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	<title>Labirinto</title>
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	<description>os caminhos que se bifurcam</description>
	<pubDate>Sat, 22 Aug 2009 05:01:12 +0000</pubDate>
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		<title>mesa de estagiária</title>
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		<pubDate>Sat, 22 Aug 2009 05:01:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Moraes</dc:creator>
		
	<category>K.I.S.S.</category>
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		<description><![CDATA[<p>resumindo bem mesmo a parada: tá no ar o primeiro segmento da seq&uuml;ela de CIDADE no blog filhote deste aqui.LABIRINTO 2.0vai checar e deixa teu racado lá!</p>
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			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">resumindo bem mesmo a parada: tá no ar o primeiro segmento da seq&uuml;ela de CIDADE no blog filhote deste aqui.</p><p align="justify"><a href="http://labirinto2.wordpress.com/" target="_self">LABIRINTO 2.0</a></p><p align="justify">vai checar e deixa teu racado lá!</p>
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		<title>not the end</title>
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		<pubDate>Sat, 06 Jun 2009 16:48:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Moraes</dc:creator>
		
	<category>O Centro</category>
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		<description><![CDATA[<p>a história de Lucas, como voc&ecirc;s devem ter notado, n&atilde;o acabou. esclarecimentos sobre seu destino poder&atilde;o ser encontrados aqui. as coisas mudam.be my guest.</p>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>a história de Lucas, como voc&ecirc;s devem ter notado, n&atilde;o acabou. esclarecimentos sobre seu destino poder&atilde;o ser encontrados <a href="http://labirinto2.wordpress.com/" target="_self">aqui</a>. </p><p>as coisas mudam.</p><p>be my guest.</p>
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		<title>18.2</title>
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		<pubDate>Fri, 08 May 2009 22:30:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Moraes</dc:creator>
		
	<category>K.I.S.S.</category>
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		<description><![CDATA[<p>N&atilde;o lembro se prometi em algum momento que os apag&otilde;es e despertares esquisitos deste relato tinham acabado. Rita me diz pra deixar de lado promessas que n&atilde;o posso cumprir. Sim, Rita. Além de ajudar em pesquisas ela é responsável pela organiza&ccedil;&atilde;o dessa barafunda até agora. A partir de minhas &lsquo;memórias&rsquo; esfarrapadas ela meio que juntou [...]</p>
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			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" align="justify"><font>N&atilde;o lembro se prometi em algum momento que os apag&otilde;es e despertares esquisitos deste relato tinham acabado. Rita me diz pra deixar de lado promessas que n&atilde;o posso cumprir. Sim, Rita. Além de ajudar em pesquisas ela é responsável pela organiza&ccedil;&atilde;o dessa barafunda até agora. A partir de minhas &lsquo;memórias&rsquo; esfarrapadas ela meio que juntou fragmentos e ordenou cronologicamente o que experimentei ou penso ter experimentado.</font></p><p align="justify"><font>Foi Rita, também, quem disse que &lsquo;acha&rsquo; que sabe o que me aconteceu. Leu numa de suas revistas de &lsquo;divulga&ccedil;&atilde;o científica&rsquo;, como ela gosta de chamar, um artigo sobre estudos de memória animal. Aparentemente ratos t&ecirc;m memória, lembram de coisas aprendidas (como andar num labirinto, por exemplo), mas s&atilde;o incapazes de lembrar quando aprenderam. Alguns mamíferos maiores parecem ter esse mesmo trato no que se refere &agrave; memória cronológica: n&atilde;o a possuem. Isso explicaria, por exemplo, a anima&ccedil;&atilde;o constante de um c&atilde;o sempre que reencontra seu dono. Ele sabe que o conhece mas tem a impress&atilde;o de que o sujeito ainda é novidade.</font></p><p align="justify"><font>Os neurologistas que acompanham meu caso dizem que n&atilde;o houve mudan&ccedil;a fisiológica no meu cérebro, mas estudam, como eles dizem, a possibilidade de altera&ccedil;&atilde;o elétrica ou eletroquímica. Tou inclinado a concordar com essa possibilidade. Do jeito que entendo a coisa, desligaram, modificaram e religaram todo meu sistema nervoso. Se isso é bom ou ruim&#8230; na verdade já sei a resposta pra essa pergunta. Falta a coragem pra divulgá-la. Claro que há a possibilidade de surpresas. Tem lacunas suficientes na minha &lsquo;memória total&rsquo; (que inclui lembran&ccedil;as de eventos que ainda n&atilde;o ocorreram) como as meninas est&atilde;o chamando.</font></p><p align="justify"><font>Além disso é uma capacidade que ainda n&atilde;o sei como controlar.</font></p><p align="justify"><font>Sei, por exemplo, que minhas preocupa&ccedil;&otilde;es financeiras v&atilde;o acabar (ou já acabaram, dependendo de &lsquo;quando&rsquo; estou escrevendo isto e voc&ecirc; lendo); que Mira e eu teremos um envolvimento maior do que meus sonhos mais loucos.</font></p><p align="justify"><font>N&atilde;o fa&ccedil;o idéia do que aconteceu com Chuva, Gar&ccedil;a Negra, Gauge e outros coadjuvantes.</font></p><p align="justify"><font>Os gluóns prometeram manter contato. Ou v&atilde;o prometer.</font></p><p align="justify"><font>Meu médico disse que esses sintomas podem n&atilde;o ser permanentes, que, quem sabe, a cronologia ainda pode fazer parte de minha vida.</font></p><p align="justify"><font>Como dito, há lacunas suficientes pra vida n&atilde;o ficar tediosa. </font></p><p align="justify"><font>Preciso pensar numa nova ocupa&ccedil;&atilde;o. Ser detetive, no meu caso, n&atilde;o é mais t&atilde;o estimulante quanto antes. Com estabilidade emocional e financeira posso pensar em como usar as coisas que sei de modo mais criativo.</font></p><p align="justify"><font>Thoth e Hermes, deuses da verborragia, e seu criado Chuva e o av&ocirc; de todos os rel&acirc;mpagos, que responsabilizo pela mudan&ccedil;a nas minhas percep&ccedil;&otilde;es, podem aparecer a qualquer momento e decidir que n&atilde;o é mais engra&ccedil;ado e reverter tudo. Mas as coisas que já sei n&atilde;o podem ser mais tiradas de mim.</font></p><p align="justify"><font>E é isso.</font></p><p align="justify"><font>De verdade, foi muito cansativo todo o processo de colocar as impress&otilde;es, acontecimentos, memórias, o que seja, em ordem e escrev&ecirc;-las.</font></p><p align="justify"><font>Se houver próxima vez, talvez eu o fa&ccedil;a em outro lugar, como outra pessoa.</font></p><p align="justify"><font>FIM</font></p>
