cinzas

September 13, 2007

ele só pegou o cinzeiro com cinzas e guimbas ainda dentro e, depois de juntar tudo, amassar até que só restasse pó, livrou-se dos filtros, despejou o resultado na mão em cunha e voltou correndo ao salão de beleza onde trabalhava. seus dedos brancos e longos trabalhando as cinzas ficaram gravados na memória. talvez algum acidente com tintura.

recobrei os sentidos depois de uma breve experiência extra-corpórea e estava novamente na livraria folheando um dicionário de física. tenho lido bastante sobre esse assunto, embora não seja minha área de especialidade.

a mulher, mignon, me observava do outro lado da mesa. me esforcei pra recuperar seu nome de minha memória bagunçada.

‘oi’, ela disse.

como se eu tivesse aparecido ali naquele minuto.

respondi equilibrando a situação.

‘quando você chegou?’, ela de novo.

eu tinha a impressão de ter estado ali boa parte da tarde, mas pra quê começar uma discussão sem sentido? certo que seria só mais uma numa cadeia que se alongava já há tempos, disse a ela que tinha acabado de entrar.

ela perguntou ‘cadê meu beijo?’.

fui até o outro lado da mesa e a beijei. ainda não lembrava seu nome mesmo depois de tê-la beijado. o beijo não foi daqueles cheios de luxúria, mas ainda assim senti uma manifestação leve de testosterona em meu organismo.

‘você tá bem?’ ela perguntou.

parecia genuinamente preocupada. respondi com a mesma vaguidão específica característica do outro sexo. seu cabelo bicolor e os olhos grandes e expressivos mexiam com minha memória. seu corpo econômico, com minha libido.

voltei a examinar o dicionário.

o verbete ‘heisenberg’ chamou minha atenção.

as palavras ‘princípio da incerteza’ me fizeram sentir a urgência de ter a boca preenchida por fumaça outra vez. era um vício, afinal, não charme.

a nicotina se ligava aos meus neurônios e me dava uma tranqüilidade artificial e necessária.

imagens de elétrons se comportando como ondas e partículas, como fumaça, segundo uma visão artística qualquer, ocuparam meus pensamentos por instantes preciosos.

elétrons girando sobre seus próprios eixos e transmitindo a informação de seus movimentos a elétrons tão distantes quanto outra estrela, quanto gliese, à velocidade maior que a da luz… instantaneamente. sincronizados.

olhei na direção da mulher e ela não estava lá. nem a livraria. nem o dicionário.

o cigarro queimava lento entre meus dedos.

vida louca

September 2, 2007

viver no mundo e tentar encontrar a causa de todo e qualquer fenômeno pode te enlouquecer. é engraçado quando se pensa ser capaz de traçar conexões, estabelecer ligações e determinar o motivo por trás daquilo que se presencia.

as pessoas se tornam paranóicas com o que não são capazes de controlar. o, veja só como é parecida com aquela outra palavra, casual (caos, acaso) sempre é considerado com reservas.

ninguém diz só ‘que coincidência!’ e se dá por satisfeito com isso. não mais. as pessoas acham que há um motivo. que tudo acontece por um motivo. elas entram em delírio e começam a entrecruzar ações, atitudes, fatos, pensamentos disparatados numa rede de segurança que só explique, por que, por que, por que!

todo mundo quer entender como as coisas acontecem e quando acontecem e porque, principalmente se for algo ruim, porque, ou uma variação popular egoísta, ‘por que comigo?’

pois é.

a boa notícia é que às vezes somos capazes de investigar o acaso aparente e descobrir o que o causou, se bem que geralmente a descoberta vai demonstrar que todo fosfato gasto na formulação da teoria da conspiração da vez foi desperdiçado…

a causalidade imaginada pode ter ou não a ver com aquela vez em que você foi grosso, invocou o nome de deus em vão, traiu sua mulher, esbofeteou seu filho etc.

tudo está conectado quando se pensa em termos de mecânica qüântica. o comportamento de uma partícula mínima afeta o comportamento de outra tão distante quanto o universo é infinito (ou não).

funciona no microcosmo.

claro que pode funcionar no macro também quando se pensa, por exemplo, em ecossistemas, extinção das espécies, impacto ambiental… tudo tem causa e efeito nesse plano.

o que realmente escapa do controle é o comportamento das pessoas. dentro da cabeça de cada um há um modelo do universo em que até o dono da cabeça está representado.

