

January 8, 2009

O lance do biofeedback, a sensação que eu tinha naquela caminhada que, primeiro me tirou do ar e depois me enfureceu, é que meu sistema endógeno tava trabalhando com sobrecarga. Opióides e hormônios, endorfinas e adrenalina, eu tava quimicamente desequilibrado e não tinha meu quartilho de Jack pra dar uma pancada no sistema nervoso saturando-o de álcool e forçando o pâncreas a contrabalançar bombeando insulina. Tava na cara, pelo menos pra mim, que o que viesse a seguir ia ser uma merda irreconciliável.

Toda aquela coisa de utopia futurista sócio-tecnológica começou a me alcançar a partir do momento que ganhei perspectiva. A organização vertical da cidade em níveis tinha ou não tinha uma idéia subjacente de estratificação social, quase como o sistema de castas indiano? É o que acontece quando sua perspectiva vem graças a um monte de substâncias que teu corpo produz mas que não administra conscientemente. Iluminação e confusão podem muito bem parecer a mesma porcaria.

Daí preu ficar mais transtornado ainda com a questão social, a gente entrou num salão que, sei lá, parecia saído dum daqueles filmes hollywoodianos sobre a realeza. Um daqueles com a Cate Blanchett no papel de rainha… hm, Cate… cê entendeu: alguém precisava demonstrar quão grandioso e superior era com relação ao ‘resto’. Era desse jeito que eu percebia aquela ostentação. Como se eu fosse um ‘resto’. Some a isso a admiração recém-adquirida pelos meus acompanhantes e o desequilíbrio químico que experimentava e, presto!, sem piscar os olhos eu me senti no direito de chutar a bunda de qualquer entidade ‘superior’ que viesse me encher o saco.

No caso Gauge, uma mulher bem vestida que aparentava uns 30 anos, e um sujeito de mais ou menos 50, ainda em forma, vigoroso, pouco mais alto que eu e ostentando uma orgulhosa careca completa… disse que ele era fodidamente familiar?

Foi o careca, aliás, que causou maior impacto no meu grupo, sendo mais específico, em Mira, que quando o viu correu pros seus braços. ‘Encontro fodido’, pensei comigo mesmo, cheio de ressentimento, com a certeza atroz de que nossa combinação de ‘sexo recreacional depois da missão’ ia furar por conta da interferência do Sr. Carecão. Como não dava pra evitar, me aproximei soltando fumaça e com o coração sangrando.

Quando meu grupo tava perto o bastante o careca me olhou diretamente e eu soube quem ele era. Quase mijei nas calças. É, ele usava jeans e camiseta pretos, botas idem, mas eu não tinha relacionado essa informação com quem o cara seria. Bastou me olhar uma vez e bum! Uma criatura cuja natureza era tão duvidosa e sobre a qual só se sabia uma coisa: ele provocava medo mesmo sem sua fantasia.

- Lucas, vem aqui! Deixa eu te apresentar…

“Garça?”

- Em roupas civis não, Profit. Afonso Guerra. Te subestimei, não é? Você afinal encontrou Peniel…

Disse isso balançando minha mão inerte e fria e fez mais uma de suas coisas assustadoras de combatente sombrio do crime: me cheirou.

- Mira – ele disse e quase me caguei – você deitou com esse… ‘detetive’?

‘Fodeu’, pensei. Eu tinha mesmo tomado liberdades com Mira Bandeira. Não chegamos a concluir o ato nem no gabarito, mas tinha me agarrado com ela na primeira oportunidade. ‘E agora, o cara que a tinha treinado sentiu o cheiro dela em mim e vai me cobrir de porrada’, foi minha conclusão. Afinal, eu tinha tido intimidades com sua… pupila? Amante?

A iminência de levar uns sopapos ajudou e muito a diminuir minha revolta social. Agora meus instintos de autopreservação estavam ligados e eu tendia mais pra parte ‘fugir’ do que pra ‘lutar’.

O que Mira disse a seguir me deixou chocado, mas não diminuiu em um miligrama meu medo.

- Pára com isso, pai! O Lucas é destrambelhado mas tem bom coração. Além disso eu não sou mais nenhuma menininha.

“Fodeu duplo!!!” A situação só piorava e Mira sequer tinha negado nosso suposto intercurso. ‘Morrer agora seria um puta alívio’. A mão do Garça soltou a minha. ‘Ele vai me socar’, pensei.

- Olha a língua na frente da minha filha, Profit. Não é assim que se trata uma mulher.

- Paaaiii!!! – eu ouvi Mira dizer e, estranhamente, não caí inconsciente. Nem de medo nem por nocaute.

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