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		<title>18.1</title>
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		<pubDate>Sun, 26 Apr 2009 23:06:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Moraes</dc:creator>
		
	<category>K.I.S.S.</category>
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		<description><![CDATA[<p>Abro os olhos no pós-siesta e Mira corre pela orla da praia, saltando ondas, acompanhada de perto por Afonso Neto, guri hiperativo, esperto, dur&atilde;o. Quando nasceu Mira perguntou e concordei fazendo gra&ccedil;a &lsquo;Eles até s&atilde;o parecidos no quesito aus&ecirc;ncia de cabelos&rsquo;. Ela sorriu da brincadeira, eu idem. Já recuperada do parto, pediu enfaticamente, fazendo uso [...]</p>
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			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify"><font>Abro os olhos no pós-siesta e Mira corre pela orla da praia, saltando ondas, acompanhada de perto por Afonso Neto, guri hiperativo, esperto, dur&atilde;o. Quando nasceu Mira perguntou e concordei fazendo gra&ccedil;a &lsquo;Eles até s&atilde;o parecidos no quesito aus&ecirc;ncia de cabelos&rsquo;. Ela sorriu da brincadeira, eu idem. Já recuperada do parto, pediu enfaticamente, fazendo uso dos punhos, que eu n&atilde;o sacaneasse seu pai. Concordei, também enfaticamente, fazendo uso das escoria&ccedil;&otilde;es e hematomas por uma semana. Sentado na varanda de nossa casa de veraneio posso v&ecirc;-la correndo na praia, aquela sinfonia simétrica de músculos apertada sob a pele dourada, acompanhada por nosso filhote perfeito já dotado de cabelos, e isso me dá tanta alegria que&nbsp;é inevitável questionar a realidade da experi&ecirc;ncia.</font></p><p align="justify"><font>As ocorr&ecirc;ncias estranhas no litoral já fazem tanto tempo? Eu tinha acordado de um sonho, duma pe&ccedil;a mnem&ocirc;nica pregada pelo meu organismo?</font></p><p align="justify"><font>Dia seco e rajada de vento. Areia nos olhos e nos dentes.</font></p><p align="justify"><font>Piscando pra evitar que qualquer gr&atilde;o fique no olho, movimento das pálpebras mais umidade natural do globo ocular ajudam.</font></p><p align="justify"><font>Volto a enxergar. Ainda há praia, mas n&atilde;o mais casa, nem Mira, Afonso Neto ou cadeira na varanda. </font></p><p align="justify"><font>Só escombros.</font></p><p align="justify"><font>Escombros estranhos.</font></p><p align="justify"><font>Maquinária alienígena.</font></p><p align="justify"><font>Recupero e perco a consci&ecirc;ncia várias vezes sem conseguir manter-me acordado.</font></p><p align="justify"><font>Chuva está ajoelhado ao meu lado e mantém minha cabe&ccedil;a erguida enquanto uma precipita&ccedil;&atilde;o restrita e precisa lava meu rosto&#8230; ele repete, quase como um dentista, com intervalos, sem a angústia da broca, &lsquo;cospe&rsquo;, &lsquo;cospe&rsquo;, &lsquo;cospe&rsquo; e, como se n&atilde;o fosse eu o responsável pela opera&ccedil;&atilde;o da máquina corpórea, obede&ccedil;o. Apago e acordo e ele n&atilde;o está por perto. Os destro&ccedil;os, os escombros do que quer que fosse, tudo já era. Consigo sentar. Ou&ccedil;o uma voz &lsquo;tem mais um aqui, traz a maca!&rsquo; Enquanto desfale&ccedil;o penso em Mira e no filho que n&atilde;o temos.</font></p><p align="justify"><font>Acordo no escritório. Pedi a Rita que anunciasse todos os clientes&#8230; eu teria acordado se ela me atendesse?</font></p><p align="justify"><font>Lorre me olha de sua cadeira, por cima da mesa, o grande sapo, Sartre, todas associa&ccedil;&otilde;es ridículas que fa&ccedil;o involuntariamente por causa de sua exoftalmia. Ele diz &lsquo;voc&ecirc; é uma criatura curiosa, Sr. Profit. Esperei que se recuperasse o bastante para acertar nossas contas. Instruí meu pessoal a cuidar para que todas suas necessidades sejam atendidas enquanto permanecer neste plano. Supérfluos, pequenas e também algumas grandes vaidades fazem parte do or&ccedil;amento do resto de sua vida. Sugiro que fa&ccedil;a uso discreto desses recursos a fim de n&atilde;o chamar aten&ccedil;&atilde;o indesejada para sua nova&#8230; capacidade de manobra. Ficamos satisfeitos com os servi&ccedil;os prestados e, apesar de sabermos de antem&atilde;o de seu pendor pela n&atilde;o-ortodoxia, achamos que conseguiu superar-se. Mantenha-se disponível para o caso de solicitarmos suas habilidades em outras ocasi&otilde;es.&rsquo;</font></p><p align="justify"><font>E minha vis&atilde;o falha.</font></p><p align="justify"><font>N&atilde;o, n&atilde;o é minha vis&atilde;o.</font></p><p align="justify"><font>É a imagem dele.</font></p><p align="justify"><font>Como uma tev&ecirc; recebendo um sinal fraco. Ele n&atilde;o está ali. É um holograma. Fica coerente por uns segundos e diz &lsquo;me chame de Lorre de agora em diante, se quiser. Mantenha o dispositivo de comunica&ccedil;&atilde;o energizado&rsquo;.</font></p><p align="justify"><font>Pronto, n&atilde;o está mais lá. A maleta que disp&ocirc;s aberta em cima da mesa continua no mesmo lugar. N&atilde;o é um holograma. Dentro dela toda documenta&ccedil;&atilde;o necessária para legitimar o dinheiro que recebi por servi&ccedil;os prestados &agrave;s amebas espaciais. Cart&otilde;es bancários de bancos em que n&atilde;o tinha contas até ent&atilde;o. Um celular e um carregador esquisitos. Ambos parecem insetos no mau sentido. Recorro ao meu quartilho de Jack em busca de orienta&ccedil;&atilde;o espiritual. Ele faz o servi&ccedil;o mais que bem.</font></p><p align="justify"><font>Acordo cheio de tubos.</font></p><p align="justify"><font>Nariz e boca e veias.</font></p><p align="justify"><font>Ligado a máquinas.</font></p><p align="justify"><font>Minha m&atilde;o segura outra, quente. A dona dela descansa a cabe&ccedil;a no colch&atilde;o de minha cama. Impossível reconhec&ecirc;-la assim, nessa posi&ccedil;&atilde;o, com tantos cabelos cobrindo seu rosto. Tento chamar sua aten&ccedil;&atilde;o, apertar seus dedos, mas n&atilde;o consigo. Isso é agora? Por nenhuma raz&atilde;o particular lembro de Izzy dizendo que quando estamos privados de estímulos externos viajamos pra frente e pra trás na linha da vida, da consci&ecirc;ncia, a fim de obt&ecirc;-los&nbsp; e evitar a loucura. Lembro do tigre na jaula e da garganta do deus-lobo. Quando estou? Passado? Futuro? Afinal movo os dedos com for&ccedil;a suficiente e a mulher ergue a cabe&ccedil;a mas olha na dire&ccedil;&atilde;o da porta&#8230; ela chama a enfermeira, o médico, sei-lá-quem. N&atilde;o reconhe&ccedil;o sua voz. É a voz de alguém familiar imitando a voz de alguém familiar. Quem eu conhe&ccedil;o que costuma fazer isso?</font></p>
