17.3

April 13, 2009

Mais e mais duro registrar o que lembro como fato.

Chuva parecia decidido. Essa noção aqueceu minhas tripas por uns minutos, quase como um gole generoso de Jack.

Andamos de volta pro grande salão onde a bagunça corria solta com mascarados mandando ver e alienígenas idem. Situação desesperadora. O Garça aparentava tanto cansaço quanto Mira. Gauge pulava e se equilibrava sobre inimigos tombados. Muito dramático, muito violento.

Chuva entrou no meio disso tudo e, imagino que como sempre, passou despercebido. Não tenho certeza do motivo, mas eu estava ao seu lado. Ele disse algo inaudível pros combatentes. A atmosfera do salão adensou-se, teto e paredes pararam de desabar e voltaram, devagar, a crescer, aumentando a estabilidade do lugar. Chuva repetiu sua fala. Algo como:

- O pomo da discórdia, Profit. Estamos bem em cima dele. Só preciso de uma fagulha. Uma tentativa.

Eu não fazia idéia. Cinquenta caíram a minha direita e não-sei-quantos a esquerda. Dos fantasiados só Gauge continuava em pé e mesmo o tempo dele estava contado. Sinais de cansaço, dificuldade de mover os braços e repetir as mesmas agressões de modo ininterrupto… as amebas espaciais precisavam cair. Os glúons estavam vencendo.

Se o cara mais fodão caísse que esperança eu podia ter com meu auto-proclamado parceiro magrelo, bêbado, louco e cheirando como algo saído da privada (mesmo)? Eu acreditava ou queria acreditar na baboseira sobre os deuses? Mal tinha absorvido a informação da presença de vida alienígena no planeta, porra! E isso com eles bem ali, na minha frente, se matando.

Misteriosamente não me preocupei com Mira.

Mas não duvidei quando o ar ficou mais úmido ainda. Gotas d’água condensavam-se ao nosso redor. Bruma? Não, era uma nuvem, cinzenta primeiro, mas escurecendo cada vez mais rápido. Uma nuvem se formando num salão fechado! E o centro dela, a única área que ainda podia ser vista, a única entidade identificável e que não parecia perdida no meio disso era Chuva. E eu vi sua santidade. Um halo elétrico formou-se ao redor de sua cabeça. ‘São Chuva, padroeiro dos cachaceiros’, pensei ou disse, e ele me olhou e acho que entendi o que os devotos sentem quando percebi a clareza, a bondade e a piedade em sua face e, puta que o pariu, foi tudo pra casa do caralho duma vez.

‘Uma fagulha’, ele disse. ‘Uma tentativa’.

Se eu tinha me assustado quando Roberto Maia chamou seu relâmpago não sei como descrever as sensações que me pegaram quando aquela monstruosidade elétrica natural destruiu ‘o pomo da discórdia’, traduzindo, a tecnologia alienígena que reduzia, ocultava e estabilizava Peniel. Chocado, talvez, só que se usar essa palavra desse jeito vão pensar que tou fazendo trocadilho, tentando ser engraçadinho… não, eu tava além do choque. Fui transformado pelo relâmpago. Vi a luz através dele. Thoth, Hermes, babuínos (um deles apontou pra própria bunda que parecia em carne viva e lembrei dos escorpiões cagados) e íbis e a puta que o pariu através do rasgo na realidade que aquela aberração elétrica fez. E eles viram que eu os vi. Tipo de coisa que não se esquece fácil, não cai nas areias movediças da amnésia seletiva como a gente gostaria. Ainda pude ler os lábios de Hermes antes de ser sugado pelo ralo da realidade convencional, física, o que seja. Não sou muito bom nisso, embora reconheça sua utilidade. Uma das palavras era claramente ‘não’, por causa do ‘o’ arredondado no final. A outra podia ser tanto ‘autorizado’ quanto ‘aromatizado’, novamente, a incerteza batendo pesado (sei que tou me repetindo)… Eu entenderia se estivesse se referindo a Chuva.

Deve ter sido aí que a onda de choque me pegou. Outra vez, dúvidas sérias se foi gerada pelo avô de todos os relâmpagos ou se pela expansão rápida e desorientadora pela qual todos parecemos ter passado.

Choque.

Terror.

Sem sentidos.

De dentro de minha inconsciência, uma voz familiar e amigável e parecida com outra voz familiar e amigável, sussurrou anasalada: ‘Jeito idiota de morrer, Profit.’

Get free blog up and running in minutes with Blogsome
Theme designed by Viewfinder Design