17.1

February 24, 2009

E aqui é que o bicho pega pra valer porque, enquanto Miriam falava de equações e gráficos na tentativa de explicar a natureza dos glúons, a vibração anterior se repetiu.

Pra nossa sorte (eu, Mira, Afonso… Chuva não conta, sendo instrumento e funcionário dos deuses e tal) Velocidade da Luz tinha feito seu lance antes de ser nomeado batedor de Gauge e nos movíamos com rapidez suficiente pra evitar o pior.

Gauge não precisava de nada emprestado de outros supercaras. Nem Miriam, que tava no topo das prioridades dele.

O treinamento de Mira aflorou. Meus instintos de detecção, o formigamento entre nariz e olhos que sentia no interior da cabeça em momentos de grande estresse (não, não era um colapso nervoso, quem me dera… pelo menos seria uma justificativa pra escrever esse documento que não termina… minha tentativa frustrada de pôr as impressões em ordem), mais a vivência na Peniel do gabarito também ajudaram.

Pedaços do teto desabaram. Os outros estavam de armadura, eu só tinha meu terninho comprado pronto e um .38. Cair, rolar e tentar não ser esmagado pode ser bastante complicado sem o conjunto certo de requisitos. Bom tônus muscular, flexibilidade e cagaço.

Uma das paredes fungóides estalou e começou a apresentar rachaduras mais depressa do que o bolor branco conseguia crescer.

Gauge cobria Miriam com seu corpo. A mulher desaparecia sob sua cabeça e torso superdesenvolvidos, e a carapaça orgânica fazia os escombros quicarem ao atingi-la.

Mira me agarrou pelo paletó e pôs em pé, ao lado de Afonso. Ambos tinham os dentes à mostra e percebi a semelhança entre eles naquilo, afinal.

Sorriam.

As armas que portavam, diferentes da minha em seu design que combinava tecnologia de Gauge e terrestre, pareciam fazer tudo sozinhas. Se, por acidente, Mira a apontasse pra qualquer aliado, a traquitana não disparava. Ah é! O troço fabricava seus próprios projéteis. Enfim, muito útil em situação de combate. Formamos um triângulo na tentativa de proteger nossas respectivas retaguardas.

E o horror invadiu a sala vindo do espaço! Rá! Tive vontade de gargalhar, porque os glúons, os terríveis invasores, ainda usavam a aparência de Lorre e, pior, estavam com a mesma roupa que usavam quando os vi no escritório do galpão.

Talvez fosse exatamente este tipo de reação que queriam provocar: desarmar os incautos com sua aparência rechonchuda, desajeitada… fui pego de surpresa, sim. Também não sou o cara mais apropriado pra lutar com alienígenas. O que me salvou foi ter assistido ‘Relíquia Macabra’. Lorre não era um dos ‘mocinhos’. Ergui o .38 e o cientista maluco em seu robô gigante pipocou em minha memória. Perigo porra!

Descobri em primeira mão o uso que as amebas espaciais fazem de seus exoesqueletos miméticos. Vendo que estávamos esperando pelo ataque, abandonaram a forma gordinha e atarracada num piscar de olhos. Os bichos cresceram a olhos vistos. O Garça foi o primeiro a dar-lhes uma calorosa recepção. O que quer que a arma dele disparasse fazia efeito e achei que isso era bom.

Depois de acondicionar Miriam num cilindro na parede(um elevador pneumático, descobri depois), Gauge partiu pro ataque com as mãos (patas?) nuas. E, fico contente em dizer, ele sabia bater e batia pesado.

Os glúons atingidos por Afonso vazavam pro chão e escorriam. Os que Gauge socava com gosto só ficavam inertes, imagino que sofrendo de uma concussão amebóide dentro de suas confortáveis armaduras.

Mira seguia os passos do pai e dava cobertura pra fúria lupina de Gauge.

Eu só fiquei ali em pé, com a arma apontada e sem disparar. O aviso de Izzy quicava na caixa de osso.

Não era puritanismo de minha parte. Quando minha vida tá em risco não hesito. Pergunte pro Celso. Mas a fala de minha (ex?)namorada dos infernos era importante. O bastante pra ela me procurar in útero pra dizê-la.

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