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		<title>17.3</title>
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		<pubDate>Mon, 13 Apr 2009 00:13:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Moraes</dc:creator>
		
	<category>K.I.S.S.</category>
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		<description><![CDATA[<p>Mais e mais duro registrar o que lembro como fato.Chuva parecia decidido. Essa no&ccedil;&atilde;o aqueceu minhas tripas por uns minutos, quase como um gole generoso de Jack.Andamos de volta pro grande sal&atilde;o onde a bagun&ccedil;a corria solta com mascarados mandando ver e alienígenas idem. Situa&ccedil;&atilde;o desesperadora. O Gar&ccedil;a aparentava tanto cansa&ccedil;o quanto Mira. Gauge pulava [...]</p>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><font><p align="justify"><font>Mais e mais duro registrar o que lembro como fato.</font></p><font /></font><font><p align="justify"><font>Chuva parecia decidido. Essa no&ccedil;&atilde;o aqueceu minhas tripas por uns minutos, quase como um gole generoso de Jack.</font></p><font /></font><font><p align="justify"><font>Andamos de volta pro grande sal&atilde;o onde a bagun&ccedil;a corria solta com mascarados mandando ver e alienígenas idem. Situa&ccedil;&atilde;o desesperadora. O Gar&ccedil;a aparentava tanto cansa&ccedil;o quanto Mira. Gauge pulava e se equilibrava sobre inimigos tombados. Muito dramático, muito violento.</font></p><font /></font><font><font /></font><font><p align="justify"><font>Chuva entrou no meio disso tudo e, imagino que como sempre, passou despercebido. N&atilde;o tenho certeza do motivo, mas eu estava ao seu lado. Ele disse algo inaudível pros combatentes. A atmosfera do sal&atilde;o adensou-se, teto e paredes pararam de desabar e voltaram, devagar, a crescer, aumentando a estabilidade do lugar. Chuva repetiu sua fala. Algo como:</font></p><font /></font><font><p align="justify"><font>- O pomo da discórdia, Profit. Estamos bem em cima dele. Só preciso de uma fagulha. Uma tentativa.</font></p><font /></font><font><p align="justify"><font>Eu n&atilde;o fazia idéia. Cinquenta caíram a minha direita e n&atilde;o-sei-quantos a esquerda. Dos fantasiados só Gauge continuava em pé e mesmo o tempo dele estava contado. Sinais de cansa&ccedil;o, dificuldade de mover os bra&ccedil;os e repetir as mesmas agress&otilde;es de modo ininterrupto&#8230; as amebas espaciais precisavam cair. Os glúons estavam vencendo.</font></p><font /></font><font><p align="justify"><font>Se o cara mais fod&atilde;o caísse que esperan&ccedil;a eu podia ter com meu auto-proclamado parceiro magrelo, b&ecirc;bado, louco e cheirando como algo saído da privada (mesmo)? Eu acreditava ou queria acreditar na baboseira sobre os deuses? Mal tinha absorvido a informa&ccedil;&atilde;o da presen&ccedil;a de vida alienígena no planeta, porra! E isso com eles bem ali, na minha frente, se matando.</font></p><font /></font><font><p align="justify"><font>Misteriosamente n&atilde;o me preocupei com Mira.</font></p><font /></font><font><p align="justify"><font>Mas n&atilde;o duvidei quando o ar ficou mais úmido ainda. Gotas d&#8217;água condensavam-se ao nosso redor. Bruma? N&atilde;o, era uma nuvem, cinzenta primeiro, mas escurecendo cada vez mais rápido. Uma nuvem se formando num sal&atilde;o fechado! E o centro dela, a única área que ainda podia ser vista, a única entidade identificável e que n&atilde;o parecia perdida no meio disso era Chuva. E eu vi sua santidade. Um halo elétrico formou-se ao redor de sua cabe&ccedil;a. &#8216;S&atilde;o Chuva, padroeiro dos cachaceiros&#8217;, pensei ou disse, e ele me olhou e acho que entendi o que os devotos sentem quando percebi a clareza, a bondade e a piedade em sua face e, puta que o pariu, foi tudo pra casa do caralho duma vez.</font></p><font /></font><font><p align="justify"><font>&#8216;Uma fagulha&#8217;, ele disse. &#8216;Uma tentativa&#8217;.</font></p><font /></font><font><p align="justify"><font>Se eu tinha me assustado quando Roberto Maia chamou seu rel&acirc;mpago n&atilde;o sei como descrever as sensa&ccedil;&otilde;es que me pegaram quando aquela monstruosidade elétrica natural destruiu &#8216;o pomo da discórdia&#8217;, traduzindo, a tecnologia alienígena que reduzia, ocultava e estabilizava Peniel. Chocado, talvez, só que se usar essa palavra desse jeito v&atilde;o pensar que tou fazendo trocadilho, tentando ser engra&ccedil;adinho&#8230; n&atilde;o, eu tava além do choque. Fui transformado pelo rel&acirc;mpago. Vi a luz através dele. Thoth, Hermes, babuínos (um deles apontou pra própria bunda que parecia em carne viva e lembrei dos escorpi&otilde;es cagados) e íbis e a puta que o pariu através do rasgo na realidade que aquela aberra&ccedil;&atilde;o elétrica fez. E eles viram que eu os vi. Tipo de coisa que n&atilde;o se esquece fácil, n&atilde;o cai nas areias movedi&ccedil;as da amnésia seletiva como a gente gostaria. Ainda pude ler os lábios de Hermes antes de ser sugado pelo ralo da realidade convencional, física, o que seja. N&atilde;o sou muito bom nisso, embora reconhe&ccedil;a sua utilidade. Uma das palavras era claramente &#8216;n&atilde;o&#8217;, por causa do &#8216;o&#8217; arredondado no final. A outra podia ser tanto &#8216;autorizado&#8217; quanto &#8216;aromatizado&#8217;, novamente, a incerteza batendo pesado (sei que tou me repetindo)&#8230; Eu entenderia se estivesse se referindo a Chuva.</font></p><font /></font><font><p align="justify"><font>Deve ter sido aí que a onda de choque me pegou. Outra vez, dúvidas sérias se foi gerada pelo av&ocirc; de todos os rel&acirc;mpagos ou se pela expans&atilde;o rápida e desorientadora pela qual todos parecemos ter passado.</font></p><font /></font><font><p align="justify"><font>Choque.</font></p><font /></font><font><p align="justify"><font>Terror.</font></p><font /></font><font><p align="justify"><font>Sem sentidos.</font></p><font /></font><font><p align="justify"><font>De dentro de minha inconsci&ecirc;ncia, uma voz familiar e amigável e parecida com outra voz familiar e amigável, sussurrou anasalada: &#8216;Jeito idiota de morrer, Profit.&#8217;</font></p></font></p>
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		<title>17.2</title>
