Não lembro se prometi em algum momento que os apagões e despertares esquisitos deste relato tinham acabado. Rita me diz pra deixar de lado promessas que não posso cumprir. Sim, Rita. Além de ajudar em pesquisas ela é responsável pela organização dessa barafunda até agora. A partir de minhas ‘memórias’ esfarrapadas ela meio que juntou fragmentos e ordenou cronologicamente o que experimentei ou penso ter experimentado.
Foi Rita, também, quem disse que ‘acha’ que sabe o que me aconteceu. Leu numa de suas revistas de ‘divulgação científica’, como ela gosta de chamar, um artigo sobre estudos de memória animal. Aparentemente ratos têm memória, lembram de coisas aprendidas (como andar num labirinto, por exemplo), mas são incapazes de lembrar quando aprenderam. Alguns mamíferos maiores parecem ter esse mesmo trato no que se refere à memória cronológica: não a possuem. Isso explicaria, por exemplo, a animação constante de um cão sempre que reencontra seu dono. Ele sabe que o conhece mas tem a impressão de que o sujeito ainda é novidade.
Os neurologistas que acompanham meu caso dizem que não houve mudança fisiológica no meu cérebro, mas estudam, como eles dizem, a possibilidade de alteração elétrica ou eletroquímica. Tou inclinado a concordar com essa possibilidade. Do jeito que entendo a coisa, desligaram, modificaram e religaram todo meu sistema nervoso. Se isso é bom ou ruim… na verdade já sei a resposta pra essa pergunta. Falta a coragem pra divulgá-la. Claro que há a possibilidade de surpresas. Tem lacunas suficientes na minha ‘memória total’ (que inclui lembranças de eventos que ainda não ocorreram) como as meninas estão chamando.
Além disso é uma capacidade que ainda não sei como controlar.
Sei, por exemplo, que minhas preocupações financeiras vão acabar (ou já acabaram, dependendo de ‘quando’ estou escrevendo isto e você lendo); que Mira e eu teremos um envolvimento maior do que meus sonhos mais loucos.
Não faço idéia do que aconteceu com Chuva, Garça Negra, Gauge e outros coadjuvantes.
Os gluóns prometeram manter contato. Ou vão prometer.
Meu médico disse que esses sintomas podem não ser permanentes, que, quem sabe, a cronologia ainda pode fazer parte de minha vida.
Como dito, há lacunas suficientes pra vida não ficar tediosa.
Preciso pensar numa nova ocupação. Ser detetive, no meu caso, não é mais tão estimulante quanto antes. Com estabilidade emocional e financeira posso pensar em como usar as coisas que sei de modo mais criativo.
Thoth e Hermes, deuses da verborragia, e seu criado Chuva e o avô de todos os relâmpagos, que responsabilizo pela mudança nas minhas percepções, podem aparecer a qualquer momento e decidir que não é mais engraçado e reverter tudo. Mas as coisas que já sei não podem ser mais tiradas de mim.
E é isso.
De verdade, foi muito cansativo todo o processo de colocar as impressões, acontecimentos, memórias, o que seja, em ordem e escrevê-las.
Se houver próxima vez, talvez eu o faça em outro lugar, como outra pessoa.
FIM
