16.2

January 13, 2009

Sim, como qualquer ser humano afoito com a autopreservação, minha atenção tinha sido dirigida à ameaça mais imediata do Garça, melhor, do Afonso, melhor, do pai da Mira, e Gauge e sua companheira meio que ficaram por ali como figurantes no ‘drama’ de minha vida.

Eu tava na mesma sala que o sujeito que, me disseram, ‘é o melhor de nós’ (levando em consideração que isso foi dito por alguém da comunidade fantasiada e que esses caras têm um ego do tamanho do Godzilla, é muita coisa) e, segundo informações oníricas que se provaram precisas com a corroboração de Roberto Maia (ou Velocidade da Luz), tinha sobrevivido à queda de seu disco voador (ou o que fosse), derrotando os glúons que o perseguiam em combate, ocultado uma cidadezinha inteira de detecção humana e/ou alienígena e construído uma comunidade utópica usando-a como base e, ainda assim, me comportava como o pedestre que anda pelas ruas acotovelando as pessoas, ou um turista de shopping que só enxerga o que está imediatamente à sua frente ignorando os demais que ocupam o mesmo espaço, ou o motorista que não vê pedestres e só vê outros carros quando entram em rota de colisão com o dele.

Toda a raiva que dirigi moderadamente a tantas pessoas pareceu, de repente, injustificada, uma vez que eu tinha acabado de fazer o mesmo.

E lá estava Gauge. Muito em forma prum cara que caiu em nosso monte de lama em 1936. Ligeiramente curvado pra frente mas não por conta do peso dos anos. Era característica de sua espécie, que tinha a parte superior do corpo (tronco, ombros, braços, cabeça) muito desenvolvida. Conveniente pra um povo que explorava estrelas e se engajava em combates de morte há milênios.

Gauge me fazia lembrar de lobos, ruskies, pastores. Talvez por causa da barba cerrada e cabelos abundantes, talvez, novamente, por causa da postura arqueada quase animalesca que, entre outras coisas, ajudava a proteger peito e abdômen (as partes mais moles do corpo que dão acesso aos órgãos vitais) e aliviava a carga das ‘patas’ traseiras, talvez por causa das orelhas que lhe davam um aspecto de atenção excepcional, ou às narinas que se dilatavam cheirando o ar com enorme prazer enquanto ele jogava a cabeça pra trás… mas eram os olhos que mais denunciavam esse parentesco canino. Olhos zen, que não entregavam o que se passava em sua mente e ainda assim eram fodidamente expressivos, que podiam estar dizendo algo como ‘continue falando e trate de manter-me interessado, porque sempre posso fazer uso gastronômico do que não me apetecer de outra forma’, ou coisa parecida. Era como olhar pro Django, meu ex-cachorro. Grandes olhos amendoados, sempre límpidos, e pronto pra confusão a qualquer momento…

Acho que deu pra entender. Esse aspecto de ‘porra, que ele vai fazer na seqüência?’ na verdade era mais assustador que as técnicas de provocar medo do Garça. Quer dizer, com o Garça cê poderia prever um olho roxo ou uma fratura exposta ou um tiro na cabeça… com Gauge, por outro lado…

E tinha a porra do sonho na estrada! Entalado na boca do lobo! Só quando tava entrando em desespero com a possibilidade de virar o almoço de Gauge lembrei da mulher.

E era uma mulher mesmo, não uma dessas meninas fantasiadas de adulta e, definitivamente, não uma senhora da terceira idade tentando passar por mocinha. Mulher, ponto final.

Ela acariciou o ombro de Gauge como se fosse importante manter um vínculo com ele. Ele encostou sua cabeça enorme na mão dela. É, o vínculo ali, evidente, era diferente do de uma mulher e seu bicho de estimação.

Eu devia estar embasbacado demais porque Mira fez uso de seus dotes de âncora com a realidade e estalou os dedos diante de meus olhos dizendo ‘terra pra Profit!’ três vezes. Então as apresentações voltaram ao cardápio do dia.

- Meu nome é Miriam, Lucas, e se você quiser falar com Gauge temos duas opções: ter paciência com as limitações vocais que ele tem ou usar o link teletrônico.

“Ah, oi, meu nome é… rárárá! Você sabe meu nome, né? E… se eu usar o tal link vou desmaiar, entrar nalguma realidade virtual ou passar por algum tipo de iluminação espiritual súbita?”

- Realmente? Não, Lucas. Você só se tornará capaz de processar e emitir os agregados de imagens/pensamentos através dos quais Gauge prefere comunicar-se. É tudo muito simples e higiênico.

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