dentro desse modelo, que é o filtro pelo qual julgamos conhecer o mundo, há uma série de comportamentos, atitudes, o que seja, que esperamos…

como numa rotina, espera-se que tal pessoa tenha tal comportamento… temos pressa em catalogar e etiquetar, em definir as pessoas pra podermos lidar com elas com mais facilidade.

bom, aí é que está: as pessoas mudam.

da noite pro dia.

não são previsíveis nem nada parecido.

só são.

sinc

August 15, 2007

depois de meses, ontem retomei a narrativa de lucas profit, vulgo bono, sem nenhuma intenção além daquela já esboçada anteriormente de juntar elementos estranhos à mitologia do personagem.

hoje, assistindo WAKING LIFE pela metade, peguei o fragmento de diálogo em que um dos sonhadores fala de como VAZIO INFINITO, do P.K.D., é um reflexo do livro bíblico de atos.

desenterrei minha cópia da bíblia e comecei a ler as informações sobre a produção do texto que, é claro, é atribuído, entre todos os discípulos, a lucas.

‘coincidência é o fio que ata todas as coisas.’

Se…

September 16, 2006

…quiser saber mais a respeito de Lúcio, o personagem novo de MARRETA, clique aqui.  Hipertexto? Bah!

15.

July 25, 2006

Já deu pra perceber que nenhum evento estapafúrdio acontece nessa história, certo? Talvez alguém diga que é uma daquelas narrativas sobre nada… a vida é exatamente assim, não? Não faz sentido, não leva a lugar algum. Parece sim ser somente som e fúria sem nenhum significado.

Exceto que…

Coisas sem significado podem ser importantes.

Minha última noite trabalhando como vigia noturno foi mais interessante que qualquer voz saída de qualquer rádio jamais poderia ser.

A essa altura já tinha eliminado todas as matérias do ensino médio e me dedicava a estudar pra o vestibular com afinco pois não podia pagar uma faculdade particular. Tinha posto como missão provar a mim mesmo minha igualdade, embora hoje em dia isso pareça uma quimera, rejeitar a inferioridade de uma vez e levar a melhor vida possível.

Ao chegar na guarita, abri a garrafa térmica e enchi um copo de café. Senti o cheiro subir com a fumaça, um dos prazeres que mais tarde cultivei, apreciar um bom gole de café ainda fresco, ainda não viciado pelos resíduos imortais de mil cafés anteriores.

Verifiquei as câmeras de vigilância.

Depois de muito tempo de vício, optei por não ligar o rádio e esperar por Alice. Ela agora pertencia a um país que eu tinha deixado pra trás, só uma memória, pouco mais que isso, talvez.

Ainda a veria algumas vezes zapeando a tevê em busca de entretenimento nas madrugadas insones, em algum canal por assinatura, mas não houve mais contato real, o espelho da fantasia se partiu em cacos infinitos.

Num dos monitores de vigilância, uma pequena coluna de fumaça começava a se formar.

Um vulto se postou na porta de onde o fumo subia e demorei a reconhecê-la.

Era a garota do escritório outra vez, mas agora parecia estar ali mesmo. Li seus lábios mais do que ouvi sua voz, seus olhos fixos na câmera:

“Oi. Acho que comecei um incêndio sem querer.”

Tentei imaginar como seria a voz dela enquanto acionava o alarme e chamava a brigada de combate ao fogo da fábrica.

Dizer que nosso encontro foi natural não faria jus ao ocorrido. Foi mais que isso. E, outra vez, me vi apaixonado por uma fração de pessoa, um fotograma misterioso com uma imagem nunca esquecida.

FIM.

14.

July 24, 2006

Se tivesse dito “sim” praquela pergunta de Alice talvez minha vida tivesse sido, por um tempo, uma versão de “Eduardo e Mônica” pra classes sociais diferentes e não idades.

Imagino que a complicação com Cléber seria ainda maior, que ele agiria de forma bem mais violenta se tivesse alguma verdade na sua suspeita.

Só posso imaginar, felizmente. Meus instintos, dessa vez, estavam certos.

Ele me abordou no bar como quem não quer nada, no melhor estilo “amigão” que seu dinheiro pode comprar. Adamastor não tinha aparecido e eu fazia minha cerveja durar o máximo que podia já sem esperar que ele viesse… em tempos mais abundantes, viraria uma depois da outra e me preocuparia com a conta só na hora de ir embora. Mais uma sorte, essa de estar duro.

“Fala, Pedro!”

“Oi, doutor.”