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		<pubDate>Sat, 28 Mar 2009 00:54:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Moraes</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[<p>Essa incerteza cr&ocirc;nica refor&ccedil;ada pela limita&ccedil;&atilde;o essencial das palavras em capturar impress&otilde;es, abstra&ccedil;&otilde;es e sentimentos generalizados, enfim, o que quer se dizer de fato, me atingiu na ocasi&atilde;o e, enquanto massacro a keyboard, continuo a sentir seus efeitos: terror de n&atilde;o entender que porra tá acontecendo, cu na m&atilde;o, ovos doloridos e apertados no escroto.Uma [...]</p>
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			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" align="justify"><font>Essa incerteza cr&ocirc;nica refor&ccedil;ada pela limita&ccedil;&atilde;o essencial das palavras em capturar impress&otilde;es, abstra&ccedil;&otilde;es e sentimentos generalizados, enfim, o que quer se dizer de fato, me atingiu na ocasi&atilde;o e, enquanto massacro a keyboard, continuo a sentir seus efeitos: terror de n&atilde;o entender que porra tá acontecendo, cu na m&atilde;o, ovos doloridos e apertados no escroto.</font></p><p align="justify"><font>Uma coisa puxa outra.</font></p><p align="justify"><font>Eu queria confiar em Izzy, acreditar que a miss&atilde;o de Lorre era só recuperar tecnologia que podia afetar ou já tinha afetado o desenvolvimento planetário. Mas também queria crer nos supercaras e em suas boas inten&ccedil;&otilde;es.</font></p><p align="justify"><font>Gauge instaurou seu próprio sabor de utopia na comunidade que o ajudou e acolheu.</font></p><p align="justify"><font>&lsquo;De boas inten&ccedil;&otilde;es&rsquo; e tal&#8230; sendo Izzy empregada dos gerentes do inferno, o que escrevi acima ganha um sentido todo particular. As coisas pareciam girar em torno de um e só um eixo.</font></p><p align="justify"><font>N&atilde;o precisei me decidir por um &lsquo;lado&rsquo;.</font></p><p align="justify"><font>Tou me adiantando, pra variar. Antes de chegar a esse ponto, muita merda atingiu o ventilador e espalhou-se pelo ar, no ambiente. </font></p><p align="justify"><font>Tipo de coisa que acontece quando a gente se encontra numa situa&ccedil;&atilde;o em que coragem e intelig&ecirc;ncia n&atilde;o bastam pra superar adversidades.</font></p><p align="justify"><font>Os supers lutavam, eram destemidos e determinados como só verdadeiros obsessivos poderiam ser e, pior, sabiam o que faziam. O número maior dos glúons e o fato de conhecerem sua tecnologia de cabo a rabo formaram a base incontornável do que estava por vir. N&atilde;o precisava ter me preocupado com a saúde deles, pensei. O aviso de Izzy era só um refor&ccedil;o, concluí, pra que nenhuma rea&ccedil;&atilde;o fosse esbo&ccedil;ada.</font></p><p align="justify"><font>Me dei conta de que Chuva ainda n&atilde;o tinha voltado do banheiro. Como minha participa&ccedil;&atilde;o do conflito era t&atilde;o importante quanto a das flores nos azulejos do banheiro de meu escritório e os mais aptos obviamente já estavam se atracando, acionei a trava de seguran&ccedil;a do meu fiel .38, acomodei-o no coldre de onde nem devia ter saído e falei bem pertinho de Mira:</font></p><p align="justify"><font>&ldquo;Vou ver se o Chuva tá bem.&rdquo;</font></p><p align="justify"><font>- N&atilde;o rompa a forma&ccedil;&atilde;o, Profit!</font></p><p align="justify"><font>Sim, esse era o bom e velho Gar&ccedil;a Negra que jamais perderia a oportunidade de dar ordens. Mané travado da porra!</font></p><p align="justify"><font>- Vai, Lucas. &ndash; Mira respondeu. &ndash; A gente dá conta aqui. Mas volta, tá bom? Eu e voc&ecirc; temos aquela pend&ecirc;ncia pra resolver&#8230; contigo morto essa ponta solta pode me incomodar.</font></p><p align="justify"><font>Beijei Mira na bochecha enquanto ela atingia alienígenas com sua escopeta cósmica &agrave; esquerda e &agrave; direita. N&atilde;o sei dizer se o beijo aconteceu de fato ou se só rolou na minha imagina&ccedil;&atilde;o pra depois ser incorporado na memória.</font></p><p align="justify"><font>Gosto de pensar que a primeira alternativa é a correta. Sim, tanto Mira quanto eu já tínhamos atingido ponto de satura&ccedil;&atilde;o com o comportamento do Gar&ccedil;a e ambos, quase que telepaticamente, concordamos que o melhor era n&atilde;o discutir ou tentar argumentar com o sujeito. Só ignorá-lo parecia o bastante, pelo menos naquela hora, em que ele tava ocupado demais pra nos dar sua aten&ccedil;&atilde;o indivisa. Se a tivéssemos a estratégia n&atilde;o funcionaria.</font></p><p align="justify"><font>Lembrei da localiza&ccedil;&atilde;o do banheiro informada por Miriam e que Chuva tinha ido pra lá n&atilde;o pra se aliviar, mas pra comungar com seus chefes, deuses ou delírios, nunca vou saber, que acreditava comandarem suas a&ccedil;&otilde;es.</font></p><p align="justify"><font>Torci pra que os glúons n&atilde;o o considerassem uma amea&ccedil;a a ponto de lhe fazer mal, tendo com ele o mesmo descaso que comigo, ou que n&atilde;o o tivessem matado por acidente&#8230; ainda assim teto e paredes desabando podiam ser perigosos pra pessoas que metem a cabe&ccedil;a na privada pra falar com seus superiores. Deuses ou delírios tinham um senso equivocado da eficácia dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o disponíveis e apelavam pra recursos escatológicos e dramáticos demais. Telefonia celular e gadgets diversos que possibilitam o acesso &agrave; rede mundial ainda n&atilde;o tinham se disseminado no paraíso aparentemente.</font></p><p align="justify"><font>Encontrei Chuva na mesma posi&ccedil;&atilde;o comprometedora de antes e ainda vivo. A m&atilde;o apertava a descarga a fim de manter a água correndo em grande quantidade.</font></p><p align="justify"><font>Paredes e teto org&acirc;nicos gostavam dele por causa da umidade que o acompanhava aonde quer que fosse. </font></p><p align="justify"><font>Tentei me aproximar e tirá-lo do transe da &lsquo;comunh&atilde;o&rsquo; dum jeito que n&atilde;o o assustasse e n&atilde;o me molhasse com os conteúdos altamente suspeitos do vaso sanitário.</font></p><p align="justify"><font>M&atilde;o estendida pronta pra tocá-lo no ombro, cinco centímetros de dist&acirc;ncia no máximo e bum!, quase caí pra trás de susto quando uma explos&atilde;o de cabelos, barba e água rompeu contato ou precisou respirar ou ambos.</font></p><p align="justify"><font>Seus olhos tavam vermelhíssimos quando falou:</font></p><p align="justify"><font>- Ainda bem que voc&ecirc; tá aqui, parceiro. Vamos encerrar o caso. Os chefes passaram instru&ccedil;&otilde;es finais.</font></p><p align="justify"><font>Dúvida nova pipocou: eu tava contente por que Chuva estava vivo ou por que ele disse que aquilo ia acabar?</font></p>
