18.1

April 26, 2009

Abro os olhos no pós-siesta e Mira corre pela orla da praia, saltando ondas, acompanhada de perto por Afonso Neto, guri hiperativo, esperto, durão. Quando nasceu Mira perguntou e concordei fazendo graça ‘Eles até são parecidos no quesito ausência de cabelos’. Ela sorriu da brincadeira, eu idem. Já recuperada do parto, pediu enfaticamente, fazendo uso dos punhos, que eu não sacaneasse seu pai. Concordei, também enfaticamente, fazendo uso das escoriações e hematomas por uma semana. Sentado na varanda de nossa casa de veraneio posso vê-la correndo na praia, aquela sinfonia simétrica de músculos apertada sob a pele dourada, acompanhada por nosso filhote perfeito já dotado de cabelos, e isso me dá tanta alegria que é inevitável questionar a realidade da experiência.

As ocorrências estranhas no litoral já fazem tanto tempo? Eu tinha acordado de um sonho, duma peça mnemônica pregada pelo meu organismo?

Dia seco e rajada de vento. Areia nos olhos e nos dentes.

Piscando pra evitar que qualquer grão fique no olho, movimento das pálpebras mais umidade natural do globo ocular ajudam.

Volto a enxergar. Ainda há praia, mas não mais casa, nem Mira, Afonso Neto ou cadeira na varanda.

Só escombros.

Escombros estranhos.

Maquinária alienígena.

Recupero e perco a consciência várias vezes sem conseguir manter-me acordado.

Chuva está ajoelhado ao meu lado e mantém minha cabeça erguida enquanto uma precipitação restrita e precisa lava meu rosto… ele repete, quase como um dentista, com intervalos, sem a angústia da broca, ‘cospe’, ‘cospe’, ‘cospe’ e, como se não fosse eu o responsável pela operação da máquina corpórea, obedeço. Apago e acordo e ele não está por perto. Os destroços, os escombros do que quer que fosse, tudo já era. Consigo sentar. Ouço uma voz ‘tem mais um aqui, traz a maca!’ Enquanto desfaleço penso em Mira e no filho que não temos.

Acordo no escritório. Pedi a Rita que anunciasse todos os clientes… eu teria acordado se ela me atendesse?

Lorre me olha de sua cadeira, por cima da mesa, o grande sapo, Sartre, todas associações ridículas que faço involuntariamente por causa de sua exoftalmia. Ele diz ‘você é uma criatura curiosa, Sr. Profit. Esperei que se recuperasse o bastante para acertar nossas contas. Instruí meu pessoal a cuidar para que todas suas necessidades sejam atendidas enquanto permanecer neste plano. Supérfluos, pequenas e também algumas grandes vaidades fazem parte do orçamento do resto de sua vida. Sugiro que faça uso discreto desses recursos a fim de não chamar atenção indesejada para sua nova… capacidade de manobra. Ficamos satisfeitos com os serviços prestados e, apesar de sabermos de antemão de seu pendor pela não-ortodoxia, achamos que conseguiu superar-se. Mantenha-se disponível para o caso de solicitarmos suas habilidades em outras ocasiões.’

E minha visão falha.

Não, não é minha visão.

É a imagem dele.

Como uma tevê recebendo um sinal fraco. Ele não está ali. É um holograma. Fica coerente por uns segundos e diz ‘me chame de Lorre de agora em diante, se quiser. Mantenha o dispositivo de comunicação energizado’.

Pronto, não está mais lá. A maleta que dispôs aberta em cima da mesa continua no mesmo lugar. Não é um holograma. Dentro dela toda documentação necessária para legitimar o dinheiro que recebi por serviços prestados às amebas espaciais. Cartões bancários de bancos em que não tinha contas até então. Um celular e um carregador esquisitos. Ambos parecem insetos no mau sentido. Recorro ao meu quartilho de Jack em busca de orientação espiritual. Ele faz o serviço mais que bem.

Acordo cheio de tubos.

Nariz e boca e veias.

Ligado a máquinas.

Minha mão segura outra, quente. A dona dela descansa a cabeça no colchão de minha cama. Impossível reconhecê-la assim, nessa posição, com tantos cabelos cobrindo seu rosto. Tento chamar sua atenção, apertar seus dedos, mas não consigo. Isso é agora? Por nenhuma razão particular lembro de Izzy dizendo que quando estamos privados de estímulos externos viajamos pra frente e pra trás na linha da vida, da consciência, a fim de obtê-los  e evitar a loucura. Lembro do tigre na jaula e da garganta do deus-lobo. Quando estou? Passado? Futuro? Afinal movo os dedos com força suficiente e a mulher ergue a cabeça mas olha na direção da porta… ela chama a enfermeira, o médico, sei-lá-quem. Não reconheço sua voz. É a voz de alguém familiar imitando a voz de alguém familiar. Quem eu conheço que costuma fazer isso?

