16.4

February 7, 2009

Descobri não muito depois quanto Miriam estava certa sobre a consciência partilhada dos glúons. Ah, e deixei escapar a chance de usar o, como era o nome?, teleprompter que ela ofereceu.

Em conseqüência, amarguei ouvir os grunhidos de Gauge, longos e torturantes. Quando a melhor parte da história tava chegando eu já não agüentava mais. Sequer tava prestando atenção.

Aqui não teve como Rita ajudar com pesquisa e também não pude recorrer a qualquer tipo de arquivo que tivesse registrado os, ããã, fatos. Tá bom: ao invés de falar de ‘fatos’ vou falar de ‘impressões’.

A primeira que tive foi como um detonador pros outros. Não entendi porque reagiram de forma tão extrema a um troço mínimo daqueles. O salão em que estávamos não chegou nem a balançar, só vibrou um pouquinho.

Gauge começou a sinalizar muito rápido e Miriam, Garça e Velocidade da Luz deviam estar equipados com a porrinha porque ficaram de prontidão imediatamente. Roberto virou um borrão azulado e sumiu, mas antes fez duas coisas: ‘emprestou velocidade’ pros presentes e sintonizou a percepção de todo mundo no mesmo ritmo, de modo que uma reação rápida demais não ferisse alguém.

- Checa tua arma, Lucas, e reza pras ‘amebas espaciais’ não serem à prova de bala.

Meigo, né? Mira até tinha adotado minha nomenclatura fuleira. Mas apesar da referência explícita não captei a relação com a vibraçãozinha…

- Lucas, eu preciso ir no banheiro.

“Pô, Chuva, acho que não é uma boa hora pra isso. Fico com receio de perguntar onde é pressa gente estressada e levar um fora.” Quase acrescentei ‘se tiver muito apertado faz nas calças, aposto que não vai ser a primeira vez’, mas me contive. Pensando bem, com meu problema de diarréia verbal, talvez tenha deixado escapar, porque ele respondeu nos seguintes termos:

- Você não entendeu. Os chefes querem falar comigo.

Como é que fui esquecer? Os tais deuses com que Chuva costumava se comunicar, e que eu achava estarem só em sua cabeça, usavam vasos sanitários como orelhões. Até dá pra entender a confusão se a gente pensar na estética de ambos. Perguntei pra Miriam onde era a ‘casinha’ e passei a informação pra Chuva que se escafedeu.

Quando olhei ao redor, mesmo com percepção ajustada e o escambau, vi que Afonso e Mira já tavam armados até os dentes e ele parecia ter preocupações muito mais sérias que ocultar sua identidade. Vestia uma roupa parecida com a fantasia original do Garça… quase como uma armadura que as polícias de choque européias usam, inclusive um  elmo. O material era todo de um preto fosco, felizmente sem os detalhes amarelos que me ofuscavam os olhos e ele tava de cara limpa.

Mira ficaria linda até dentro de um barril. Preciso lembrar dessa imagem pra futura referência.

Parece que tanto design quanto material foram duplicados do que Gauge terminava de vestir. Era uma carapaça da mesma cor e parecia, como as paredes daquele nível, fodidamente orgânica.

Mais que nunca senti falta de Jack, meu parceiro inseparável em crises como aquela.

Fiz o que Mira mandou. Torci pra que a precaução fosse só isso, como na ocasião anterior, quando ‘resgatamos’ Chuva do bar no segundo nível. Fiz mais: procurei vazamentos biológicos inconscientes nas minhas roupas, afinal já vinha ameaçando vazar por mais de um orifício quase desde o começo dessa história. Felizmente só vi manchas de transpiração.

De repente lembrei de perguntar que raio tava acontecendo, e como sou acomodado e não queria a) ser esculachado por Afonso outra vez e b) servir como repasto pro Gauge, optei por perguntar pra única pessoa presente que não parecia adepta da violência.

“Dona Miriam, não é por nada, não, mas tá acontecendo alguma coisa que eu devia saber?”

Ela me olhou exatamente como minha professora da terceira série fazia, uma expressão de paciência profunda e, por que não dizer, amor ágape. Cê sabe, que não envolve sexo.

- Aquela vibração pode parecer pouco, Lucas, mas significa muita coisa. Nossa cidade está isolada do mundo externo, o que implica que a tectônica das placas não nos afeta. Além disso estamos em tamanho reduzido e dependemos de tecnologia segura e testada pra manter-nos estáveis, longe da ameaça de elétrons e quarks saltando quanticamente por aí. Trocando em miúdos, só é possível afetar as estruturas de Peniel de dentro e tomamos precauções no nível molecular e neuronal pra termos certeza de que nenhum morador comprometeria nossa integridade. A explicação restante é que o guardião do portal caiu, possivelmente superado pelos invasores, e que glúons tiveram acesso à dimensão de bolso.

“Mas, tipo, eles não vão ficar desorientados como eu e a Mira?”

- Lucas, apesar de nós falarmos dos glúons como organismos, raça, espécie, não estamos bem certos de que eles seriam afetados pela viagem no ‘escorregador de buraco de minhoca’, o mecanismo que te trouxe aqui. Gauge tentou me explicar o que eles são de fato, mas não usou só termos de biologia… equações complexas e fórmulas matemáticas, além de vários gráficos entraram na sua explanação e não tenho certeza de que entendi.

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