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		<title>17.1</title>
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		<pubDate>Tue, 24 Feb 2009 19:35:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Moraes</dc:creator>
		
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			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" align="justify"><font>E aqui é que o bicho pega pra valer porque, enquanto Miriam falava de equa&ccedil;&otilde;es e gráficos na tentativa de explicar a natureza dos glúons, a vibra&ccedil;&atilde;o anterior se repetiu.</font></p><p align="justify"><font>Pra nossa sorte (eu, Mira, Afonso&#8230; Chuva n&atilde;o conta, sendo instrumento e funcionário dos deuses e tal) Velocidade da Luz tinha feito seu lance antes de ser nomeado batedor de Gauge e nos movíamos com rapidez suficiente pra evitar o pior.</font></p><p align="justify"><font>Gauge n&atilde;o precisava de nada emprestado de outros supercaras. Nem Miriam, que tava no topo das prioridades dele.</font></p><p align="justify"><font>O treinamento de Mira aflorou. Meus instintos de detec&ccedil;&atilde;o, o formigamento entre nariz e olhos que sentia no interior da cabe&ccedil;a em momentos de grande estresse (n&atilde;o, n&atilde;o era um colapso nervoso, quem me dera&#8230; pelo menos seria uma justificativa pra escrever esse documento que n&atilde;o termina&#8230; minha tentativa frustrada de p&ocirc;r as impress&otilde;es em ordem), mais a viv&ecirc;ncia na Peniel do gabarito também ajudaram.</font></p><p align="justify"><font>Peda&ccedil;os do teto desabaram. Os outros estavam de armadura, eu só tinha meu terninho comprado pronto e um .38. Cair, rolar e tentar n&atilde;o ser esmagado pode ser bastante complicado sem o conjunto certo de requisitos. Bom t&ocirc;nus muscular, flexibilidade e caga&ccedil;o.</font></p><p align="justify"><font>Uma das paredes fungóides estalou e come&ccedil;ou a apresentar rachaduras mais depressa do que o bolor branco conseguia crescer.</font></p><p align="justify"><font>Gauge cobria Miriam com seu corpo. A mulher desaparecia sob sua cabe&ccedil;a e torso superdesenvolvidos, e a carapa&ccedil;a org&acirc;nica fazia os escombros quicarem ao atingi-la.</font></p><p align="justify"><font>Mira me agarrou pelo paletó e p&ocirc;s em pé, ao lado de Afonso. Ambos tinham os dentes &agrave; mostra e percebi a semelhan&ccedil;a entre eles naquilo, afinal. </font></p><p align="justify"><font>Sorriam. </font></p><p align="justify"><font>As armas que portavam, diferentes da minha em seu design que combinava tecnologia de Gauge e terrestre, pareciam fazer tudo sozinhas. Se, por acidente, Mira a apontasse pra qualquer aliado, a traquitana n&atilde;o disparava. Ah é! O tro&ccedil;o fabricava seus próprios projéteis. Enfim, muito útil em situa&ccedil;&atilde;o de combate. Formamos um tri&acirc;ngulo na tentativa de proteger nossas respectivas retaguardas.</font></p><p align="justify"><font>E o horror invadiu a sala vindo do espa&ccedil;o! Rá! Tive vontade de gargalhar, porque os glúons, os terríveis invasores, ainda usavam a apar&ecirc;ncia de Lorre e, pior, estavam com a mesma roupa que usavam quando os vi no escritório do galp&atilde;o.</font></p><p align="justify"><font>Talvez fosse exatamente este tipo de rea&ccedil;&atilde;o que queriam provocar: desarmar os incautos com sua apar&ecirc;ncia rechonchuda, desajeitada&#8230; fui pego de surpresa, sim. Também n&atilde;o sou o cara mais apropriado pra lutar com alienígenas. O que me salvou foi ter assistido &lsquo;Relíquia Macabra&rsquo;. Lorre n&atilde;o era um dos &lsquo;mocinhos&rsquo;. Ergui o .38 e o cientista maluco em seu rob&ocirc; gigante pipocou em minha memória. Perigo porra!</font></p><p align="justify"><font>Descobri em primeira m&atilde;o o uso que as amebas espaciais fazem de seus exoesqueletos miméticos. Vendo que estávamos esperando pelo ataque, abandonaram a forma gordinha e atarracada num piscar de olhos. Os bichos cresceram a olhos vistos. O Gar&ccedil;a foi o primeiro a dar-lhes uma calorosa recep&ccedil;&atilde;o. O que quer que a arma dele disparasse fazia efeito e achei que isso era bom.</font></p><p align="justify"><font>Depois de acondicionar Miriam num cilindro na parede(um elevador pneumático, descobri depois), Gauge partiu pro ataque com as m&atilde;os (patas?) nuas. E, fico contente em dizer, ele sabia bater e batia pesado.</font></p><p align="justify"><font>Os glúons atingidos por Afonso vazavam pro ch&atilde;o e escorriam. Os que Gauge socava com gosto só ficavam inertes, imagino que sofrendo de uma concuss&atilde;o amebóide dentro de suas confortáveis armaduras.</font></p><p align="justify"><font>Mira seguia os passos do pai e dava cobertura pra fúria lupina de Gauge.</font></p><p align="justify"><font>Eu só fiquei ali em pé, com a arma apontada e sem disparar. O aviso de Izzy quicava na caixa de osso.</font></p><p align="justify"><font>N&atilde;o era puritanismo de minha parte. Quando minha vida tá em risco n&atilde;o hesito. Pergunte pro Celso. Mas a fala de minha (ex?)namorada dos infernos era importante. O bastante pra ela me procurar in útero pra diz&ecirc;-la.</font></p>
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		<title>16.4</title>
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		<pubDate>Sat, 07 Feb 2009 04:13:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Moraes</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[<p>Descobri n&atilde;o muito depois quanto Miriam estava certa sobre a consci&ecirc;ncia partilhada dos glúons. Ah, e deixei escapar a chance de usar o, como era o nome?, teleprompter que ela ofereceu.Em conseq&uuml;&ecirc;ncia, amarguei ouvir os grunhidos de Gauge, longos e torturantes. Quando a melhor parte da história tava chegando eu já n&atilde;o ag&uuml;entava mais. Sequer [...]</p>
