17.2

March 28, 2009

Essa incerteza crônica reforçada pela limitação essencial das palavras em capturar impressões, abstrações e sentimentos generalizados, enfim, o que quer se dizer de fato, me atingiu na ocasião e, enquanto massacro a keyboard, continuo a sentir seus efeitos: terror de não entender que porra tá acontecendo, cu na mão, ovos doloridos e apertados no escroto.

Uma coisa puxa outra.

Eu queria confiar em Izzy, acreditar que a missão de Lorre era só recuperar tecnologia que podia afetar ou já tinha afetado o desenvolvimento planetário. Mas também queria crer nos supercaras e em suas boas intenções.

Gauge instaurou seu próprio sabor de utopia na comunidade que o ajudou e acolheu.

‘De boas intenções’ e tal… sendo Izzy empregada dos gerentes do inferno, o que escrevi acima ganha um sentido todo particular. As coisas pareciam girar em torno de um e só um eixo.

Não precisei me decidir por um ‘lado’.

Tou me adiantando, pra variar. Antes de chegar a esse ponto, muita merda atingiu o ventilador e espalhou-se pelo ar, no ambiente.

Tipo de coisa que acontece quando a gente se encontra numa situação em que coragem e inteligência não bastam pra superar adversidades.

Os supers lutavam, eram destemidos e determinados como só verdadeiros obsessivos poderiam ser e, pior, sabiam o que faziam. O número maior dos glúons e o fato de conhecerem sua tecnologia de cabo a rabo formaram a base incontornável do que estava por vir. Não precisava ter me preocupado com a saúde deles, pensei. O aviso de Izzy era só um reforço, concluí, pra que nenhuma reação fosse esboçada.

Me dei conta de que Chuva ainda não tinha voltado do banheiro. Como minha participação do conflito era tão importante quanto a das flores nos azulejos do banheiro de meu escritório e os mais aptos obviamente já estavam se atracando, acionei a trava de segurança do meu fiel .38, acomodei-o no coldre de onde nem devia ter saído e falei bem pertinho de Mira:

“Vou ver se o Chuva tá bem.”

- Não rompa a formação, Profit!

Sim, esse era o bom e velho Garça Negra que jamais perderia a oportunidade de dar ordens. Mané travado da porra!

- Vai, Lucas. – Mira respondeu. – A gente dá conta aqui. Mas volta, tá bom? Eu e você temos aquela pendência pra resolver… contigo morto essa ponta solta pode me incomodar.

Beijei Mira na bochecha enquanto ela atingia alienígenas com sua escopeta cósmica à esquerda e à direita. Não sei dizer se o beijo aconteceu de fato ou se só rolou na minha imaginação pra depois ser incorporado na memória.

Gosto de pensar que a primeira alternativa é a correta. Sim, tanto Mira quanto eu já tínhamos atingido ponto de saturação com o comportamento do Garça e ambos, quase que telepaticamente, concordamos que o melhor era não discutir ou tentar argumentar com o sujeito. Só ignorá-lo parecia o bastante, pelo menos naquela hora, em que ele tava ocupado demais pra nos dar sua atenção indivisa. Se a tivéssemos a estratégia não funcionaria.

Lembrei da localização do banheiro informada por Miriam e que Chuva tinha ido pra lá não pra se aliviar, mas pra comungar com seus chefes, deuses ou delírios, nunca vou saber, que acreditava comandarem suas ações.

Torci pra que os glúons não o considerassem uma ameaça a ponto de lhe fazer mal, tendo com ele o mesmo descaso que comigo, ou que não o tivessem matado por acidente… ainda assim teto e paredes desabando podiam ser perigosos pra pessoas que metem a cabeça na privada pra falar com seus superiores. Deuses ou delírios tinham um senso equivocado da eficácia dos meios de comunicação disponíveis e apelavam pra recursos escatológicos e dramáticos demais. Telefonia celular e gadgets diversos que possibilitam o acesso à rede mundial ainda não tinham se disseminado no paraíso aparentemente.

Encontrei Chuva na mesma posição comprometedora de antes e ainda vivo. A mão apertava a descarga a fim de manter a água correndo em grande quantidade.

Paredes e teto orgânicos gostavam dele por causa da umidade que o acompanhava aonde quer que fosse.

Tentei me aproximar e tirá-lo do transe da ‘comunhão’ dum jeito que não o assustasse e não me molhasse com os conteúdos altamente suspeitos do vaso sanitário.

Mão estendida pronta pra tocá-lo no ombro, cinco centímetros de distância no máximo e bum!, quase caí pra trás de susto quando uma explosão de cabelos, barba e água rompeu contato ou precisou respirar ou ambos.

Seus olhos tavam vermelhíssimos quando falou:

- Ainda bem que você tá aqui, parceiro. Vamos encerrar o caso. Os chefes passaram instruções finais.

Dúvida nova pipocou: eu tava contente por que Chuva estava vivo ou por que ele disse que aquilo ia acabar?

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