17.3

April 13, 2009

Mais e mais duro registrar o que lembro como fato.

Chuva parecia decidido. Essa noção aqueceu minhas tripas por uns minutos, quase como um gole generoso de Jack.

Andamos de volta pro grande salão onde a bagunça corria solta com mascarados mandando ver e alienígenas idem. Situação desesperadora. O Garça aparentava tanto cansaço quanto Mira. Gauge pulava e se equilibrava sobre inimigos tombados. Muito dramático, muito violento.

Chuva entrou no meio disso tudo e, imagino que como sempre, passou despercebido. Não tenho certeza do motivo, mas eu estava ao seu lado. Ele disse algo inaudível pros combatentes. A atmosfera do salão adensou-se, teto e paredes pararam de desabar e voltaram, devagar, a crescer, aumentando a estabilidade do lugar. Chuva repetiu sua fala. Algo como:

- O pomo da discórdia, Profit. Estamos bem em cima dele. Só preciso de uma fagulha. Uma tentativa.

Eu não fazia idéia. Cinquenta caíram a minha direita e não-sei-quantos a esquerda. Dos fantasiados só Gauge continuava em pé e mesmo o tempo dele estava contado. Sinais de cansaço, dificuldade de mover os braços e repetir as mesmas agressões de modo ininterrupto… as amebas espaciais precisavam cair. Os glúons estavam vencendo.

Se o cara mais fodão caísse que esperança eu podia ter com meu auto-proclamado parceiro magrelo, bêbado, louco e cheirando como algo saído da privada (mesmo)? Eu acreditava ou queria acreditar na baboseira sobre os deuses? Mal tinha absorvido a informação da presença de vida alienígena no planeta, porra! E isso com eles bem ali, na minha frente, se matando.

Misteriosamente não me preocupei com Mira.

Mas não duvidei quando o ar ficou mais úmido ainda. Gotas d’água condensavam-se ao nosso redor. Bruma? Não, era uma nuvem, cinzenta primeiro, mas escurecendo cada vez mais rápido. Uma nuvem se formando num salão fechado! E o centro dela, a única área que ainda podia ser vista, a única entidade identificável e que não parecia perdida no meio disso era Chuva. E eu vi sua santidade. Um halo elétrico formou-se ao redor de sua cabeça. ‘São Chuva, padroeiro dos cachaceiros’, pensei ou disse, e ele me olhou e acho que entendi o que os devotos sentem quando percebi a clareza, a bondade e a piedade em sua face e, puta que o pariu, foi tudo pra casa do caralho duma vez.

‘Uma fagulha’, ele disse. ‘Uma tentativa’.

Se eu tinha me assustado quando Roberto Maia chamou seu relâmpago não sei como descrever as sensações que me pegaram quando aquela monstruosidade elétrica natural destruiu ‘o pomo da discórdia’, traduzindo, a tecnologia alienígena que reduzia, ocultava e estabilizava Peniel. Chocado, talvez, só que se usar essa palavra desse jeito vão pensar que tou fazendo trocadilho, tentando ser engraçadinho… não, eu tava além do choque. Fui transformado pelo relâmpago. Vi a luz através dele. Thoth, Hermes, babuínos (um deles apontou pra própria bunda que parecia em carne viva e lembrei dos escorpiões cagados) e íbis e a puta que o pariu através do rasgo na realidade que aquela aberração elétrica fez. E eles viram que eu os vi. Tipo de coisa que não se esquece fácil, não cai nas areias movediças da amnésia seletiva como a gente gostaria. Ainda pude ler os lábios de Hermes antes de ser sugado pelo ralo da realidade convencional, física, o que seja. Não sou muito bom nisso, embora reconheça sua utilidade. Uma das palavras era claramente ‘não’, por causa do ‘o’ arredondado no final. A outra podia ser tanto ‘autorizado’ quanto ‘aromatizado’, novamente, a incerteza batendo pesado (sei que tou me repetindo)… Eu entenderia se estivesse se referindo a Chuva.

Deve ter sido aí que a onda de choque me pegou. Outra vez, dúvidas sérias se foi gerada pelo avô de todos os relâmpagos ou se pela expansão rápida e desorientadora pela qual todos parecemos ter passado.

Choque.

Terror.

Sem sentidos.

De dentro de minha inconsciência, uma voz familiar e amigável e parecida com outra voz familiar e amigável, sussurrou anasalada: ‘Jeito idiota de morrer, Profit.’

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