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			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify"><font>Descobri n&atilde;o muito depois quanto Miriam estava certa sobre a consci&ecirc;ncia partilhada dos glúons. Ah, e deixei escapar a chance de usar o, como era o nome?, teleprompter que ela ofereceu.</font></p><p align="justify"><font>Em conseq&uuml;&ecirc;ncia, amarguei ouvir os grunhidos de Gauge, longos e torturantes. Quando a melhor parte da história tava chegando eu já n&atilde;o ag&uuml;entava mais. Sequer tava prestando aten&ccedil;&atilde;o.</font></p><p align="justify"><font>Aqui n&atilde;o teve como Rita ajudar com pesquisa e também n&atilde;o pude recorrer a qualquer tipo de arquivo que tivesse registrado os, &atilde;&atilde;&atilde;, fatos. Tá bom: ao invés de falar de &lsquo;fatos&rsquo; vou falar de &lsquo;impress&otilde;es&rsquo;.</font></p><p align="justify"><font>A primeira que tive foi como um detonador pros outros. N&atilde;o entendi porque reagiram de forma t&atilde;o extrema a um tro&ccedil;o mínimo daqueles. O sal&atilde;o em que estávamos n&atilde;o chegou nem a balan&ccedil;ar, só vibrou um pouquinho.</font></p><p align="justify"><font>Gauge come&ccedil;ou a sinalizar muito rápido e Miriam, Gar&ccedil;a e Velocidade da Luz deviam estar equipados com a porrinha porque ficaram de prontid&atilde;o imediatamente. Roberto virou um borr&atilde;o azulado e sumiu, mas antes fez duas coisas: &lsquo;emprestou velocidade&rsquo; pros presentes e sintonizou a percep&ccedil;&atilde;o de todo mundo no mesmo ritmo, de modo que uma rea&ccedil;&atilde;o rápida demais n&atilde;o ferisse alguém.</font></p><p align="justify"><font>- Checa tua arma, Lucas, e reza pras &lsquo;amebas espaciais&rsquo; n&atilde;o serem &agrave; prova de bala.</font></p><p align="justify"><font>Meigo, né? Mira até tinha adotado minha nomenclatura fuleira. Mas apesar da refer&ecirc;ncia explícita n&atilde;o captei a rela&ccedil;&atilde;o com a vibra&ccedil;&atilde;ozinha&#8230;</font></p><p align="justify"><font>- Lucas, eu preciso ir no banheiro.</font></p><p align="justify"><font>&ldquo;P&ocirc;, Chuva, acho que n&atilde;o é uma boa hora pra isso. Fico com receio de perguntar onde é pressa gente estressada e levar um fora.&rdquo; Quase acrescentei &lsquo;se tiver muito apertado faz nas cal&ccedil;as, aposto que n&atilde;o vai ser a primeira vez&rsquo;, mas me contive. Pensando bem, com meu problema de diarréia verbal, talvez tenha deixado escapar, porque ele respondeu nos seguintes termos:</font></p><p align="justify"><font>- Voc&ecirc; n&atilde;o entendeu. Os chefes querem falar comigo.</font></p><p align="justify"><font>Como é que fui esquecer? Os tais deuses com que Chuva costumava se comunicar, e que eu achava estarem só em sua cabe&ccedil;a, usavam vasos sanitários como orelh&otilde;es. Até dá pra entender a confus&atilde;o se a gente pensar na estética de ambos. Perguntei pra Miriam onde era a &lsquo;casinha&rsquo; e passei a informa&ccedil;&atilde;o pra Chuva que se escafedeu.</font></p><p align="justify"><font>Quando olhei ao redor, mesmo com percep&ccedil;&atilde;o ajustada e o escambau, vi que Afonso e Mira já tavam armados até os dentes e ele parecia ter preocupa&ccedil;&otilde;es muito mais sérias que ocultar sua identidade. Vestia uma roupa parecida com a fantasia original do Gar&ccedil;a&#8230; quase como uma armadura que as polícias de choque européias usam, inclusive um&nbsp; elmo. O material era todo de um preto fosco, felizmente sem os detalhes amarelos que me ofuscavam os olhos e ele tava de cara limpa.</font></p><p align="justify"><font>Mira ficaria linda até dentro de um barril. Preciso lembrar dessa imagem pra futura refer&ecirc;ncia.</font></p><p align="justify"><font>Parece que tanto design quanto material foram duplicados do que Gauge terminava de vestir. Era uma carapa&ccedil;a da mesma cor e parecia, como as paredes daquele nível, fodidamente org&acirc;nica.</font></p><p align="justify"><font>Mais que nunca senti falta de Jack, meu parceiro inseparável em crises como aquela.</font></p><p align="justify"><font>Fiz o que Mira mandou. Torci pra que a precau&ccedil;&atilde;o fosse só isso, como na ocasi&atilde;o anterior, quando &lsquo;resgatamos&rsquo; Chuva do bar no segundo nível. Fiz mais: procurei vazamentos biológicos inconscientes nas minhas roupas, afinal já vinha amea&ccedil;ando vazar por mais de um orifício quase desde o come&ccedil;o dessa história. Felizmente só vi manchas de transpira&ccedil;&atilde;o.</font></p><p align="justify"><font>De repente lembrei de perguntar que raio tava acontecendo, e como sou acomodado e n&atilde;o queria a) ser esculachado por Afonso outra vez e b) servir como repasto pro Gauge, optei por perguntar pra única pessoa presente que n&atilde;o parecia adepta da viol&ecirc;ncia.</font></p><p align="justify"><font>&ldquo;Dona Miriam, n&atilde;o é por nada, n&atilde;o, mas tá acontecendo alguma coisa que eu devia saber?&rdquo;</font></p><p align="justify"><font>Ela me olhou exatamente como minha professora da terceira série fazia, uma express&atilde;o de paci&ecirc;ncia profunda e, por que n&atilde;o dizer, amor ágape. C&ecirc; sabe, que n&atilde;o envolve sexo.</font></p><p align="justify"><font>- Aquela vibra&ccedil;&atilde;o pode parecer pouco, Lucas, mas significa muita coisa. Nossa cidade está isolada do mundo externo, o que implica que a tect&ocirc;nica das placas n&atilde;o nos afeta. Além disso estamos em tamanho reduzido e dependemos de tecnologia segura e testada pra manter-nos estáveis, longe da amea&ccedil;a de elétrons e quarks saltando quanticamente por aí. Trocando em miúdos, só é possível afetar as estruturas de Peniel de dentro e tomamos precau&ccedil;&otilde;es no nível molecular e neuronal pra termos certeza de que nenhum morador comprometeria nossa integridade. A explica&ccedil;&atilde;o restante é que o guardi&atilde;o do portal caiu, possivelmente superado pelos invasores, e que glúons tiveram acesso &agrave; dimens&atilde;o de bolso.</font></p><p align="justify"><font>&ldquo;Mas, tipo, eles n&atilde;o v&atilde;o ficar desorientados como eu e a Mira?&rdquo;</font></p><p align="justify"><font>- Lucas, apesar de nós falarmos dos glúons como organismos, ra&ccedil;a, espécie, n&atilde;o estamos bem certos de que eles seriam afetados pela viagem no &lsquo;escorregador de buraco de minhoca&rsquo;, o mecanismo que te trouxe aqui. Gauge tentou me explicar o que eles s&atilde;o de fato, mas n&atilde;o usou só termos de biologia&#8230; equa&ccedil;&otilde;es complexas e fórmulas matemáticas, além de vários gráficos entraram na sua explana&ccedil;&atilde;o e n&atilde;o tenho certeza de que entendi.</font></p>
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		<title>16.3</title>
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		<pubDate>Wed, 21 Jan 2009 00:41:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Moraes</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[<p>Eu precisava pensar rápido, encontrar uma saída praquela situa&ccedil;&atilde;o esdrúxula. Quer dizer, nesse ponto já deve ter ficado evidente o motivo pelo qual disse que n&atilde;o confio nas minhas memórias do que, de fato, aconteceu em Peniel.Qu&atilde;o alteradas as percep&ccedil;&otilde;es de uma pessoa podem ser sem comprometer sua sanidade? Eu já quase acreditava naquelas histórias [...]</p>