“Que é isso, Pedro! Você sabe meu nome! Não precisa de formalidade comigo!”

“Dr. Cléber, o senhor até pode dizer isso agora, mas a primeira coisa que lembro ouvir da sua boca foi uma ameaça. Então, se não se importar, prefiro tratar o sr. de doutor, mesmo.”

“Tudo bem, então. Se você prefere assim… mas esse seu comentário, Pedro… ele não é importante, é? Você não desobedeceu nosso acordo nem nada do tipo, certo? Porque, Pedro, eu posso ficar muito puto contigo muito rápido, entendeu?”

“Eu sei meu lugar, pode deixar. Não me meti com sua amiga do jeitinho que o senhor falou.”

“Achei que você fosse inteligente mesmo, Pedro. Tem visto o seu amigo? O informante lá que te deu o serviço sobre a Alice?”

“Tenho sim, mas só pra tomar cerveja e jogar conversa fora. Nunca mais perguntei dela. Não quero mais saber da vida de ninguém. Tenho muito com que me ocupar ficando sozinho.”

“Pedro, qualquer coisa que você precise… sabe, você é homem… se precisar se aliviar… é só falar comigo. Eu conheço umas donas que fariam o serviço barato.”

“Pode deixar, doutor. Mas ainda não tô precisando de ajuda profissional, não. Eu me viro.”

“Ok. Tá aqui minha parte pra te fazer esquecer nosso mal-entendido.” e deixou uma nota de 50 reais no balcão antes de sair.

Peguei minha bolsa com o uniforme de serviço, enxuguei o restinho de cerveja choca do copo, paguei com os trocados que ainda tinha e saí.

O balconista, um milagre de honestidade, me chamou e perguntou se eu tinha esquecido o dinheiro no balcão. Eu disse que não, que não era meu e que sabia disso porque tinha saído de casa só com o dinheiro da condução e da cerveja.

Ele embolsou sem discutir mais.

Trago essas lembranças de Cléber bem perto do peito porque foram formadoras do meu caráter depois de adulto. Se tivesse a chance algum dia de humilhar alguém, eu deixaria passar sem pestanejar.

13.

July 19, 2006

Embora tivesse mais uma vez minha atenção, Alice não sabia bem o que queria. Até pra decidir o que beber no barzinho “cabeça” em que me levou demonstrou certa dificuldade.

Minha imaginação trabalhava como nunca no tecido delicado de sua roupa. Imaginação tátil, se quiser. Não conseguia parar de pensar em como seria tocar aquela roupa antes de livrar-me dela e tê-la nua… aí entrava em cena a imaginação visual, como você bem pode deduzir.

Na época minha cabeça ainda não estava tão danificada quanto agora por excesso de referências e me contentei em pensar que sua pele seria sedosa sob as pontas de meus dedos. Os lábios, flor carnuda e vicejante eram como um presente de outra dimensão.

Sonhei com essas impressões noite passada, como se a memória se fundisse ao desejo e este pretendesse me compensar com algo que eu não mais teria materialmente.

As perguntas dela a meu respeito… eram gerais. A aparente atração, minha justificativa pra entender seu interesse por mim, esvaiu-se de repente quando começou, o quê?, a entrevista.

“Você é da região?”

“Não, sou nordestino. Mas vim muito pequeno pra cá. Se voltasse ao nordeste agora era capaz de não me adaptar por lá.”

“Sei. Qual a sua escolaridade?”

“Estou eliminando matérias conforme posso. Terminei todas do ensino fundamental. Ainda faltam algumas pra completar o ensino médio.”

“Do que você gosta?”

“Como assim? De estudar?”

“Não, de fazer.”

“Se me perguntasse há um tempinho atrás, era ouvir rádio. Hoje… não sei, preciso arrumar alguma coisa pra me distrair.”

“Você não tem nenhum hobby mesmo? Não tem namorada?”

“Tinha, mas não sabia que ela se considerava assim, tão ligada a mim. Quando percebi já era tarde. Ela foi embora.”

“Pena.”

“Escuta, é assim que a gente vai passar a noite, mesmo? Tá parecendo um interrogatório, não uma conversa.”

“É um jeito de se ver… você não tem nenhum curiosidade a meu respeito? Pode perguntar que respondo.”

“Já tive. Queria saber como você era quando conhecia só sua voz. Agora preciso decidir de qual versão de você gosto mais: a garota de camisa masculina e jeans ou a mulher superproduzida de hoje.”