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			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify"><font>Eu precisava pensar rápido, encontrar uma saída praquela situa&ccedil;&atilde;o esdrúxula. Quer dizer, nesse ponto já deve ter ficado evidente o motivo pelo qual disse que n&atilde;o confio nas minhas memórias do que, de fato, aconteceu em Peniel.</font></p><p align="justify"><font>Qu&atilde;o alteradas as percep&ccedil;&otilde;es de uma pessoa podem ser sem comprometer sua sanidade? Eu já quase acreditava naquelas histórias absurdas de obitura&ccedil;&otilde;es&nbsp; que captam sinais de rádio.</font></p><p align="justify"><font>E pra completar, o Gar&ccedil;a Negra, seq&uuml;estrado e substituído por um glúon, agora dava as caras e todo mundo agia como se aquilo fosse natural, fizesse parte da ordem do universo e tal&#8230; tava pensando nisso quando me deu o estalo!</font></p><p align="justify"><font>&ldquo;Tudo bem, dona Miriam, eu topo usar o ponto eletr&ocirc;nico&#8230;&rdquo;</font></p><p align="justify"><font>- É link teletr&ocirc;nico, Lucas.</font></p><p align="justify"><font>&ldquo;Ótimo, brigado pela corre&ccedil;&atilde;o&#8230; link. Eu uso o lance desde que voc&ecirc;s me expliquem porque ninguém estranhou o aparecimento do nosso camarada Afonso aqui, do nada, sem maiores explica&ccedil;&otilde;es. Digo, o cara já foi substituído uma vez. Quem me garante que esse aí n&atilde;o é outro glúon?&rdquo;</font></p><p align="justify"><font>- Peraí, Profit! N&atilde;o faz muito tempo que c&ecirc; ficou me consolando, dizendo que n&atilde;o tinha acontecido nada com meu pai, que uma &lsquo;ameba espacial&rsquo; n&atilde;o ia dar conta de alguém t&atilde;o assustador quanto o Gar&ccedil;a e tudo mais&#8230;</font></p><p align="justify"><font>&ldquo;Ééé&#8230; bom, Mira, voc&ecirc; já respondeu sua pergunta. Eu tava mesmo te consolando.&rdquo;</font></p><p align="justify"><font>- Lucas, eles podem disfar&ccedil;ar suas formas, mas a habilidade pra controlar fei&ccedil;&otilde;es está além da tecnologia que t&ecirc;m.</font></p><p align="justify"><font>&ldquo;Mas dona Miriam&#8230;&rdquo;</font></p><p align="justify"><font>- Preste aten&ccedil;&atilde;o: os glúons que voc&ecirc; encontrou n&atilde;o eram todos parecidos?</font></p><p align="justify"><font>&ldquo;É, todo mundo tinha a cara do Peter Lorre.&rdquo;</font></p><p align="justify"><font>- Ent&atilde;o. Além disso se ele fosse um glúon n&atilde;o teria passado por Heytor.</font></p><p align="justify"><font>Tinha isso, claro. Daí lembrei da última vis&atilde;o que tive de Heytor, na praia perfeita lutando com um glúon que pouco antes usava a fantasia do Gar&ccedil;a.</font></p><p align="justify"><font>&ldquo;Ah! Ent&atilde;o, Afonso, como é que tá o Heytor? E por que c&ecirc; n&atilde;o recuperou tua fantasia?&rdquo;</font></p><p align="justify"><font>- Muito bem, Profit. Suas dúvidas parecem legítimas. &ndash; ele disse isso em um tom que tava longe de ser amistoso, o que contava pontos a seu favor. &ndash; Heytor está bem &ndash; ele continuou &ndash; conseguiu romper o exoesqueleto mimético do glúon e a criatura explodiu em chamas.</font></p><p align="justify"><font>&ldquo;Cara, c&ecirc; tá brincando! Exoesqueleto n&atilde;o é que nem a casca de um caranguejo? Aquela coisa tava mais pra água-marinha!&rdquo;</font></p><p align="justify"><font>- Rárá! Certo. Leve em conta que estamos falando de uma espécie alienígena avan&ccedil;adíssima, t&atilde;o antiga quanto os núcleos dos átomos, e voc&ecirc; vai entender que a compara&ccedil;&atilde;o com um crustáceo primitivo é patética.</font></p><p align="justify"><font>&ldquo;C&ecirc; tá dizendo que n&atilde;o gosta de caranguejo, &lsquo;Gar&ccedil;a&rsquo;?&rdquo;</font></p><p align="justify"><font>- Rapaz, voc&ecirc; está testando minha paci&ecirc;ncia. Primeiro dorme com minha filha, agora vai querer ca&ccedil;oar do meu totem?</font></p><p align="justify"><font>&ldquo;N&atilde;o, quer dizer, sobre esse lance de dormir&#8230;&rdquo;</font></p><p align="justify"><font>É, eu sei, tinha ido longe demais na tentativa de salvar meu rabo. Escapei de usar a porrinha eletr&ocirc;nica e ia levar porrada. Fazer o qu&ecirc;? Eu gosto de caranguejo.</font></p><p align="justify"><font>- Pára, pai. Voc&ecirc; provocou que eu ouvi. Explica logo pra ele essa coisa do exoesqueleto e pronto!</font></p><p align="justify"><font>Essa era minha Mira! Sempre me defendendo do pai maníaco. Ensaiei um sorrisinho pra ela que me fuzilou com o olhar e formou as sílabas silenciosas de um &lsquo;n&atilde;o provoca&rsquo; com aqueles lábios fantásticos.</font></p><p align="justify"><font>- O exoesqueleto dos glúons é parte da tecnologia de sobreviv&ecirc;ncia em ambientes hostis, ou seja, cujas atmosferas provoquem sua combust&atilde;o. Ele os isola e sua capacidade mimética lhes permite assumir formas diferentes: bípedes, quadrúpedes&#8230; até amebas, sem explodir em chamas.</font></p><p align="justify"><font>&ldquo;Por isso que ele n&atilde;o pegou fogo quando a Mira acendeu o batom!&rdquo;</font></p><p align="justify"><font>- Mas de que porra esse&#8230;</font></p><p align="justify"><font>- Pai, olha a linguagem! Ele tá falando do mini-ma&ccedil;arico.</font></p><p align="justify"><font>&ldquo;Eles podem se disfar&ccedil;ar de pássaros também, né?&rdquo;</font></p><p align="justify"><font>- Profit, o que é um bípede pra voc&ecirc;?</font></p><p align="justify"><font>&ldquo;&Atilde;&atilde;&atilde;&#8230;&rdquo;</font></p><p align="justify"><font>E Mira me deu uma cotovelada nas costelas. O pai padecia da boa e velha soberba, dava crédito demais &agrave; sua intelig&ecirc;ncia e subestimava todo mundo que n&atilde;o fosse ele ou um deus alienígena. A filha, por outro lado, sabia que eu tava de sacanagem. Gostava cada vez mais dela e meu interesse já come&ccedil;ava a ir além da recrea&ccedil;&atilde;o sexual com uma mulher perfeitamente deliciosa.</font></p><p align="justify"><font>&ldquo;E tua fantasia? Cad&ecirc;?&rdquo;</font></p><p align="justify"><font>- Estava suja. Imprópria para o uso.</font></p><p align="justify"><font>&ldquo;Ent&atilde;o a gente se livrou dos glúons, certo?&rdquo;</font></p><p align="justify"><font>- rrrmenino&#8230;</font></p><p align="justify"><font>Puta susto! Era uma&#8230; voz que ainda n&atilde;o tinha ouvido. A ficha caiu. O grunhido era de Gauge. Ele, bom, meio que falava afinal. Era um som desagradável pra cacete.</font></p><p align="justify"><font>- rrrglúons rrrs&atilde;o rrruma rrrentidade.</font></p><p align="justify"><font>- O que Gauge quer dizer &ndash; Miriam interrompeu &ndash; é que uma vez que um deles chegou aqui, todos os outros partilharam seu conhecimento e aprenderam os caminhos. Eles sabem, inclusive, que obstáculos enfrentar&atilde;o. Voc&ecirc; sabe, ele t&ecirc;m uma consci&ecirc;ncia partilhada, apesar de também terem tratos que quase chegam a formar personalidades individuais.</font></p>
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		<title>16.2</title>
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		<pubDate>Tue, 13 Jan 2009 04:28:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Moraes</dc:creator>
		
	<category>K.I.S.S.</category>
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		<description><![CDATA[<p>Sim, como qualquer ser humano afoito com a autopreserva&ccedil;&atilde;o, minha aten&ccedil;&atilde;o tinha sido dirigida &agrave; amea&ccedil;a mais imediata do Gar&ccedil;a, melhor, do Afonso, melhor, do pai da Mira, e Gauge e sua companheira meio que ficaram por ali como figurantes no &lsquo;drama&rsquo; de minha vida.Eu tava na mesma sala que o sujeito que, me disseram, [...]</p>
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			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" align="justify"><font>Sim, como qualquer ser humano afoito com a autopreserva&ccedil;&atilde;o, minha aten&ccedil;&atilde;o tinha sido dirigida &agrave; amea&ccedil;a mais imediata do Gar&ccedil;a, melhor, do Afonso, melhor, do pai da Mira, e Gauge e sua companheira meio que ficaram por ali como figurantes no &lsquo;drama&rsquo; de minha vida.</font></p><p align="justify"><font>Eu tava na mesma sala que o sujeito que, me disseram, &lsquo;é o melhor de nós&rsquo; (levando em considera&ccedil;&atilde;o que isso foi dito por alguém da comunidade fantasiada e que esses caras t&ecirc;m um ego do tamanho do Godzilla, é muita coisa) e, segundo informa&ccedil;&otilde;es oníricas que se provaram precisas com a corrobora&ccedil;&atilde;o de Roberto Maia (ou Velocidade da Luz), tinha sobrevivido &agrave; queda de seu disco voador (ou o que fosse), derrotando os glúons que o perseguiam em combate, ocultado uma cidadezinha inteira de detec&ccedil;&atilde;o humana e/ou alienígena e construído uma comunidade utópica usando-a como base e, ainda assim, me comportava como o pedestre que anda pelas ruas acotovelando as pessoas, ou um turista de shopping que só enxerga o que está imediatamente &agrave; sua frente ignorando os demais que ocupam o mesmo espa&ccedil;o, ou o motorista que n&atilde;o v&ecirc; pedestres e só v&ecirc; outros carros quando entram em rota de colis&atilde;o com o dele.</font></p><p align="justify"><font>Toda a raiva que dirigi moderadamente a tantas pessoas pareceu, de repente, injustificada, uma vez que eu tinha acabado de fazer o mesmo.</font></p><p align="justify"><font>E lá estava Gauge. Muito em forma prum cara que caiu em nosso monte de lama em 1936. Ligeiramente curvado pra frente mas n&atilde;o por conta do peso dos anos. Era característica de sua espécie, que tinha a parte superior do corpo (tronco, ombros, bra&ccedil;os, cabe&ccedil;a) muito desenvolvida. Conveniente pra um povo que explorava estrelas e se engajava em combates de morte há mil&ecirc;nios.</font></p><p align="justify"><font>Gauge me fazia lembrar de lobos, ruskies, pastores. Talvez por causa da barba cerrada e cabelos abundantes, talvez, novamente, por causa da postura arqueada quase animalesca que, entre outras coisas, ajudava a proteger peito e abd&ocirc;men (as partes mais moles do corpo que d&atilde;o acesso aos órg&atilde;os vitais) e aliviava a carga das &lsquo;patas&rsquo; traseiras, talvez por causa das orelhas que lhe davam um aspecto de aten&ccedil;&atilde;o excepcional, ou &agrave;s narinas que se dilatavam cheirando o ar com enorme prazer enquanto ele jogava a cabe&ccedil;a pra trás&#8230; mas eram os olhos que mais denunciavam esse parentesco canino. Olhos zen, que n&atilde;o entregavam o que se passava em sua mente e ainda assim eram fodidamente expressivos, que podiam estar dizendo algo como &lsquo;continue falando e trate de manter-me interessado, porque sempre posso fazer uso gastron&ocirc;mico do que n&atilde;o me apetecer de outra forma&rsquo;, ou coisa parecida. Era como olhar pro Django, meu ex-cachorro. Grandes olhos amendoados, sempre límpidos, e pronto pra confus&atilde;o a qualquer momento&#8230;</font></p><p align="justify"><font>Acho que deu pra entender. Esse aspecto de &lsquo;porra, que ele vai fazer na seq&uuml;&ecirc;ncia?&rsquo; na verdade era mais assustador que as técnicas de provocar medo do Gar&ccedil;a. Quer dizer, com o Gar&ccedil;a c&ecirc; poderia prever um olho roxo ou uma fratura exposta ou um tiro na cabe&ccedil;a&#8230; com Gauge, por outro lado&#8230;</font></p><p align="justify"><font>E tinha a porra do sonho na estrada! Entalado na boca do lobo! Só quando tava entrando em desespero com a possibilidade de virar o almo&ccedil;o de Gauge lembrei da mulher.</font></p><p align="justify"><font>E era uma mulher mesmo, n&atilde;o uma dessas meninas fantasiadas de adulta e, definitivamente, n&atilde;o uma senhora da terceira idade tentando passar por mocinha. Mulher, ponto final.</font></p><p align="justify"><font>Ela acariciou o ombro de Gauge como se fosse importante manter um vínculo com ele. Ele encostou sua cabe&ccedil;a enorme na m&atilde;o dela. É, o vínculo ali, evidente, era diferente do de uma mulher e seu bicho de estima&ccedil;&atilde;o.</font></p><p align="justify"><font>Eu devia estar embasbacado demais porque Mira fez uso de seus dotes de &acirc;ncora com a realidade e estalou os dedos diante de meus olhos dizendo &lsquo;terra pra Profit!&rsquo; tr&ecirc;s vezes. Ent&atilde;o as apresenta&ccedil;&otilde;es voltaram ao cardápio do dia.</font></p><p align="justify"><font>- Meu nome é Miriam, Lucas, e se voc&ecirc; quiser falar com Gauge temos duas op&ccedil;&otilde;es: ter paci&ecirc;ncia com as limita&ccedil;&otilde;es vocais que ele tem ou usar o link teletr&ocirc;nico.</font></p><p align="justify"><font>&ldquo;Ah, oi, meu nome é&#8230; rárárá! Voc&ecirc; sabe meu nome, né? E&#8230; se eu usar o tal link vou desmaiar, entrar nalguma realidade virtual ou passar por algum tipo de ilumina&ccedil;&atilde;o espiritual súbita?&rdquo;</font></p><p align="justify"><font>- Realmente? N&atilde;o, Lucas. Voc&ecirc; só se tornará capaz de processar e emitir os agregados de imagens/pensamentos através dos quais Gauge prefere comunicar-se. É tudo muito simples e higi&ecirc;nico.</font></p>
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