“Ah, você não gostou?”

“Ao contrário, gostei bastante. Só não sei qual delas é você… qual é a dona da voz.”

“Você é esquisito, Pedro. Já te ocorreu que posso ter me arrumado toda só pra vir te ver?”

“Não. Não me iludo com esse tipo de coisa.”

“E está certo em fazer assim. Fui numa entrevista de emprego… quem sabe com alguma sorte saio do rádio e vou pra tevê.”

“Entendi. Ainda assim fica a dúvida.”

“E se eu te dissesse que nenhuma das duas? A única hora em que me sinto eu mesma é quando estou em casa ‘a vontade, comendo, assistindo a um filme, tomando banho… acho que é aí que deixo todas as máscaras de lado e sou eu mesma. E você? Quando você é você mesmo?”

“À toda hora. Não sou tão complicado. Gosto de simplicidade. O que você vê é o que você tem. Nem mais nem menos.”

“Acho que gosto disso, dessa objetividade. Só não sei se estaria preparada pra lidar com ela no dia-a-dia.”

“Você não precisa. É só entrar no carro e ir pra outro lugar. Eu saio de sua vista, a simplicidade fica comigo, sua vida volta a ser complexa e interessante.”

“Rárárá! Você estuda mesmo pra esses exames de eliminação de matéria, né?’

“Olha, pra dizer a verdade aprendi a maioria das palavras difíceis que sei ouvindo teu programa e consultando o dicionário pra ver o que significavam.”

“Sério?”

“Alice também é cultura…”

“Pára de tirar sarro!”

“Parei.”

“Pedro…”

“Alice…”

“Pedro, você quer ir pra cama comigo?”

“Quero Alice. Só não sei se posso.”

“Você só tem de dizer que quer, Pedro.”

“Alice, a gente é muito diferente um do outro.”

“Pedro, é só sexo, tá?”

“Alice, isso é ficção, tá?”

“Significando?”

“Aprendi do jeito mais difícil mas aprendi: sexo sempre significa mais pra uma das pessoas envolvidas.”

Daí, como dizer, meio que acabou qualquer clima que poderia ter surgido. Fazia pouco tempo que Joana tinha me deixado, era tudo muito fresco na memória pra que eu deixasse passar o mesmo erro novamente.

Alice deu uma desculpa qualquer, disse que precisava trabalhar, não se lembrou que eu sabia seus horários e foi embora. Precisei pegar um ônibus, mas estava bem, não me perguntava mais como poderia ter sido.

Claro, não foi a última vez que ouvi falar de Alice. Mas antes tinha encontros estranhos pela frente. Um deles com Cléber. Outro, com o desconhecido. Mesmo.

12.

July 15, 2006

Você com certeza pode se perguntar: “Como assim? Como reapareceu? Você esteve com a mulher, o quê, meia hora?”

E, sim, estaria certo.

Mas é a verdade. Ela não estava lá e, de repente, estava. Reapareceu, entende, voltou a fazer parte da minha vida.

A princípio não entendi (sendo sincero agora: ainda não entendo) o que poderia querer de mim. A mulher achou que eu era algum tipo de tarado, pois um amigo policial pra me investigar, me enxotou de uma festa e agora…

Melhor falar do que ela queria, certo?

Acho que vale dizer que a curiosidade falou mais alto que o medo nesse caso. Ela quis, afinal, saber por quê eu tinha me interessado por ela, quem eu era, o que fazia e mais milhões de perguntas. Dessa vez, queria saber em primeira mão e não receber informações de terceiros.

Corro o risco de parecer pretensioso, mas acho que estava atraída por mim. E dessa vez, não veio disfarçada de homem como na festa. Tive até um pouco de dificuldade em reconhecê-la.

Alice foi a mulher mais complexa com que lidei e, é sério, não estava preparado pra lidar com ela.

Estava parada do lado de fora da fábrica, usando um vestidinho esvoaçante, solto do corpo, que a fazia parecer uma aparição (no bom sentido do termo)… seu cabelo louro, também solto, caía em cascata sobre os ombros e os óculos foram substituídos por lentes de contato. O batom foi o que mais me chamou atenção. Era vermelho e contrastava com o tom leitoso de sua pele.

Finalmente a Alice que eu esperava ser a dona da voz.

“Oi, Pedro.”

Foi tudo o que precisou dizer pra reconhecê-la.

“Oi, dona-encrenca.”- respondi, imaginando onde estaria Cléber.

“Paz, cara-pálida! Não vim pra brigar. Só quero trocar idéias. Conversar um pouco. Saber quem é você, estranho.”

“Entendi. Pra depois fazer pouco de mim com seus amiguinhos burgueses. Tá bom. Vai esperando.”

“É sério, Pedro: missão de paz. Juro. Quero saber mais…“

Claro, eu estava fazendo charme, mas e aí? Você não faria? Afinal, eu também tinha ego, apesar de não ter dinheiro.

“Tudo bem. Vamos conversar.”

“Pra onde?”- ela perguntou, abrindo a porta do carro.

“Um lugar em que a gente possa falar… e que não seja caro.”

11.

July 14, 2006

Tudo mudou a partir daí. Ouvir o programa de Alice já não tinha a mesma graça, perdeu-se um pouco do efeito que me causava imaginar como ela era. Mas tinha me habituado e continuei me entretendo como podia enquanto esperava.

Mas o quê estava esperando, certo? Depois de terem cuspido na minha cara que eu era “limitado” pra entender o que quer que fosse um tipo de raiva silenciosa me tomou.

Comecei a levar mais a sério a questão de não ter estudado e pensei que estava na hora de voltar. Com o problema de tempo sempre contando em minha cabeça, optei por fazer a eliminação de matérias, modalidade de educação que era a única possível pra mim naquele momento.

Em alguns meses estaria pronto pra prestar um vestibular, mas a coisa não funcionou como eu queria e ainda precisei esperar outro tanto até ter arranjado um emprego melhor, com horário decente que me permitisse estudar ‘a noite.

Era um jeito de me concentrar e provar pra mim mesmo que Cléber estava errado a meu respeito.

O engraçado é que, na minha cabeça, toda a obsessão por Alice já estava resolvida, o mistério, desfeito. Mas tinha posto em movimento um dispositivo com o qual ainda precisaria viver muito pra entender.

A imaginação de uma mulher.

Depois da primeira vez soube como ela me localizou. Eu ainda saía com Adamastor, ainda tomávamos cervejas sem conta, apesar de já não me lamentar tanto quanto antes. Foi ele quem contou a ela como me encontrar, em que horário era possível me ver e todo o resto.

Um dia, do nada, Alice reapareceu na minha vida. Dessa vez, eu esperava, não me daria problemas com a polícia.

10.

July 13, 2006

Cochilei mais de uma vez. A bebida podia até não me deixar de ressaca, mas estava cobrando seu preço de um jeito ou de outro.

O programa terminou e saí pra fazer a ronda pelos corredores, agora me dava conta, intermináveis. A cerveja mudou um pouco minha percepção das coisas.

Uma das salas estava com a luz acesa. Já tinha visto algo parecido num capítulo anterior. Só que desta vez precisava das mãos pra me segurar em pé. Nada de cassetete. Pensando nisso me ocorreu que talvez Cléber tivesse feito aquela visita noturna assustadora. Não seria de estranhar. Nele tudo parecia assustador.

Imaginei que alguém tivesse esquecido a luz assim na pressa de ir embora. Era a hipótese em que eu queria acreditar, pelo menos. Não teria condição de fazer nada além de cair no chão e chorar se a fábrica estivesse sendo roubada.

Quando entrei vi que uma mulher estava sentada e debruçada sobre uma das mesas, com um cigarro aceso entre o indicador e o anular da mão esquerda. A porta rangeu quando a escancarei e a garota, levantando, me olhou assustada e disse:

“Não fui eu!”

“Quê?”

“Ah, meu Deus! Não!”

“Calma, calma. O que aconteceu? Você dormiu aqui e esqueceu de ir pra casa?”

“Não! Eu tava fazendo hora-extra e quando percebi estava sozinha aqui e o prédio fechado. Tentei ligar pra portaria, mas a secretária deixou o PABX desligado e não tinha linha nem pra ligar pra outro setor. Acendi esse cigarro e devo ter pegado no sono. Quando vi o fogo e a fumaça…”

Ela olhava desesperada para os lados.

“Que fogo? Que fumaça?”- perguntei, desviando o olhar dela, só me virando o suficiente pra ter uma noção do que tinha acontecido e não vi nada queimado ou chamuscado. Quando olhei novamente em sua direção, já não estava mais lá e as luzes se apagaram.

Não tinha sobrado nem o cheiro do cigarro nem a memória da voz dela. Engraçado na minha situação esquecer justamente a voz de alguém. Ilusão de ótica? Sei lá.

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